Sinopse: Em maio de 2020, um impasse entre o xerife e o prefeito de uma pequena cidade gera um conflito entre vizinhos em Eddington, Novo México.

O que há de sagrado nos Estados Unidos da América? Seja por crenças de base religiosa ou ideológica — que nem sempre se diferenciam — muitos americanos, de uma formação cultural ultrapatriótica, não teriam dificuldade para responder essa questão com diversas alternativas. Ari Aster, entretanto, parece responder com apenas uma palavra: nada. E esse nada norteia o filme mais destoante em sua filmografia pra lá de excêntrica. “Eddington” não se propõe à seriedade e é justamente por esse desprendimento que o realizador se sente livre para assumir uma postura quase niilista ao encenar a política americana. Não há nada que já não tenha sido dito. Não há pretensão em fazer comentários “importantes” nem de pintar vilões e heróis por uma ótica maniqueísta. É um filme despreocupado com sua importância perante o cenário político atual do país e do mundo, mas que encontra profundidade justamente na compreensão de suas limitações ao abraçar as contradições tanto do cinema industrial quanto das dinâmicas políticas do país.
A grande base de Eddington é a construção difusa do microcosmo da região. É mais uma clássica cidade pequena de filme de faroeste, situada no Novo México, onde todos se conhecem e estes relacionamentos possuem históricos. Provavelmente foi uma comunidade que viveu tranquilamente durante muito tempo até a pandemia acirrar as discordâncias existentes. Ao estabelecer esse cenário, Aster toma a liberdade para satirizar quase todas as posições e questões políticas do país em um espaço pequeno e em poucos dias de acontecimentos. Ainda não há perspectiva de vacina, mas a obrigatoriedade do uso de máscaras vai separar aqueles que defendem o bem comunitário e aqueles que defendem uma liberdade individual ao extremo. É nesse embate que se encontram o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), um legalista que busca a reeleição, e o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix), que desafia a autoridade de seu superior por meio do medo, levando a disputa a contornos pessoais. Outros grupos — não necessariamente organizados e/ou unidos — de interesses diversos também se apresentam: os jovens aspirantes à antifa, os conspiracionistas fundamentalistas religiosos, terroristas, a comunidade indígena, o empresariado, além dos próprios agentes da polícia e da política institucional local.

O que diferencia Eddington da grande maioria dos filmes de caráter político é que não há uma tentativa de legitimar moralmente o seu discurso. O Novo México é o segundo Estado com maior população indígena percentualmente dos EUA e Eddington é uma cidade, assim como a maior parte do continente americano, usurpada de seus moradores nativos. Os conceitos sagrados para os estadunidenses foram fundados com o sangue de quem estava lá antes. Não há nada capaz de compensar o que foi o processo de colonização das Américas. Portanto, não há sacralidade já que os símbolos culturais da nação foram impostos sobre culturas nativas já estabelecidas. As leis e concepções de uma terra roubada não são nada além do puro absurdo. Não há justiça em Eddington porque é uma cidade fundada em cima da injustiça. Essa é a grande contradição dos EUA — que se estende ao continente. Existem coisas importantes acontecendo hoje. Existem ideias e pautas a serem defendidas hoje. Mas se não olharmos para a base estrutural e não entendermos quem foram os primeiros desumanizados, a tendência é que esse processo se perpetue de diferentes roupagens. Não é como se Eddington realmente quisesse discutir essas questões durante a sua rodagem, mas ao assumir que a base está manchada de sangue faz com que cada ação seja mais significativa do que se fosse um espaço de neutralidade. Decisões do passado impactaram no presente e as decisões do presente impactarão no futuro de Eddington.
Um aspecto basilar do longa enquanto obra diz respeito à concepção de um mundo digitalizado. A mise en scène do Ari Aster cria um mundo através de telas e a sátira do filme se encontra através de um caráter farsesco que caracteriza todos os elementos formais. A naturalidade com que se incorporam os elementos tecnológicos mundanos na narrativa traduz elementos do faroeste para o século XXI. Enquanto no faroeste clássico se expressava ideologia através da violência dos tiroteios e dos momentos de afeto entre os personagens, em Eddington o discurso encontra no celular a melhor arma para sua argumentação. O primeiro encontro do prefeito com o xerife após seu anúncio de candidatura exemplifica isso; Cross instrumentaliza o seu celular como uma arma e a cena é filmada como um duelo. Os filmes clássicos de faroeste partiam de ideias bem sólidas e definidas de bem contra o mal, ordem contra caos, com a tendência de que a ordem fosse soberana ao final da narrativa. Em Eddington a ordem simplesmente não existe, o que existe é a aparência, a construção desses ideais forçados seja de liberdade ou de segurança. A liberdade irrestrita, ainda mais em um momento em que existe uma pandemia com tamanha mortalidade, se torna autoritária, restringindo os direitos individuais de quem não compactua com essa sandice, e as normas de segurança, que deveriam ser seguidas, nunca são de fato totalmente respeitadas por aqueles que supostamente as defendem.
A família é considerada — principalmente por uma ótica religiosa — uma instituição basilar da sociedade ocidental. Os grupos de interesse mais conservadores a instrumentalizam para defender suas pautas políticas e justificar os problemas sociais argumentando que há uma verdadeira conspiração com o plano de destruí-las, o que é uma grande bobagem. Intrigante como em Eddington existe uma disfuncionalidade causada pelo adoecimento mental de alguns indivíduos, que, por sua vez, é causado pela relação parassocial com a internet, mas não pela desconstrução dos símbolos clássicos religiosos familiares, mas pelo próprio caráter conspiratório da defesa dos costumes e das instituições. Ted Garcia é um pai de origem hispânica — outra ascendência muito presente no Novo México — que foi abandonado pela esposa, mas que, apesar de essa grande questão estar presente no ar, vive uma relação muito saudável com seu filho Eric (Matt Gomez Hidaka) o que contrasta com Joe Cross que, apesar de lunático, está camadas abaixo de sua sogra Dawn (Deirdre O’Connell) e sua esposa traumatizada Louise (Emma Stone), e tenta alcançar o nível de loucura delas para ser amado novamente. Joaquin Phoenix é um ator fantástico, principalmente trabalhando com James Gray e Paul Thomas Anderson, mas que nos últimos anos interpretou personagens muito parecidos ao que fez em Coringa. Joe Cross, apesar de carregar uma insegurança latente e um certo nível de loucura, nunca se torna um coitado. Seus atos vis, mesmo movidos pelo emocional, são executados de forma racional e premeditada. É a grande atuação do filme, mas poderia destacar também as próprias Stone e O’Connell, além do Austin Butler que faz muito em pouco tempo de tela.

Eddington tem a narrativa abruptamente alterada em duas partes a partir de uma festa, com aglomeração e perturbação da ordem. O que estava no campo do discurso de fato toma contornos de violência, explodindo as tensões sociais de um país em chamas. Mas é curioso que, enquanto na primeira parte se valorizava a paisagem clássica do faroeste solar, a segunda parte é total escuridão. Não há mais clareza nas intenções de quem tem uma arma na mão. Não há mais aparências. Há visceralidade. Sangue, carne, tripas. Mas o celular continua cumprindo o seu papel de criar narrativas. Um detalhe que pode passar despercebido é o empresariado tecnológico, que no início da corrida eleitoral apoia um candidato, mas quando a maré vira, o seu apoio se mostra volátil. Uma candidatura pode até flertar com a radicalidade, mas a prática política se rende ao capital. E o progresso tecnológico é inevitável. A terra continua a ser profanada por aqueles que vieram depois.

Estudante de Publicidade, carioca da gema e fã de arte moderna, Pedro é um dos fundadores da Toca Cinéfila, e seu diretor favorito é Jean-Luc Godard.