momento desabafo: O que aconteceu com pânico?

É um texto diferente do que costumo fazer, mais atravessado por um certo desabafo do que qualquer coisa, quase como se eu estivesse tentando organizar uma frustração enquanto escrevo. No fim das contas, a pergunta que fica martelando é simples e incômoda: o que aconteceu com Pânico?

Começo dizendo que Pânico sempre foi minha franquia favorita de terror. Cresci acompanhando essa grande brincadeira metalinguística, que sempre foi cheia daquela ironia afiada que sabia rir das próprias regras enquanto as reinventava. Mesmo tendo várias críticas a Pânico 6, ainda era muito bom perceber que existia ali uma tentativa de renovação, um novo fôlego, uma geração diferente assumindo o protagonismo. Havia tropeços, claro, mas também havia risco, vontade de seguir em frente. O que temos agora em Pânico 7 soa como um repeteco sem qualquer inspiração, um retorno automático à já enfadonha história da Sidney que, mais uma vez, precisa confrontar o próprio passado. Eu gosto da personagem, gosto mesmo, mas chega uma hora em que insistir no mesmo trauma começa a esvaziar o impacto. Já deu, né?

E o mais frustrante é que essa versão que chega aos cinemas parece ter começado errada desde o primeiro anúncio. A demissão de Melissa Barrera, que seria novamente a protagonista da franquia, por conta de um post anti genocídio, já deixou um gosto amargo difícil de ignorar, atitude patética por parte da Spyglass, produtora do filme junto da Paramount. Depois disso, Jenna Ortega também pulou do barco, o que enfraqueceu ainda mais a promessa de continuidade dessa nova fase. Como se não bastasse, o diretor Christopher B. Landon, que comandaria o filme, também saiu do projeto. A cada nova notícia, a sensação era de que a franquia estava se desmontando diante dos nossos olhos por culpa de interesses corporativos.

No meio desse caos, a solução encontrada foi trazer Sidney de volta mais uma vez, agora sob a direção de Kevin Williamson, o roteirista original que sempre foi peça-chave na identidade da série. Em teoria, parecia um movimento nostálgico capaz de reconectar o público às origens. Na prática, o resultado passa a impressão de um navio tentando voltar ao porto sem saber exatamente por que partiu. Há algo muito automático aqui, como se a franquia estivesse sendo conduzida não por uma necessidade criativa, mas por uma tentativa de apagar incêndios. E talvez seja isso que mais venha a doer em mim: ver uma saga que sempre foi tão consciente das regras do próprio jogo se perder justamente quando mais precisava reinventá-las.

Dentro da própria mitologia de Pânico sempre existiu a franquia fictícia “Facada”, usada até como piada interna para zombar de continuações caça-níquel, decisões criativas absurdas e da ânsia interminável por espremer uma marca até o osso. O problema é que o novo filme parece justamente um exemplar dessa série inventada. É como se aquilo que antes era sátira tivesse virado modelo. São ideias ruins empilhadas sem muito critério, reviravoltas que não se sustentam e uma tentativa quase desesperada de se vender através de uma nostalgia mal dosada, usada como muleta e não como construção dramática.

Como meu amigo Kadu Kritica comentou, temos aqui uma Neve Campbell em “modo Harrison Ford”: uma estrela veterana retornando ao papel icônico mediante um cachê milionário, no caso, sete milhões de dólares. E não há problema nisso. O problema é que o filme entrega a ela uma versão esvaziada de Sidney, não por incapacidade da atriz, mas porque o roteiro simplesmente não sabe o que fazer com a personagem. Ela está ali, mas raramente parece essencial. Muito disso vem do ambiente construído ao seu redor, onde praticamente todos os novos personagens são desprovidos de carisma e dramaticamente irrelevantes. Falta um conflito interessante, falta personalidade, ou, no mínimo, momentos que criem tensão real, tudo que resta são sustos baratos.

Essa apatia se estende às mortes, que sempre foram parte fundamental do impacto da franquia. Aqui, além de o filme novamente ser covarde ao evitar eliminar personagens minimamente relevantes, as cenas carecem de invenção. Com exceção da “morte da cerveja”, que ao menos tenta brincar com a encenação, o restante soa automático, sem criatividade, sem choque, sem ironia. Em uma saga que se destacou justamente por transformar o slasher em comentário metalinguístico afiado, é estranho assistir a um capítulo que parece cumprir tabela até quando deveria estar provocando o público.

E antes de encerrar este texto desabafo, é impossível não comentar outra camada constrangedora da produção. Muito se falou sobre o filme ser o “primeiro blockbuster” com patrocínio de casa de aposta, já que veio acompanhado de uma ação de marketing com uma plataforma envolvida em polêmicas regulatórias. Para quem não acompanhou, foi divulgado um trailer em parceria com a Kalshi, uma plataforma de previsões online, incentivando o público a apostar em quem morreria ou não na trama. Transformar as mortes de um slasher em ativo especulativo talvez pareça, à primeira vista, uma jogada coerente com o espírito provocador da franquia. Mas aqui é só oportunismo.

O que antes era comentário ácido sobre a exploração comercial do horror agora parece submissão completa a ela. Pânico sempre brincou com as regras do mercado, com sequências, fórmulas e fan service, mas havia consciência crítica nisso. Ao atrelar sua campanha a uma lógica de aposta, ainda mais em um cenário de questionamentos legais, o filme cruza uma linha muito desconfortável.

E se isso já não bastasse, o uso de inteligência artificial ao longo da trama beira um ridículo que eu sinceramente nunca imaginei ver associado à franquia. Não como ferramenta pontual ou comentário sobre os tempos atuais, mas como recurso preguiçoso que enfraquece ainda mais o suspense e a construção narrativa. Em vez de atualizar o terror para dialogar com o presente, a sensação é de que o filme se rende às soluções mais fáceis possíveis, resultando não só na pior revelação de Ghostface da franquia, mas como o filme mais fraco dela como um todo.

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