
Deixando um pouco de lado a presença magnética de Hugh Jackman e Kate Hudson em Song Sung Blue, sobra pouco além de uma fórmula já bastante conhecida. No entanto, o cinema também é sobre o prazer de ver grandes atores se divertindo genuinamente com o que fazem, e esta produção entende bem que o carisma de seu elenco é o seu maior trunfo. O roteiro quase sempre permanece em uma zona comum, e são justamente as performances que impedem que o filme se torne apenas mais uma obra esquecível.
A produção da Focus aposta nesse brilho individual para transformar a simplicidade da trama em algo cativante. O diretor e roteirista Craig Brewer, conhecido por seu trabalho em Meu Nome é Dolemite, opta por uma estrutura de feel-good movie que domina a primeira hora. O resultado é um filme inicialmente muito agradável, que envolve o espectador em uma atmosfera de otimismo e muita música, sustentada por uma escolha criativa bastante acertada.
Em vez de seguir o caminho saturado das cinebiografias convencionais de grandes astros da música, o longa decide acompanhar a vida de artistas tributo. A história foca em Mike e Claire Sardina, um casal da vida real que formou uma banda cover de Neil Diamond. Essa abordagem se mostra mais rica do que seria um filme sobre o próprio cantor, já que permite explorar o fascínio da emulação de uma pessoa e a profundidade da paixão de fãs de uma forma mais íntima.
Ao focar nessa dupla, o filme se afasta da cartilha tradicional das biopics e se aproxima mais do drama humano de quem busca alguma dignidade e alegria vivendo sob a sombra de um ícone. Não há exatamente uma novidade estrutural aqui, mas há algo de interessante: a trajetória de pessoas comuns em busca de um lugar ao sol. Isso acaba trazendo ao filme uma camada de autenticidade e um humor inesperadamente muito cativante, focando no cotidiano de quem vive da arte de outros.

No centro da narrativa, vemos como esse casal acaba se unindo pelo amor em comum com as músicas de Neil Diamond. Eles formam a dupla “Lightning and Thunder”, e a química entre Jackman e Hudson é o que realmente faz a engrenagem girar. O filme é carregado quase inteiramente pela sintonia dos dois, que conseguem convencer o público da conexão profunda que une aqueles personagens através das letras e melodias do ídolo. Acompanhando o nome extravagante da dupla, tudo parece super exagerado em boa parte do tempo, os figurinos, o design de produção, tudo é muito extravagante para relembrar os anos 80.
Hugh Jackman entrega uma atuação super vibrante e é nítido que este é um projeto com o qual ele se importa profundamente. Sua paixão por filmes musicais, já demonstrada em trabalhos anteriores (como o excelente O Rei do Show), brilha intensamente na primeira metade do longa. Ele domina o palco cantando sucessos como “I’m a Believer” (eternizada na cultura pop por Shrek) e o hino “Sweet Caroline“, com versões super agradáveis já que ele tem um inegável talento para o canto.
Embora o casal principal seja o grande chamariz, o longa abre também um espaço generoso para jovens talentos que impressionam pela naturalidade. Ella Anderson e King Princess, que interpretam as filhas dos protagonistas, trazem uma presença em cena que enriquece o núcleo familiar. Há um cuidado visível da direção em permitir que essas relações se desenvolvam com calma, garantindo que o público se importe com a dinâmica daquela casa.

Essa construção orgânica das relações é essencial, pois o roteiro em si não oferece grandes nuances dramáticas, especialmente no início. O mérito de Brewer está realmente em saber que, com o elenco certo, até o “arroz com feijão” mais simples pode se tornar uma boa refeição. A simplicidade da trama torna-se o espaço ideal para que cada ator demonstre seu talento, criando uma experiência que deve ser muito difícil de desagradar a maior parte do público.
No entanto, após cerca de uma hora de duração, Song Sung Blue decide abandonar o conforto dessa zona comum para se tornar algo significativamente mais sombrio e dramático. A vida real de Mike e Claire foi marcada por eventos bizarros e trágicos, e o filme não foge de retratar essa transição. É nesse ponto que a obra deixa de ser apenas uma comédia musical leve para encarar temas mais densos.
Essa mudança brusca de tom causa um certo estranhamento inicial. É como se o espectador fosse subitamente arrancado daquele clima ensolarado e musical para enfrentar uma realidade muito mais dura. O contraste é forte e pode até chocar quem esperava uma conclusão convencional de “viveram felizes para sempre“. Contudo, é justamente nessa guinada que o filme testa a força de suas atuações.
Nesse segundo momento, Kate Hudson brilha com uma intensidade impressionante. Ela eleva o peso dramático de tudo o que toca, garantindo que a transição para o sombrio não se perca em um vazio narrativo. Se o drama funciona e não desmorona apenas em um sentimentalismo barato ou novelesco, é porque a atuação de Hudson confere a gravidade e a dignidade necessárias para sustentar o sofrimento de sua personagem, é ao meu ver, a segunda melhor atuação de sua carreira, atrás apenas de seu papel no ótimo Quase Famosos.

E então o filme acaba se revelando uma bonita jornada sobre resiliência. Através da música, o casal encontra uma forma de sobreviver aos atropelamentos (literalmente) que a vida lhes reserva, através dela que conseguem equilibrar bem os momentos de brilho dos palcos de bares e eventos locais com o desgaste dos bastidores e da vida real, tratando seus protagonistas com muita sensibilidade, algo curioso pois recentemente a produção se envolveu com algumas polêmicas envolvendo os filhos do casal, que não teriam gostado do resultado final e considerado tudo muito mentiroso.
Ao final, Song Sung Blue se consolida como uma celebração de artistas que, mesmo vivendo à margem do grande estrelato, encontram propósito na arte. É uma obra prospera graças ao imenso talento de seu elenco. Hugh Jackman e Kate Hudson não apenas interpretam Mike e Claire – eles dão alma a uma história que, apesar de não ser das mais memoráveis, é cativante o suficiente para se aproveitar em um sábado à noite.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.