A hora do mal (2025)- Crítica

Em histórias com caráter fantástico, a criança sempre foi retratada como um ser ambíguo. Por um lado há a inocência e a pureza, por outro há um aspecto sinistro e desconhecido que aterroriza os adultos. Um dos exemplos mais antigos disso é o conceito de lendas irlandesas e celtas da criança trocada — changeling no original; também há lendas semelhantes em outras regiões do mundo —, a ideia de que seus filhos poderiam ser raptados por fadas ou gnomos e trocados por crianças idênticas, mas não humanas, e sim mágicas, com deformidades físicas, comportamento travesso ou intelecto perturbador — vale dizer que hoje muitas das descrições dessas lendas são lidas por especialistas como representações de crianças com deficiência ou neurodivergência, em uma época em que a sociedade não compreendia e não sabia lidar com essas condições. O imaginário da criança sinistra ganha uma forma mais atualizada a partir do cinema de terror da Nova Hollywood, junto ao pânico satânico mais ou menos no mesmo período, mas a realidade atual é diferente, o medo do seu filho ser trocado por um ser mágico ou dele ser o próprio Anticristo parece infundado, o que há de mais palpável hoje é o medo da desvirtuação e da violência, em um mundo que parece cada vez mais hostil a quem nasce.

“A Hora do Mal” (“Weapons” no original, literalmente “Armas”) é o novo longa-metragem de Zach Cregger. Um roteiro ambicioso e ousado, disputado por diferentes estúdios e que rendeu um dinheiro pornográfico ao diretor após o sucesso de “Noites Brutais”. Dessa vez acompanhamos os desdobramentos de um evento enigmático. Às 2h17 de uma madrugada qualquer na cidade de Maybrook, na Pensilvânia, 17 crianças da classe da professora Justine Gandy (Julia Garner) abrem as portas de casa e correm como mísseis teleguiados em uma direção desconhecida, desaparecendo na escuridão. Esse evento é narrado pela voz de uma criança que afirma que elas nunca mais apareceram, o que, esperadamente, não é verdade e, aparentemente, para algumas pessoas é um problemão que a criança esteja errada. De todo modo, se estabelece o contexto de uma cidade desamparada pela perda, ou melhor, pela ausência, e as pessoas envolvidas reagem de diferentes formas, mas há sentimentos que prevalecem e movem — ou paralisam — os personagens, a paranoia, o medo e a vingança. O mais interessante do roteiro é como ele aborda esse evento por diferentes perspectivas.

A estrutura proposta por Cregger foi muito comparada à “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, entretanto, pessoalmente discordo da comparação. A estrutura mosaico de Magnólia estabelece tramas paralelas que coabitam os mesmos espaços, necessariamente com encontros e desencontros que culminam em um evento que impacta todos os personagens do filme. Em A Hora do Mal o que há é um evento paradigmático e capítulos que contam a mesma história por pontos de vista diferentes — é evidente por entrevistas do próprio diretor que Magnólia foi uma referência, principalmente para a sequência inicial. É como se fosse um quebra-cabeça sendo montado. Outra ideia que refuto é a de que o roteiro de A Hora do Mal seja televisivo pela sua divisão em capítulos. Veja bem, não afirmo que as últimas boas décadas das séries de TV não possam ter influenciado o cinema de Cregger — como influenciou outros realizadores —, no entanto, os filmes seriados datam desde a primeira década do Séc. XX e foram essenciais para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica — “Les Vampires”, de Louis Feuillade, é o principal exemplo. A ideia de que divisão em capítulos é uma característica da televisão mas não do cinema carece de um pouquinho de conhecimento da história do cinema.

O quebra-cabeça é montado em 6 partes — não devo desenvolver muito sobre todas. A primeira perspectiva é a da própria professora Justine, e o filme apresenta um conflito frequente na contemporaneidade: pais contra professores. O professor é cada vez mais visto como uma figura disruptiva, que desvirtua os filhos, os doutrina, e o que se apresenta em A Hora do Mal é uma professora com tantas dúvidas quanto qualquer pai, mas que vive em um estado de paranoia, com medo do que podem fazer com ela. Mas aos poucos se livra da paralisia, se tornando uma personagem ativa na história. O outro lado é o pai mais vocal e obcecado Archer (Josh Brolin) que equilibra uma raiva externa e uma culpa internalizada, é quem mais quer saber o que aconteceu e enxerga na professora uma culpada óbvia. É um nível de alienação que faz com que ele encontre evidências onde não existem, mas ao mesmo tempo, talvez por esse estado não muito são de consciência é que a ludicidade o afeta e através dela encontra a razão, encontra evidências com substância. 

A cinematografia trabalha muito com movimentos de câmera inesperados, que parecem deliberados, durante o plano e movimentos ao redor dos personagens. Parece apenas estilização, mas há a criação de uma tensão voyeurística, de uma sensação de opressão, de uma presença maligna no ambiente. Ao lado da trilha sonora, que evoca o som das bandas marciais, se dita um caminho, que como o diretor de fotografia Larkin Seiple disse em entrevista para a Filmmaker Magazine “esses personagens estão marchando em direção ao seu destino”. Ao contrário do que se espera de um filme de terror, é até bastante solar, gerando um contraste com a opressão da escuridão. Os capítulos do policial Paul (Alden Ehrenreich) e do jovem sem teto chapado James (Austin Abrams) são os que mais se encaixam um no outro, lembra um pouco a parte do Justin Long em Noites Brutais, em que parece que a narrativa está simplesmente divagando, pendendo para uma certa aleatoriedade, mas abre espaço para o que está oculto transparecer — pessoalmente me agrada esse tipo de disrupção em uma narrativa. Mas a figura oculta se apresenta de fato, com nome e sobrenome, no capítulo do diretor escolar Marcus (Benedict Wong) e a partir daí o filme dá lugar a frontalidade do horror e ao show de Amy Madigan como a Tia Gladys, performance bem cotada para render o Oscar para a atriz mesmo com pouco mais de 12 minutos em tela.

Como todo quebra-cabeça, a imagem vai se revelando, e no capítulo final, pelo ponto de vista do menino Alex (Cary Christopher), o único que não desapareceu, finalmente entendemos o que está acontecendo. O aspecto explicativo é de longe o menos interessante possível sobre A Hora do Mal, é uma verdadeira conveniência para que ninguém reclame de não ter entendido — provavelmente alguém deve ter reclamado do mesmo jeito —, mas é enfim nesse capítulo em que vemos o ponto de vista de uma criança e tudo o que ela passou nessa narrativa. Apesar de entendermos a sua motivação, assim como nas lendas e folclores, não há muita explicação sobre quem é a Tia Gladys e nem uma justificativa redentora para a personagem, assim como não há nenhuma explicação plausível para qualquer maldade perpetrada contra uma criança, mas elas continuam acontecendo. Em termos de analogia é até bem vago, dá pra encaixar vários significados, mas a força da mensagem do filme culmina em um final libertador. A criança enfim tomando o controle do seu destino.

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