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Em Predador: Terras Selvagens, um jovem Predador é banido de seu clã e precisa se aliar a uma sobrevivente humana chamada Thia (Elle Fanning) para sobreviver. Juntos, eles embarcam em uma perigosa jornada em um planeta remoto em busca de um oponente à altura, que pode restaurar o respeito do Predador dentro de sua própria raça.

Predador: Terras Selvagens parte de um ponto muito diferente dos anteriores da franquia. Aqui, o caçador não é a ameaça – ele é o protagonista, ele é o herói. Pela primeira vez, o filme se interessa em explorar o que existe por trás da criatura, seu mundo, suas tradições e até sua noção de família. Essa inversão de perspectiva dá ao mito do Predador uma dimensão quase trágica, que humaniza o monstro, o torna mais empático, mas não por isso perdendo suas principais características.

O filme conta a história de Dek, um jovem Predador (Yautja) rejeitado e estigmatizado como indigno de sua espécie por seu próprio pai. Condenado à morte por sua fraqueza, Dek só escapa do destino imposto graças a um ato final e desesperado de sacrifício de seu irmão. Lançado em um exílio forçado, ele embarca em uma jornada arriscada através de um planeta selvagem, determinado a derrotar uma poderosa e lendária criatura – a única caça capaz de provar seu valor e, quem sabe, reconquistar o respeito e a honra perdidos junto à sua família.

Mas quem se destaca mesmo é Elle Fanning, que surge como o destaque humano (ou, mais precisamente, sintético) do filme no papel de Thia, uma androide da empresa Weyland-Yutani que ajuda a jornada do protagonista. Sua presença é uma espécie de muleta que o filme usa para humanizá-lo, equilibrando uma aparente fragilidade que vem de sua aparência quebrada com uma força inesperada – mas em alguns momentos, é também um alívio cômico que destoa do tom do próprio filme. É através da interação dela com o jovem Predador, que o filme consegue criar algum tipo de envolvimento com o público, é um filme sobre livre-arbítrio e hierarquia muito graças a visão de mundo que ela apresenta. No entanto, a personagem também é aquele forte clichê narrativo – uma aliada convenientemente empática cuja doçura suaviza a aspereza intrínseca ao universo dos Yautja.

Quanto a essa parte sobre livre-arbítrio e hierarquia, o filme confronta diretamente a rigidez das tradições Yautja (a imposição da caça e do clã) e a programação inerente à sintética Thia (servir à Weyland-Yutani). Ao unir o Predador exilado à androide danificada, o filme questiona a quem se deve lealdade: ao sangue e às leis de uma sociedade opressora, ou à escolha individual e à empatia. Thia, que tecnicamente não deveria ter vontade própria, e Dek, que tenta desesperadamente provar seu valor a um pai intransigente, tornam-se espelhos um do outro – criaturas presas a sistemas de dominação que lutam para redefinir seu propósito fora das amarras de seu design biológico ou cultural.

Mas a estrutura episódica e o tom de aventura diluem o perigo. A ação é bem coreografada de forma geral, há algo de “video game” no modo como o filme se estrutura. As fases parecem vir em blocos, cada cenário introduzindo um novo tipo de desafio ou criatura, e o protagonista vai avançando como se acumulasse pontos de experiência. Isso torna a experiência divertida e eletrizante, mas também um pouco mecânica. O foco em mostrar as “provas” e a evolução do Predador, em vez da caça implacável, transforma o terror de sobrevivência em uma aventura linear e bem previsível – um espetáculo visual que nem sempre se sustenta dramaticamente.

Ainda assim, a quebra da tradição é um mérito. A franquia, que há décadas repete a fórmula do humano versus monstro, finalmente arrisca olhar para outro lado, e o faz com alguma originalidade. Essa mudança indica um esforço em repensar o que o Predador pode ser, sem depender só da nostalgia ou da brutalidade dos anteriores.

Também existe uma forte suavização do terror em prol do senso de aventura, ouvi na rede social X o termo “Disneyficação” da franquia, e concordo com isso, é muito menos violento que qualquer outro filme do predador, mas isso também pode ser visando alcançar um novo público. O foco aqui é na cultura e honra do Predador, o que embora narrativamente interessante, substitui a crueza sensorial que definia o Predador de 80, fica a sensação de que poderiam mesclar melhor os dois mundos, mas não estou aqui para inventar um filme diferente, apenas comentá-lo dentro de sua proposta, e não seria justo implicar por algo que sequer tenta ser.

Devo comentar  brevemente sobre o filme ser muito escuro no início, o que contribui para uma sensação de confusão com o que está acontecendo – e quando a ação se impõe, ela carece de crueza, tudo parece uma versão família da franquia, tudo neste filme parece muito “escondido”, camuflado. Comandado pelo mesmo diretor de Prey (que eu adoro), o longa parece apontar para um novo futuro da franquia: menos sobre o horror da caça, mais sobre a cultura e a honra do caçador. Se isso é bom ou ruim, ainda é cedo para dizer, mas Terras Selvagens marca uma virada curiosa – uma que, ao menos, tenta dar novos instintos a uma criatura que já caçava no piloto automático. Além disso, existe uma conexão explícita com o universo Alien (através da Weyland-Yutani e da sintética Thia) sinaliza um caminho que prioriza a expansão de universo (ao estilo MCU) acima da história isolada de terror/ação, visando um futuro de crossovers e maior apelo de blockbuster.

Predador: Terras Selvagens é um bom filme, nada muito além disso, mas é bem divertido no que se propõe e deixa uma sensação de quero mais. É sempre ótimo ver a Elle Fanning em tela e o jovem Predador tem certo carisma, só espero que tenham coragem de serem mais brutais no futuro, a violência polida não colou.

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