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Sinopse: Na esperança de um novo começo, uma jovem se torna empregada doméstica em tempo integral para um casal rico que abriga segredos sinistros

A indústria cinematográfica contemporânea, especialmente o segmento de thrillers produzidos pelos grandes estúdios de Hollywood, parece ter atingido um ponto de saturação onde a originalidade é frequentemente sacrificada para atender a uma familiaridade algorítmica, principalmente com a popularização dos streamings. O lançamento de “A Empregada” , dirigido por Paul Feig e adaptado do fenômeno literário de Freida McFadden, é praticamente a representação em forma de filme desta saturação, mas ele consegue brincar a partir disso. À primeira vista, o filme poderia ser descartado como um mero subproduto da reciclagem estética de fórmulas que já se mostravam exaustas nos anos 90. Contudo, considero que existe uma autoconsciência por parte do diretor da própria mediocridade da narrativa base, transformando tudo em uma experiência estranhamente fascinante.

Em “A Empregada”, acompanhamos a trajetória de Millie (Sydney Sweeney), uma jovem que busca recomeçar sua vida e acaba aceitando um emprego como empregada na luxuosa mansão dos Winchester. À primeira vista, o cenário parece o paraíso, mas Millie logo se vê presa em uma teia de segredos perturbadores e comportamentos erráticos de sua patroa, Nina (Amanda Seyfried), levando Millie a questionar tudo sobre aquela família que era praticamente perfeita.

No elenco, Sydney Sweeney entrega uma personagem que carrega em si um grande segredo, mas ela oscila constantemente entre a vulnerabilidade das heroínas de suspense e uma grande apatia, não vou entrar nas polêmicas quanto a ela, mas se mostra o elo fraco entre as duas protagonistas, mesmo sendo sim operante. Já Amanda Seyfried abraça o excesso, transformando Nina em uma caricatura deliciosa das vilãs domésticas, ela é o ponto alto do filme. E no fundo, elas não estão tentando salvar o roteiro de sua natureza derivativa; pelo contrário, elas o abraçam. Vale mencionar também Brandon Sklenar, que faz bem o papel de marido super querido e atencioso (talvez até demais) – Já o ator Michele Morrone não tem absolutamente nada para fazer além de uma cara de sonso e a maravilhosa Elizabeth Perkins não tem absolutamente nada para fazer além de uma cara malvada.

O filme representa, de forma quase poética, a junção do que há de pior no cinema estadunidense contemporâneo – a dependência excessiva de clichês, frases de efeito que beiram ao ridículo e um roteiro que subestima a inteligência do espectador através de explicações redundantes, e não que a explicação seja o problema, mas quando entra nela, o filme parece ficar dando voltas em círculo. No entanto, é precisamente nesse abismo de obviedades que reside o seu charme. Existe uma beleza singular em observar a máquina de Hollywood operando em potência máxima para dar vida a uma narrativa que, em sua essência, é uma colcha de retalhos de tropos melodramáticos e reviravoltas de qualidade questionável, lembrando muito os filmes da LifeTime, mas com um refinamento estético muito maior. 

A experiência de assistir ao longa assemelha-se muito ao consumo de um produto altamente processado que, embora desprovido de valor nutricional, oferece um prazer imediato, como um Doritos. O diretor Paul Feig, conhecido pelo seu grande sucesso na comédia, Missão Madrinhas de Casamento, parece ter compreendido que, em 2025, parte do grande público não busca necessariamente a inovação, mas a celebração de um “lugar comum”, porém elevado ao status de espetáculo, e talvez essa seja uma conversa muito mais séria – e triste.

Essa dinâmica é um reflexo direto da era do “conteúdo” em detrimento de um cinema mais autoral. “A Empregada” parece ter sido esculpido para satisfazer métricas de engajamento: visualmente estimulante o suficiente para manter os olhos na tela, mas narrativamente familiar o suficiente para que o espectador possa realizar outras tarefas simultaneamente sem perder o fio da meada. É o ápice da estética do streaming, onde o suspense é mastigado e as reviravoltas são sinalizadas com trilhas sonoras óbvias, garantindo que ninguém se sinta desconfortável com a ambiguidade.

Ao final, o que resta é uma reflexão agridoce sobre o papel do espectador contemporâneo. Se antes o thriller buscava desafiar percepções, hoje ele parece satisfeito em ser apenas um espelho de nossas zonas de conforto. A “conversa séria e triste” que o filme propõe, mesmo que involuntariamente, é que a originalidade se tornou um risco financeiro desnecessário. Quando o mais do mesmo é tão bem produzido, tão esteticamente pomposo, ele deixa de ser uma falha e se torna uma grande alegria para o retorno financeiro dos estúdios. Acredito que A Empregada vai triunfar não por ser um grande filme, mas por ser exatamente o que o algoritmo previu que gostaríamos de consumir – Vale reforçar que a culpa disso não é exclusiva desse filme, é um processo de muitos anos. E me colocando no lugar do espectador alvo que irá buscar por esse tipo de filme, é uma experiência que passa longe de ser enfadonha, pelo contrário, é bem divertida, só completamente derivativa.

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