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Acho importante começar dizendo que eu não acho que o filme ficou devendo nada ao musical; achei que fez uma adaptação que, além de muito fidedigna, conseguiu fazer mais sem desrespeitar a origem.

Wicked: For Good tem algumas falhinhas que poderiam ser evitadas, dado o tamanho da produção. Especificamente, a animação dos búfalos/bisões/rinocerontes no começo ficou muito ruim – não achei as outras animações ruins depois, mas a da sequência do início, na estrada de tijolos amarelos, ficou bem porca. Além disso, a cena dos panfletos caindo na primeira música: os que caem têm um lado impresso e outro branco; já os que os atores pegam têm ambos os lados impressos. Essas coisas me incomodaram por não terem muita justificativa, já que o filme é uma produção gigante e não precisava deixar espaço para essas falhas.

Sobre as cores, que muito estão sendo comentadas, não é como se o filme não tivesse uma equipe tratando disso e como se as escolhas fossem aleatórias e não pensadas. Faz sentido em ambos os filmes as cores não serem as mais alegres e saturadas possíveis. TODOS os personagens estão guardando algo, um sentimento ruim, uma dúvida, um amargor, uma mentira. Não seria verossímil pro universo, as cores são políticas – as mais vibrantes são usadas na cidades das esmeraldas/tijolos amarelos e quando estão fazendo propaganda contra a Bruxa Má do Oeste. 

Na minha visão, nada de errado com as cores, acho lindas, acho sensíveis, acho que cumprem seu trabalho e sua função em contar a história. 

No mais, o meu ÚNICO problema com o filme em si é a heterossexualidade compulsória mesmo.  Nessa linha, o Fiyero precisava ser muito melhor trabalhado. Fica extremamente óbvio o maior motivo de ele existir como existe na história e isso inevitavelmente assombra a presença dele nela.  

Grande parte da história (e do marketing) é construída em torno de Gelphie (Glinda+Elphie) e dos sentimentos entre elas, que eles apontam em momentos mas nunca se dando a liberdade de ser direto ou ir além. E tudo bem, é parte da magia e da construção da Tragédia. É bonito e é significativo como foi, mas muito claramente poderia ter sido mais. Entendo a escolha de jogar para todos os lados e todos os públicos e não critico isso, mas poderia ter sido feito de uma forma mais corajosa, talvez. 

Ainda sobre o Fiyero, ele como espantalho ficou a CARA do Ryan Reynolds e não sei se isso é uma escolha muito inteligente (além disso ele ta loiro e com os olhos marrons, assim como uma certa bruxa boa, o que, aí sim, achei uma escolha bem esperta).

As atuações estão devastadoramente boas. Cynthia dispensa comentários de tão boa e Ariana surpreende positivamente mais uma vez, dessa vez com desafios muito maiores e superações maiores ainda de expectativas. Nada me prepararia para ver o que vi ela fazendo. Ambas são artistas muito completas e puderam expor isso, performances imaculadas.  A performance da Cynthia Erivo em No Good Deed foi arrepiante, que poder essa mulher tem. As expressões faciais/corporais da Ariana Grande são pra mim não o recheio do bolo, mas o bolo quase inteiro. 

A Elphaba da Cynthia e a Glinda da Ariana podem facilmente ser comentadas para sempre como um grande exemplo. De todas as escolhas, essa dupla foi a mais acertada. 

(Inclusive, depois de ver o filme, imagino que eu choraria mais que elas nas entrevistas se tivesse feito parte disso…)

Se elas e o filme, mas especialmente a Ariana, não levarem nada nas premiações, vou ficar muito tristemente decepcionada, ser esnobado com ESSAS performances beiraria o inaceitável. 

Importante destacar que o que está sendo adaptado para a telona é o segundo ato do musical Wicked, que é conhecidamente pior que o primeiro (especialmente por ser muito corrido e não ter o tempo necessário para aprofundar algumas coisas, além de ser uma outra vibe completamente – a gente sai de uma Oz mágica, idealizada, para, pela descoberta da Elphaba, passamos pra uma Oz feia, fascista, fabricada). Dito isso, na minha perspectiva esse filme conseguiu fazer mágica com o material que tinha pra trabalhar. (E isso se apoia bastante nas atuações das duas principais). 

Um outro acerto do filme, pra mim, foi a inserção da Dorothy da forma com que fizeram. Inseriram e conduziram o trio como um todo e a história de O Mágico de Oz com grande destreza, tem o desenvolvimento do background deles, muito bom, inclusive, mas depois, adentrando na lenda já conhecida por todos, eles seguem periféricos, mas constantes. A história já está entranhada no imaginário coletivo, qualquer contexto adicional seguindo eles e a Dorothy, em especial, seria supérfluo. Além disso, a cena do derretimento foi notavelmente brilhante. 

Já tinha tido jogo de sombra antes e achei todos muito bem feitos. 

Transcendendo subjetividades, nada além do díptico de Wicked nos últimos anos me trouxe uma sensação maior de estar diante de um clássico instantâneo se revelando. 

É o tipo de filme que eu mal posso esperar pra mostrar pros meus filhos (eu ainda nem tenho filhos). 

Se Hollywood deseja resgatar a magia do cinema que foi perdida nos últimos tempos, precisa começar por coisas assim (mas se atualizando, porque não tem como viver de migalhas num mundo que pode tudo até animal falar, menos uma demonstração clara de amor entre pessoas do mesmo gênero) 

Por último, mas não menos importante, nada me preparou para aquela última cena. Que bem pensado! 

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