The Boys surgiu justamente numa época em que nada estava mais em alta do que super-heróis. Então, quando foi lançada, era realmente interessante ver essa proposta de uma versão “mais realista” e macabra do que aconteceria se essas figuras existissem no mundo real. E, por um bom tempo, a série foi extremamente divertida nisso. Até, ironicamente, acabar se tornando exatamente o tipo de produto que costumava satirizar: uma franquia esticada ao máximo, repetindo fórmulas, reciclando tentativas de chocar e cada vez mais dependente do próprio hype.

Não quero fazer aqui uma análise completa da série – ela teve altos e baixos como tantas outras –, mas comentar especialmente sobre o seu final e o que acontece com cada personagem.
A temporada se divide em dois grandes arcos: a criação do vírus capaz de matar supers e a busca pelo V1, composto que tornaria quem o utilizasse imortal. O problema é que, ao final, fica aquela sensação de que passamos sete horas acompanhando tramas que poderiam ter sido resolvidas sem sequer existir. Tudo parece funcionar mais como uma desculpa para mover personagens de um ponto ao outro gastando nosso tempo do que como conflitos realmente necessários.
Vou comentar primeiro o destino dos personagens, então fica aí o alerta de spoiler:
Logo no começo do último episódio, Sister Sage, uma personagem construída ao redor de sua inteligência absurda, se usa de cobaia para testar os novos poderes de Kimiko e acaba ficando burra, gerando algumas piadas bem ruins. A ideia até parece engraçada no papel, mas a execução revela esse problema constante de The Boys: qualquer personagem acaba reduzido a uma gag momentânea. Não importa o quão interessante seja o conceito, a série sempre parece incapaz de resistir à tentação de transformar tudo em piada.
E isso dói ainda mais no caso do Soldier Boy. Toda vez que Jensen Ackles aparece, a série ganha energia de novo. Existe presença, ameaça, carisma. Ele rouba completamente a temporada (que parece um gancho para seu spin-off na maior parte do tempo)… para então ser descartado da forma mais anticlimática possível. Parece que The Boys vive criando personagens enormes sem realmente saber o que fazer com eles depois do impacto inicial.

O Deep talvez seja o maior símbolo desse desgaste. O personagem já não possui uma trama própria há muito tempo. Ele continua existindo apenas porque o ator é carismático o suficiente para arrancar alguma reação do público. Então a série segue tentando dar relevância a ele sem nunca encontrar de fato uma função narrativa. Seu final condiz perfeitamente com toda sua jornada, mas demorou demais para que a gente pudesse realmente se importar.
Enquanto isso, a Starlight vai ficando cada vez mais insuportável, e era para ela ser a personagem pela qual torcemos, a heroína em meio a tantas pessoas ruins (e ela é, pena que tão mal escrita). Tentam criar um arco envolvendo o pai dela, mas tudo soa vazio e inconsequente, como tantas outras ideias da temporada. E isso acaba evidenciando outra coisa: The Boys era mais interessante quando Hughie era o verdadeiro protagonista. Existia um olhar humano para aquele universo absurdo. Hoje ele parece apenas mais um personagem perdido no meio do caos. O final dos dois pelo menos é bonitinho, ainda que totalmente previsível. Dito isso, brigaram, discutiram o tempo todo, e sequer exploraram isso.
Entre as adições novas ao elenco, quem acaba funcionando surpreendentemente bem é o Oh Father, interpretado pelo incrível Daveed Diggs. Ele tem uma presença estranhamente interessante, faz uma crítica legal ao fascismo presente em certos ambientes religiosos e “Raise Him Up” vira facilmente um dos momentos mais marcantes da temporada.

Já Ashley e Black Noir ficam completamente escanteados. São personagens que antes movimentavam muito bem a dinâmica da série, mas agora parecem estar ali apenas para cumprir tabela. Pelo menos o A-Train recebe um arco de redenção genuinamente interessante, talvez um dos poucos personagens cuja evolução realmente pareça ter consequência. Firecracker também funciona melhor do que eu esperava, muito pela atuação de Valorie Curry, que consegue vender uma personagem que facilmente poderia virar só mais uma caricatura.
Kimiko, Frenchie e MM também parecem estar ali apenas porque a série precisa de mais personagens. Kimiko ainda mantém alguma função narrativa relevante, mas o resto gira em círculos. E o caso do Frenchie talvez seja o mais cansativo, porque a série parece incapaz de levar qualquer momento emocional dele minimamente a sério. Nem no funeral conseguem parar com piadas sobre ânus e humor de quinta série. Depois de um tempo, deixa de ser provocativo e passa a ser simplesmente insuportável.
Quase me esqueci de mencionar o Ryan, personagem que poderia ser tão interessante, mas que o próprio roteiro praticamente descarta, ele leva uma surra no terceiro episódio e só retorna no último para mostrar que ainda estava lá, uma pena.

E aí chegamos ao plano de contenção do Capitão Pátria – e depois ainda falo melhor dele e do Butcher –, que talvez seja o ápice dessa sensação de vazio que domina a temporada. Depois de anos construindo o personagem como praticamente um deus impossível de deter, alguém cuja simples presença gerava tensão, a solução encontrada parece absurdamente simples e apressada. Em menos de dez minutos invadem a Casa Branca com uma facilidade bizarra. O máximo de segurança existente é basicamente um corredor cheio de armadilhas, numa sequência que deveria ser tensa, mas acaba involuntariamente cômica. Falta peso, escala, inteligência. Tudo que antes fazia o Capitão Pátria parecer uma ameaça imparável desaparece em favor de uma resolução apressada e sem criatividade. E digo mais, a série funcionava muito melhor quando a Vaught e o corporativismo era o alvo de sua grande crítica.
E então finalmente chegamos ao confronto entre Homelander e Billy Butcher, os dois personagens que sustentaram essa série por tanto tempo. Só que até isso consegue ser decepcionante. A luta é estranhamente mal coreografada, sem impacto, sem brutalidade memorável e sem qualquer sensação de catarse. Pior: parece um confronto que poderia ter acontecido temporadas atrás exatamente da mesma forma. O V1, tratado durante horas como elemento decisivo, não muda absolutamente nada na dinâmica do embate. E esse talvez seja o maior problema do final inteiro: nada parece realmente importar. Após a morte de Homelander a série ainda tenta emplacar a trama do Butcher querendo matar todos os supers, mas é bem f0d4-se, sinceramente.
Porém mesmo com uma luta tão fraca, vale destacar positivamente o momento em que Homelander fica sem poderes implorando por sua vida, algo que faz total sentido com o personagem e Antony Starr se prova mais uma vez o grande motivo para essa série existir, ele está como sempre, muito acima da média.

As decisões narrativas continuam piorando ao redor disso. Personagens de Gen V aparecem quase como participação contratual para serem imediatamente descartados, sem qualquer função real para a narrativa, só são despachados para o Canadá. Os diálogos frequentemente soam artificiais, exagerados, como se a série estivesse o tempo inteiro tentando viralizar uma frase de efeito. E existem cenas genuinamente constrangedoras, como a Kimiko tendo uma “visão” do Frenchie para conseguir usar os poderes novamente. É o tipo de momento que deveria soar catártico e emocionante, mas cuja execução é tão exagerada e mal construída que só causa vergonha alheia nível 13 Reasons Why.
Parece a pior coisa do mundo falando assim, e não é, mas o último episódio é só a consequência de uma temporada tão fragil.
No fim, a impressão é de uma série completamente perdida dentro dela mesma. The Boys ainda tenta vender a ideia de que é irreverente, ousada e inteligente, mas já faz tempo que confunde provocação com maturidade. Antes, o choque existia para reforçar uma crítica. Agora, parece existir apenas porque a série não sabe mais funcionar sem ele.
Antes, The Boys ria da artificialidade dos produtos criados pela Vought. Hoje, a própria série parece funcionar exatamente da mesma maneira: mais preocupada em manter a marca viva do que em realmente ter algo a dizer. É como se os filmes da Vought tivessem ganhado vida – e eles são as últimas temporadas da série.
PS – Gostaria de ressaltar também que tive uma ótima experiência vendo o último episódio da série junto de outros membros do grupo da Toca, André (que está aqui pelo site também), Antonio, Danton e JP. Agradecido pela parceria.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.