Em um mundo que precisa da bondade do Superman, talvez seja mais fácil se conectar com a visão de mundo da Supergirl. Pois, diferente de seu primo, Kara Zor-El não acredita da mesma forma em certa inocência do mundo ou que o bem precise ser feito sempre sem violência. Ela é uma boa pessoa, mas não da mesma forma que o Superman.

A história adapta a HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, com até certa fidelidade, pelo menos até determinado ponto. Aqui, acompanhamos uma Kara (Milly Alcock, muito bem no papel) ainda marcada pela destruição de Krypton, encontrando a jovem Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley, bem carismática), que busca vingança contra o mercenário Krem, responsável pela morte de sua família. Acontece que Krem (Matthias Schoenaerts) também deixa Krypto, o cão de Kara, prestes a morrer. O que começa como uma missão que a heroína não quer assumir acaba se transformando em uma perseguição interestelar que atravessa diferentes planetas e sistemas solares em busca do soro para curar o Krypto. Pelo caminho, a dupla ainda cruza com o caçador de recompensas Lobo (Jason Momoa).
O que mais me interessava aqui era justamente acompanhar uma heroína que carrega uma relação mais amarga com o universo ao seu redor. Kara não é alguém movida por um otimismo inabalável como de seu primo; ela é impulsiva, falha, guarda ressentimentos e toma decisões questionáveis. Existe um potencial interessante nessa diferença em relação ao Superman, e o filme acerta quando permite que ela seja uma personagem menos perfeita. Além disso, ter um cachorrinho em perigo é sempre algo que conecta o público à trama.
Ao mesmo tempo, boa parte da identidade do longa parece vir diretamente da influência de Guardiões da Galáxia. A estrutura de aventura espacial, a trilha recheada de músicas populares, os personagens excêntricos e o humor constante lembram bastante o caminho que James Gunn ajudou a popularizar nos filmes de super-herói. A diferença é que aqui tudo soa mais diluído. Craig Gillespie até parece uma escolha lógica para esse universo, já que seu estilo conversa com algumas sensibilidades do Gunn, mas ele é um diretor menos interessado naquele humor infantil mais exagerado. O problema é que o resultado acaba ficando num meio-termo estranho: não tem a irreverência de Guardiões nem encontra uma personalidade forte o suficiente para seguir por outro caminho.

A aventura em si raramente ganha peso. Existe uma jornada clara, personagens atravessando diferentes mundos e um desejo de construir uma espécie de faroeste espacial, mas quase tudo passa sem muito impacto. A ação, principalmente, me parece limitada por uma classificação indicativa que constantemente suaviza elementos que deveriam ser mais brutais. O vilão é um bom exemplo disso. Na teoria, estamos falando de alguém responsável por assassinatos, destruição de famílias e sequestros de jovens para transformá-las em esposas. São características que deveriam torná-lo uma presença perturbadora. Na prática, porém, ele acaba parecendo uma versão genérica (especialmente com o visual horrível de capanga C dos saqueadores de Guardiões da Galáxia) e higienizada de um tirano ao estilo de Immortan Joe. O filme fala sobre sua crueldade muito mais do que consegue transmiti-la.
O mesmo vale para Lobo. É um personagem que naturalmente carrega violência, exagero e caos por onde passa, mas sua participação é tão curta e censurada, que é bem menos interessante do que poderia (e ainda assim, ele rouba todas as poucas cenas que aparece). Ele surge quase como uma promessa de algo mais anárquico que o filme nunca pretende entregar.

Também tive dificuldades com as aparições do Superman. David Corenswet continua funcionando bem como o personagem, mas toda vez que ele entra em cena parece que o filme muda de tom. O humor fica mais infantil, mais cartunesco, e quebra um pouco a dinâmica que eu estava comprando com a Supergirl. Entendo a intenção de contrastar os dois heróis, mas para mim essa diferença acaba soando mais como uma mudança de registro do que como um complemento entre personalidades.
Ainda assim, gosto da escolha de colocar Kara no centro de uma história que não tenta transformá-la apenas em uma versão feminina do Superman. O filme entende que ela é uma personagem marcada por perdas e por uma visão mais dura da realidade, e alguns dos melhores momentos surgem justamente dessa tensão entre sua bondade genuína e sua dificuldade em acreditar nas pessoas, ou até mesmo quando se tem seu passado contado. A própria relação com Ruthye acaba funcionando como o coração da narrativa, mesmo que o roteiro nem sempre extraia tudo que poderia dessa dinâmica.
No fim, saí com a sensação de que Supergirl tem uma protagonista interessante procurando um filme à altura dela. Há ideias boas, uma personagem central que funciona e uma tentativa de expandir esse novo universo da DC para além do otimismo do Superman. Mas a aventura raramente encontra personalidade própria, a ação quase nunca empolga e o tom parece constantemente preso entre a dureza que a história pede e a leveza que o estúdio quer preservar. Não achei ruim, mas também não encontrei muito do impacto que esperava de uma adaptação de Mulher do Amanhã.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.