“Kokuho – O Preço da Perfeição” poderia ser só mais um daqueles filmes sobre o custo pessoal de se fazer arte. Mas, ao contrário de alguns filmes no mesmo estilo, que costumam simplificar excessivamente esse esforço para favorecer uma narrativa mais palatável, aqui isso não acontece. Tudo leva seu tempo, e cada conquista, cada sacrifício, carrega o peso necessário para que a jornada de seus personagens faça sentido.
Mas para entender um pouco melhor Kokuho, é interessante também compreender o que é e o que representa o kabuki dentro da cultura japonesa. Trata-se de uma forma de teatro tradicional, originado no período Edo, e que caracteriza-se por interpretações exclusivamente masculinas (mesmo de personagens femininas), maquiagens elaboradas (chamadas de kumadori), figurinos ricos e movimentos “exagerados” que combinam canto, dança e drama, focado no entretenimento popular. É uma arte com mais de 400 anos levada muito a sério no Japão. (Minha fonte foi a Wikipédia, perdoem se tiver algum erro na informação)
O filme do diretor Sang-il Lee se apresenta praticamente como um épico de três horas, atravessando um recorte temporal de cerca de cinquenta anos, impulsionado por uma beleza visual constante que mantém o espectador hipnotizado por suas imagens. A narrativa se desenrola ao longo desse tempo com uma fluidez impressionante, ainda que apresente problemas ocasionais de ritmo – especialmente após o protagonista já estar mais bem estabelecido dentro de seu universo – mas nada que prejudique de fato a experiência.

Ao acompanhar histórias paralelas de dois atores aspirantes, um nascido dentro da tradição do kabuki, o outro alguém que vem “de fora” mas quer se provar digno (filho de um líder assassinado da Yakuza pelo qual não conseguiu vingança), o filme costura então muito melodrama de bastidores, jornada de sucessão, obsessão e o processo de formação artística. No centro de um elenco muito notável, Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama entregam performances complexas e profundamente marcantes, entregando com precisão tanto a construção íntima de seus personagens fora do palco quanto a teatralidade exigida em cena, são grandes contrastes e igualmente bem feitos. Mas gostaria de ressaltar também o jovem Soya Kurokawa (Monster), que interpreta o protagonista Kikuo na infância e a Nana Mori, que interpreta a personagem Akiko.
Se você pesquisar no google tradutor o significado do título Kokuho, verá que a tradução é de tesouro nacional, o que é uma espécie de prêmio/título concedido pelo estado japonês para quem, em alguma modalidade, consegue atingir a dita excelência extrema, e é justamente essa a busca do filme, a jornada pela perfeição, para que se tornem imortais. E para isso, filmam cada performance como um verdadeiro espetáculo, é um filme visualmente vibrante, cheio de cores mega saturadas e com apresentações riquíssimas da arte kabuki. E então, se torna um filme tão didático quanto belo, na minha experiência pelo menos, pouco sabia sobre a arte, mas fiquei encantado e sinto que serve praticamente como uma aula não só dela, mas sobre o Japão pós guerra (mesmo que nunca seja algum foco do filme).
À medida que a narrativa avança, Kokuho passa a deixar cada vez mais claro que a busca pela excelência não é apenas uma questão de talento ou disciplina, mas de anulação pessoal. O filme observa como esses corpos e identidades vão sendo moldados para servir a uma tradição que exige entrega total. Existe algo de belo nessa devoção absoluta, mas também algo profundamente cruel, especialmente quando percebemos o quanto os personagens vão se afastando de qualquer noção de vida fora do palco.

Nesse sentido, Sang-il Lee parece menos interessado em glorificar o status de “tesouro nacional” do que em questionar o preço dessa imortalidade simbólica. O reconhecimento máximo vem acompanhado de solidão, rivalidade e momentos ou amores perdidos pela devoção. O kabuki é além de belo, uma espécie de prisão, já que cada gesto precisa ser perfeito, mesmo quando o interior dos personagens já estão em pedaços. É nessa tensão entre grandeza artística e desgaste humano que o filme encontra sua dimensão mais trágica.
O longa também teve passagem pela semana dos exibidores no festival de Cannes em 2025 e logo depois já foi lançado como um grande sucesso no Japão, não me surpreende ter sido a escolha de filme para representar o país no Oscar. E mesmo que a indicação em ‘Melhor Filme Internacional’ não tenha vindo (trocaria facilmente Sirat por ele), é mais do que justificada a indicação em ‘Melhor Maquiagem e Penteado’.
Kokuho é um filme sobre a busca pela perfeição e, curiosamente, também se aproxima dela em sua execução técnica. Embora não seja narrativamente irretocável, conseguiu me manter completamente imerso naquele mundo durante cada segundo de sua duração. Para os amantes da cultura japonesa, é um prato cheio.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.
