Sinopse: A história de vários personagens ligados ao mundo da música se cruza na cidade de Nashville, capital do Tennessee. Barbara Jean é considerada a rainha do local, mas está à beira de um colapso; Linnea e Delbert Reese mantém um casamento instável e possuem filho deficiente; Opal é um jornalista britânico a trabalho na cidade. Clássico dirigido por Altman, indicado em cinco categorias do Oscar e ganhador da estatueta de melhor canção – “I’m Easy”, de Keith Carradine.

No campo da comunicação há diversos modelos teóricos acerca da transmissão de mensagens. Um dos mais clássicos e influentes é o modelo de Shannon-Weaver que descreve o processo comunicativo em cinco etapas: a fonte (que gera a mensagem), o transmissor (que a codifica), o canal (o meio que a transmite), o receptor (que a decodifica) e o destino (que a recebe). É um modelo que, apesar de ter uma origem matemática e ser relativamente simples e lógico, identifica um problema inerente, o ruído. Esse elemento é quase um fenômeno natural da comunicação, podendo surgir em diferentes formas e em diferentes etapas do processo comunicativo, interferindo em menor ou maior grau na lucidez da transmissão, e por isso precisa ser minimizado ou gerenciado de forma a não descaracterizar a mensagem. Não são poucas as palavras que podem ser — e já foram — usadas para descrever alguma característica de Nashville ou a obra por inteiro. Revivendo a experiência do filme, me parece inevitável dizer que a palavra que melhor representa Nashville pra mim é ruído. Não conseguiria identificar a presença do ruído e isolá-lo do filme para compreender uma mensagem originalmente pura por um motivo: a mensagem é o próprio ruído. Não há um plano na obra mais aclamada de Robert Altman em que não estejam acontecendo muitas coisas ao mesmo tempo. O filme recria o caos inerente a qualquer multidão e a falta de certezas amplia o valor da obra para além do que é retratado em cena.
Quem já ouviu falar em Nashville, TN sabe que lá é a meca da música country, onde muitos artistas se estabeleceram como ícones do gênero através das diversas gravadoras que lá estão e dos festivais que ocorrem há décadas na cidade. O country é um gênero musical muito característico do Sul dos EUA, influenciado por uma pluralidade de estilos que vão desde a música tradicional indígena, a música tradicional e folclórica de imigrantes europeus até os gêneros afro-americanos como gospel e blues — gêneros também originários da região sul/sudeste dos EUA. É uma representação cultural muito específica de uma classe trabalhadora “caipira” de estados como Kentucky e Tennessee — além de muitos outros — e que por consequência ganhou um caráter industrial/comercial muito forte com sua popularização. Robert Altman foi um diretor que tinha como uma de suas virtudes a habilidade de capturar momentos e imergir o público por completo no ambiente retratado. Por esse motivo que mandou a roteirista Joan Tewkesbury à Nashville para observar a cidade e seus habitantes, e através de seu diário — a base do roteiro — ter a visão genuína de alguém entrando em contato com aquela cultura pela primeira vez. Em uma primeira camada é isso que se apresenta no filme, uma cidade a ser descoberta pela câmera.
A mise-en-scène no estilo Altmanesco se caracteriza pela busca de retratar a realidade da forma mais crua possível. Os movimentos de câmera e os planos longos são algumas das armas mais características do realizador, já que trazem visceralidade, um senso de continuidade das ações e movimentação do mundo, assim como os planos com enquadramentos mais abertos e com profundidade de campo, estabelecendo um cenário para ser captado pela câmera como cenas reais. É uma busca por uma autenticidade na representação dos fatos. Para Altman, mesmo havendo algum nível de controle, manipulação e planejamento, é crucial que o próprio processo de filmagem tenha liberdade para se expressar. E um dos aspectos onde essa liberdade é notada é justamente no som de seus filmes. Durante a produção de California Split, Altman desenvolveu um sistema de gravação multicanal em que, ao invés de ter um microfone captando todo o ambiente, múltiplos atores tinham microfones próprios, captando sua voz e o som ao redor. Através disso, o diretor conseguia criar um caos controlado ao incentivar o improviso dos diálogos e que os atores falassem em cima uns dos outros, disputando a atenção do público que precisa decidir por si o que acompanhar. O excesso de palavras se torna uma forma de ruído no cinema Altmanesco — o que torna os filmes muito interessantes de reassistir, já que sempre há algo novo a ser descoberto —, mas esse ruído transforma o som em um elemento ativo e de destaque na obra e não apenas técnico e subserviente à narrativa.

Um grande elenco — tanto em quantidade quanto em prestígio — é outra característica muito presente na maioria de seus melhores filmes. Altman tinha maneiras pouco ortodoxas de escolher os seus atores — quase não fazia testes, escolhia com base nas conversas que tinha com eles, muitos não sendo atores profissionais a priori ou tendo pouca experiência — e reutilizava-os com frequência. Difícil escolher sobre quem falar, a narrativa coral traz personagens em diversas fases da vida e de diferentes contextos individuais. Diria que consigo dividir os personagens em três grupos: os ícones, os aficionados e (o pessoal dos) bastidores, além daqueles que transitam entre esses grupos e aqueles que não se encaixam mas estão ao redor. Dentre os ícones se destacam Barbara Jean (Ronee Blakley), a grande sweetheart de Nashville que se recupera de um evento traumático e rivaliza com a glamurosa Connie White (Karen Black), que só aparece quando Barbara não está; o veterano egocêntrico Haven Hamilton (Henry Gibson); Tommy Brown (Timothy Brown), o grande representante afro-americano do gênero; e o trio formado pelo casal fragilizado Bill (Allan F. Nicholls) e Mary (Cristina Raines) e o mulherengo Tom (Keith Carradine). Há um processo de incorporação de personas. Muitos desses atores representaram ícones culturais reais. Neste grupo é onde predominam sentimentos como ganância e individualismo, são pessoas que tentam transparecer uma grandeza individual e os valores da música country — e dos EUA — mas estão cada vez mais podres por dentro.
Entre a massa de aficionados as personagens que se diferem são Opal (Geraldine Chaplin, o sobrenome não é coincidência), uma excêntrica jornalista britânica obcecada pelos ícones e serve como aquela que apresenta o mundo do filme ao espectador, mas não apenas como mera observadora mas como agente ativa da relação público x celebridade — a personagem é inspirada na própria roteirista Joan Tewkesbury — e Martha (Shelley Duvall), que vai a Nashville supostamente para visitar sua tia doente, mas passa a maior parte do tempo atrás de cantores. Ainda entre os aficionados, daria para destacar um subgrupo daqueles que buscam o estrelato como Sueleen Gay (Gwen Welles) e Winifred (Barbara Harris). São personagens interessantes por uma certa dualidade: são genuínos e buscam os seus objetivos de forma fiel ao que acreditam, mas estão completamente fora de suas faculdades mentais, sendo movidos por sonhos delirantes e egoístas. São a base da indústria, mas não possuem nenhum controle sobre ela, seus desejos são fabricados. A segunda camada que identifico no filme é justamente essa relação público e celebridade, e gosto como em Nashville, eles habitam os mesmos ambientes, não há um distanciamento semelhante ao que normalmente acontece na vida real hoje em dia. São todas pessoas, em posições diferentes, mas com problemas semelhantes. Entretanto, enquanto os ícones são divindades para os aficionados, por sua vez, os aficionados são mais do mesmo para os ícones. Mais um buquê de flores ou mais uma transa sem compromisso, são meros subservientes de seus desejos. O personagem mais curioso do filme é o motoqueiro interpretado por Jeff Goldblum que nunca fala uma palavra mas é onipresente, marcante pelo seu estilo semelhante aos personagens do filme Sem Destino.

A terceira camada, que o filme despista, mas não se preocupa em esconder, é o contexto político que se apresenta. A política americana é marcada por uma dualidade e alternância de poder entre dois partidos que todo mundo está cansado de ouvir falar — por aqui e por lá — e nunca houve uma alternativa bem-sucedida de contrapor ao status quo da política institucional — assim como na grande maioria do mundo no último século. Essa saturação de um modelo que não permite mudanças estruturais gera questionamentos que, sem uma compreensão lúcida dos fatos, são muito facilmente cooptados por meio de respostas simples. Hal Phillip Walker não precisa dar as caras para conquistar as mentes e corações daqueles que o ouvem. O outsider que representa a “voz do povo” e oferece soluções fáceis para problemas complexos. Em uma cultura que valoriza o tradicionalismo, mitifica a história dos EUA (“we must be doin’ somethin’ right in the last 200 years”) e defende os seus símbolos manchados de sangue, não é de se espantar que o senso comum seja conservador e reacionário. Os bastidores do encontro entre política e indústria musical demonstram o quanto o poder influencia. John Triplette (Michael Murphy), o principal organizador da campanha de Walker, é um lobo em pele de cordeiro, que entende o que as estrelas desejam para estarem ao seu lado. Não há problema em o artista nunca ter se envolvido com política ou em ser registrado como democrata, há sempre o que ceder para conquistar artistas tão gananciosos que se vendem por qualquer coisa que satisfaça seu ego. A indústria Country sempre foi um campo político em disputa, mas no geral mais alinhado ao establishment. Interessante os comentários feitos por uma personagem sobre JFK, demonstram que de fato havia espaço a ser disputado, mas as raízes ideológicas e religiosas tendiam a um lado, e o filme representa um momento em que o discurso desse lado ganhou tração e demonstra alguns motivos para isso.
É realmente o modelo de filme político moderno que influenciou boa parte dos posteriores como muitos críticos defendem — não necessariamente de forma elogiosa — além de ser a maior representação épica de uma narrativa coral no cinema — que o próprio Altman voltou a utilizar em Short Cuts. O uso alegórico de um ambiente não necessariamente politizado para realizar certos comentários é interessantíssimo, por mais que fique a dúvida do quanto de fato foi proposital e o quanto que só uma representação realista da indústria. O caráter político de filme se evidencia principalmente ao final com um assassinato profético. Um aficionado de quem não se esperava nada deu um tiro que matou um ícone. Mas o show teve de continuar. Os mortos estão livres das dores desse mundo. Nashville é um microcosmo de caráter mitológico que toma contornos inesperados, mas que na aparência se mantém o mesmo de sempre. As mesmas ideias, as mesmas figuras, os mesmos símbolos e a manutenção da autoridade dos EUA acima de tudo. Ou melhor, o reforço desses elementos. Não poderia deixar de lembrar de Linnea Reese (Lily Tomlin), a personagem de destaque que mais aspira à humanidade, os momentos com seus filhos são os mais lindos em toda a rodagem.

Estudante de Publicidade, carioca da gema e fã de arte moderna, Pedro é um dos fundadores da Toca Cinéfila, e seu diretor favorito é Jean-Luc Godard.