O primeiro título de “Hoppers” no Brasil seria originalmente “Saltadores”, o que me despertava qualquer interesse. Mas quando a Disney anunciou oficialmente que aqui ele se chamaria “Cara de um, focinho de outro”, confesso que fiquei imediatamente mais interessado. Faz sentido? Nenhum. E talvez seja justamente por isso que funcione. Vindo do criador da série animada “Urso sem Curso” (Daniel Chong), a produção soa como uma mistura curiosa de “Red: Crescer é uma Fera”, “Robô Selvagem”, “Avatar” e até um pouco de “Up”, como se pegasse elementos como conflito de identidade, amadurecimento, conexão com a natureza e jogasse tudo numa aventura com humor mais escrachado.
Não acho que seja exatamente o grande acontecimento recente da Pixar, aquele filme que redefine os rumos do estúdio ou inaugura uma nova fase. Mas é difícil negar o quanto ele é carismático. Existe uma delicadeza na forma como constrói seus personagens e uma confiança na própria maluquice que fazem tudo funcionar com uma leveza muito bem vinda. É o tipo de animação que pode não mudar sua vida, mas certamente melhora sua semana.
No filme, acompanhamos Mabel, uma jovem universitária que carrega desde a infância um histórico de explosões temperamentais, que são tranquilizadas por uma clareira nos arredores da casa da avó, a pessoa que mais importa em sua vida. Aquele pedaço de natureza funcionava como terapia, um espaço de reconexão que, com o tempo, passou a simbolizar não só equilíbrio emocional, mas a própria presença da avó depois de sua partida. Quando o prefeito decide destruir a área para concluir a construção de um viaduto que promete melhorar o trânsito, o impacto não é apenas ambiental, é algo muito pessoal para ela. Para Mabel, não se trata de um projeto urbano, mas da demolição de um lugar que guarda a memória de sua avó.

Motivada a impedir que a obra aconteça, ela percebe a indiferença geral da cidade quanto a isso, já que querem o viaduto e não se importam com aquele espaço da floresta. Ela então descobre que a autorização para a construção só foi concedida porque os animais da região desapareceram, e que a reintrodução de um castor no local poderia restaurar o fluxo do rio e, consequentemente, o ecossistema. É aí que a narrativa abraça de vez a magia dos filmes da Disney/Pixar: ao invadir o programa universitário de sua professora que desenvolve animais robóticos para pesquisa ambiental, Mabel acaba transferindo sua própria mente para o corpo de um castor robótico. Lançada na natureza sob uma nova forma, ela precisa aprender a sobreviver, convencer um castor real a ajudá-la e, no processo, compreender que salvar a clareira talvez signifique também reorganizar a própria raiva e sua maneira de existir no mundo.
A partir daí, o filme entra de vez na loucura. A experiência de Mabel dentro do corpo do castor não é tratada apenas como um artifício cômico, mas como um deslocamento real de perspectiva. Há algo de muito interessante na maneira como a narrativa a obriga a enxergar o mundo pela lógica de outro ser, com outras prioridades e instintos. Ela é uma pessoa que realmente se importa com os animais, mas viver como um é muito diferente.
O contato com o verdadeiro castor que encontra também rende alguns dos momentos mais sensíveis da trama (e os mais engraçados, o Rei George é um personagem incrível). O animal não está ali como mascote fofo, mas como presença que impõe limites, ao mesmo tempo que carrega em si uma falta de pulso firme, sendo um grande amigão do povo. Ele não entende os discursos de Mabel sobre memória afetiva ou disputas políticas; mas entende equilíbrio, construção, sobrevivência e acima de tudo, ele entende de seu povo.

Visualmente, essas sequências na floresta são as mais inspiradas. A animação trabalha textura de água, madeira e folhagem com um cuidado que faz cada cenário parecer quase palpável. Existe um prazer evidente em acompanhar o fluxo do rio sendo redesenhado pelas ações dos castores, como se o próprio ambiente fosse respirando de novo diante dos nossos olhos. Mas ao mesmo tempo, existe essa identidade visual da Pixar que me parece cada vez mais batida, é tudo muito bonito, mas já vemos essa mesma qualidade há mais de 10 anos.
Também gosto de como o roteiro evita transformar o prefeito em um vilão caricatural (embora brinquem com isso). Ele representa uma lógica de progresso acelerado que é, de certa forma, compreensível, mesmo que use meios incorretos para isso. O conflito não é (inicialmente, mas não vou entrar em detalhes) entre bem e mal absolutos, mas entre prioridades distintas. Isso dá mais densidade à história e impede que a discussão ambiental caia no simplismo. Ao mesmo tempo, pode soar meio contraditório, mas sinto que falta coragem para realmente vilanizar o sistema.
Novamente, não é o filme mais inventivo do estúdio, mas os personagens são carismáticos o suficiente para nos emocionar, e todo o discurso pró meio ambiente é muito válido especialmente nos dias de hoje, como não se emocionar com os olhos perdidos de um castor? “Cara de um, focinho de outro” é encantador na medida certa para cativar o público de todas as idades, espero que seja visto, pois não adianta o público pedir por filmes originais mas comparecerem só para ver um Toy Story 5 da vida…

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.
