Logo na introdução, um gemido ecoa sobre uma tela completamente escura, e já ali Emerald Fennell começa a quebrar expectativas. A diretora, que desde Bela Vingança e, mais recentemente, Saltburn (dois filmes que gosto), parece interessada em provocar reações extremas do público, apresenta um “Morro dos Ventos Uivantes” (entre aspas mesmo pois seria uma versão dos sonhos idealizada da diretora) que foi vendido como erótico, quase escandaloso, mas que na prática se mostra muito mais contido do que o marketing sugeria. O filme é, sim, carregado de sensualidade, mas existe muito cuidado para não se tornar nada muito explícito, e a classificação indicativa no Brasil que sequer é +18 ajuda a comprovar.
Essa escolha acaba sendo curiosa. Fennell constrói um clima de desejo muito intenso, de corpos que se querem e se repelem por diversas questões. O resultado é um erotismo mais atmosférico do que gráfico, baseado em olhares, proximidade física e pelo poder da sugestão imagética e sonora, o que pode frustrar parte do público que esperava algo mais ousado ou até frustrar quem esperava mais leve, parece contraditório mas o filme é assim também.
Antes de tudo, é importante deixar claro que não tenho qualquer apego a adaptações anteriores de Wuthering Heights. Pelo contrário, este foi meu primeiro contato com o romance gótico de Emily Brontë, o que acredito que tenha tornado a experiência ainda mais interessante. Livre de comparações que se tornam inevitáveis, o filme se apresenta como uma obra feita para dividir opiniões, provocar leituras opostas e gerar reações incompatíveis entre si. É um projeto que dificilmente encontrará consenso, e isso é algo que valorizo. Muito interessante também como a Warner parece ser um dos únicos grandes estúdios a apostar em projetos que tenham tanta personalidade.

Agora para quem não conhece a história, “O Morro dos Ventos Uivantes” narra a paixão obsessiva e destrutiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, um órfão adotado que se torna um homem amargo e vingativo após ser “rejeitado” por ela, que busca status social ao se casar com outro, resultando em uma saga de amor, ódio, sofrimento e vingança.
Do ponto de vista técnico, é impossível não se render. Trata-se de um espetáculo visual que me deixou genuinamente fascinado. Figurinos, cinematografia, design de produção e trilha sonora são deslumbrantes. O uso das músicas de Charli XCX cria um contraste muito curioso entre o romance de época e uma modernidade sonora que, surpreendentemente, funciona. É um choque deliberado entre passado e presente, tradição e anacronismo, que reforça a ideia de que este não é um Morro dos Ventos Uivantes interessado em reverência, mesmo que mantenha as bases do livro (ou melhor, de partes dele).
A fotografia aposta em muito no granulado, em interiores sufocantes e paisagens abertas que paradoxalmente parecem claustrofóbicas. O estilo do filme é marcado por muitos excessos e, ainda assim, nunca perde a elegância. Os figurinos não apenas embelezam a narrativa e o visual, mas funcionam como extensões dos personagens, refletindo status, desejo, repressão e decadência. É um filme que se comunica tanto pelo enquadramento quanto pelo diálogo.

Narrativamente, a história se trata de uma jornada de obsessão e ressentimento. Não há aqui uma tentativa de romantizar excessivamente os acontecimentos e seus personagens. O filme assume o desconforto como parte essencial da experiência. A relação entre Catherine e Heathcliff não é um grande amor trágico idealizado, mas como algo corrosivo, capaz de contaminar tudo ao redor e destruir qualquer possibilidade de equilíbrio daqueles personagens e dos que estão ao seu redor. Margot Robbie e Jacob Elordi estão de tirar o fôlego com duas ótimas interpretações.
Novamente, são personagens difíceis de defender, e o filme é plenamente consciente disso. Ambos são egoístas, cruéis em suas escolhas e incapazes de lidar com as consequências de seus próprios desejos. Heathcliff, em especial, tem sua trajetória moldada por uma jornada de vingança que se sobrepõe a qualquer traço de humanidade remanescente. Seu retorno não representa algum tipo de redenção, mas a consolidação de um ressentimento que já estava latente desde o início, seu amor se torna obsessão e sua obsessão se torna raiva.
Nesse cenário, Isabella e Edgar Linton surgem como figuras deslocadas, talvez os únicos personagens minimamente decentes dentro daquele mundo emocionalmente apodrecido e perverso. São eles que oferecem um contraponto moral, ainda que frágeis e, muitas vezes, impotentes diante da força destrutiva que Catherine e Heathcliff exercem sobre tudo e todos. Justamente por isso, acabam sendo os mais trágicos quando suas vidas são despedaçadas e modificadas pela relação dos dois, principalmente Isabella que é totalmente transformada por conta da jornada de vingança e pela sua necessidade de se sentir –não necessariamente ser– amada.

Se torna quase inevitável falar das polêmicas que cercam o filme desde o anúncio do elenco. A mais comentada envolve a escolha de Jacob Elordi para interpretar Heathcliff, um personagem tradicionalmente associado à figura do forasteiro, alguém visto como estranho, deslocado e que no livro seria retratado como um homem de pele escura, provavelmente de origem cigana. Então a escalação de Elordi, um ator branco, alto e de beleza quase idealizada, muda a forma como esse deslocamento é percebido. O Heathcliff do filme carrega um isolamento mais interno do que físico. Sua raiva e sua obsessão não nascem tanto de uma rejeição evidente do mundo ao seu redor, mas da frustração de um desejo que nunca encontra lugar para existir de maneira saudável, já que as classes sociais não permitiriam.
Essa escolha não parece e nem é ingênua. Pelo contrário, Emerald Fennell está mais interessada em investigar relações abusivas, masculinidade tóxica e amor como instrumento de dominação do que em discutir origens ou pertencimento de forma direta. O Heathcliff que surge aqui é menos uma vítima clara das circunstâncias (mesmo que sim, elas façam parte da construção de seu ser) e mais um agente ativo de sua própria ruína, alguém que transforma dor em ressentimento e ressentimento em violência.
Talvez seja uma forma de evitar retratar esse homem violento e monstruoso (como é descrito em certo momento na narrativa) como sendo um homem de cor, uma forma de fanfic de como ela idealizava Heathcliff em seus pensamentos ou só algum tipo de apagamento, mas é algo muito complexo de se analisar e julgar em poucos parágrafos.
No fim das contas, esta versão de “Morro dos Ventos Uivantes” não está interessada em conforto, nem em idealização. Ele prefere incomodar, provocar e dividir, mesmo que isso signifique rejeição quase que imediata por grande parte do público. É um filme que assume o risco de suas escolhas e aceita plenamente as reações extremas que elas inevitavelmente geram. É visualmente exuberante, narrativamente exagerado e interessante o suficiente para fazer com que a duração pouco incomode, mais um acerto da sempre interessante e polêmica Fennell.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.
