Sinopse: Demonizada como a Bruxa Má do Oeste, Elphaba vive no exílio, enquanto Glinda reside na Cidade Esmeralda. Quando uma multidão furiosa se levanta contra a Bruxa Má, ela precisa se unir com Glinda para transformar a si mesma e todo o Oz, para o bem.

Impossível falar de “Wicked: Parte Dois” sem fazer algum paralelo com seu antecessor, do qual eu gosto muito. A adaptação do segundo ato do musical mundialmente famoso acerta no tratamento de cores, mais vibrante e elegante do que no primeiro, mas tropeça em músicas menos inspiradas e em um ato final apressado, diferente do antecessor que não se preocupa em levar o tempo necessário para nos introduzir e desenvolver aquele mundo. A emoção até aparece, mas muito mais pela força de Cynthia Erivo, novamente impecável, do que pela narrativa construída.
Após um salto temporal com relação aos eventos do primeiro filme, muita coisa mudou. Glinda agora é a bruxa boa de Oz com apoio de Madame Morrible e do Mágico, Nessarose Thorpe é a nova governadora da terra dos munchkins com Boq sendo uma espécie de assistente dela, Fiyero é o comandante da guarda e Elphaba refugiada na floresta faz de tudo para tentar ajudar os animais e expor ao mundo que o Mágico é uma fraude.
São todos os elementos já estabelecidos do musical que são repetidos aqui, o problema está em repetir os mesmos “erros” da peça no filme também, nesta segunda parte parece ocorrer muitas coisas e nada ao mesmo tempo, muito por conta do ritmo arrastado presente que permeia os primeiros 90 minutos. Já no final, tudo parece entrar no modo turbo com a inserção da “história” da Dorothy.
Gosto de como a continuação aprofunda a discussão quanto a noções de bem ou mal, especialmente ao mostrar Elphaba cada vez mais isolada, não porque seja perigosa, mas porque ousa ver e confrontar aquilo que os outros fingem não enxergar, especialmente a crueldade com os animais. A floresta onde vive é seu exílio do mundo. A partir daí, a pergunta central do conto se torna mais evidente: quem define o que é ser maligno?

E Glinda permanece como um ponto mais sensível dessa moral claramente desalinhada de Oz. Sua bondade é pública, luminosa e até performática para uma população assustada que busca líderes carismáticos mais do que líderes justos. A personagem sabe que está tomando decisões questionáveis, mas acredita que o impacto social de sua imagem é mais importante do que seus conflitos internos, além de tudo, no fundo ela só quer ser amada. Isso transforma sua bondade em algo frágil, quase ornamental, e faz dela a figura mais trágica da história. Wicked entende que a maldade pode vir tanto da ambição quanto do conformismo, e talvez seja por isso que Ariana Grande-Butera seja sempre tão destacada quando falam do filme (mesmo que esteja até um pouco infantil demais), se antes parecia ser muito mais sobre a Elphaba, agora é isso é bem mais equilibrado.

Já o Mágico é o retrato perfeito de como sistemas inteiros podem se erguer sobre mentiras confortáveis, mas eficientes. Sua política de silenciamento dos animais e de controle da informação não são frutos de crueldade pura, mas de um desejo adolescente, quase infantil por relevância. O filme continua batendo na tecla de que a maldade não vem daqueles que se espera, mas de pessoas comuns com muito poder e pouco interesse em fazer o bem. É por isso que Elphaba, mesmo errando, continua sendo a única personagem que age a partir de uma ética própria, não herdada de autoridades.
E é interessante como a população de Oz prefere acreditar no que facilita a vida, não no que é verdadeiro (nada mais real que isso). E o filme não trata essa escolha como maldade, mas como um comportamento social comum: é mais confortável aceitar a ordem estabelecida do que questioná-la. E isso acaba ressoando no nosso próprio mundo, onde narrativas moldadas e verdades questionáveis se espalham com uma velocidade assustadora. Wicked nunca foi apenas sobre bruxas ou sobre a história do Mágico de Oz, mas sobre a fabricação de consenso.
Uma pena que todas essas discussões tão ricas acabam sendo diluídas em um filme cujo ritmo é consideravelmente mais problemático que o do anterior. A sensação de superficialidade se impõe, não porque as ideias sejam fracas, mas porque a execução soa repetitiva, como se nunca encontrasse espaço para aprofundar os próprios temas. As músicas, que são menos cativantes e bem menos memoráveis, contribuem para essa impressão de que falta uma maior carga emocional justamente onde deveria haver um grande impacto – “For Good” mesmo que é a música do título original, é muito bonita, mas tinha potencial para emocionar ainda mais. Wicked: Parte Dois é muito mais chamativo nas questões que levanta do que em sua execução, deixando a promessa de algo maior do que o que realmente chega à tela.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.