Presos à monotonia imposta pela passagem do tempo, um casal (Seth Rogen e Olivia Wilde, que também dirige o filme) permanece junto muito mais pela filha do que pelo relacionamento em si. Quando os vizinhos de apartamento (Edward Norton e Penélope Cruz) aparecem para um jantar aparentemente despretensioso, a dinâmica entre os quatro começa a desmoronar em uma sequência de situações cada vez mais desconfortáveis – e hilárias.

O resultado é a comédia mais engraçada que vi no cinema em muito tempo, extraindo do humor situacional e do constrangimento um riso constante e incrivelmente genuíno.
Durante boa parte de sua duração, O Convite parece interessado apenas em fazer o público rir. E esse é um de seus maiores trunfos. Wilde nunca conduz a narrativa como se estivesse ansiosa para provar um ponto ou transformar seus personagens em porta-vozes de uma discussão. Antes de qualquer reflexão sobre casamento, desejo ou intimidade, ela entende que o filme precisa funcionar como comédia. E funciona.
Como praticamente toda a narrativa acontece em tempo real e confinada ao apartamento dos protagonistas, o roteiro naturalmente deposita enorme confiança em seus diálogos. Mas Wilde sabe que palavras sozinhas dificilmente sustentariam um longa inteiro em um único ambiente. Sua direção transforma aquela casa em um quinto personagem, usando de cada cômodo para modificar constantemente a dinâmica entre os casais e criar novas tensões a partir da simples ocupação do espaço. A cozinha, a sala, o escritório, os corredores e até os pequenos deslocamentos entre um ambiente e outro alteram a energia das cenas, fazendo com que o apartamento nunca pareça limitado ou repetitivo.

Essa encenação também é parte essencial do humor. Em vez de registrar longas conversas de maneira estática, Wilde constrói piadas através de entradas repentinas de personagens na cena, personagens tentando fugir de diálogos constrangedores, olhares entre os casais e silêncios que duram exatamente o tempo necessário para arrancar boas risadas. O humor nasce tanto do texto quanto da maneira como ele é colocado em cena, pois de nada adiantaria um bom roteiro com boas piadas sem uma direção capaz de trazer elas à vida.
E para que o texto funcione, também era necessário um elenco em sintonia, e todos estão perfeitos. Seth Rogen domina o constrangimento cotidiano, seu personagem é o que mais trabalha com humor físico e ele se sai bem em todas as piadas, no cinema pelo menos, é a melhor atuação que lembro de ter visto dele. Olivia Wilde interpreta uma mulher que parece ter se acostumado a uma rotina que já não a satisfaz, mas que tem muito tesão reprimido, enquanto Edward Norton e Penélope Cruz – que tem minha personagem favorita– roubam a cena sempre que aparecem, transitando entre simpatia, provocação e mistério sem nunca parecerem caricatos (para além da medida), por mim, uma indicação ao Oscar para eles deveria ser o mínimo. A química entre os quatro faz com que cada nova revelação durante o jantar pareça ainda mais interessante que a anterior.
O mais interessante, porém, é perceber que o sexo nunca é a verdadeira pauta do filme, apesar de sempre estar sempre no centro de suas discussões. O “convite” proposto pelo casal vizinho é apenas o estopim para uma conversa que deveria ter acontecido muito antes. Existe aqui um texto menos interessado em discutir quais formatos de relacionamento funcionam e muito mais em observar como tantos casais transformam seus desejos, inseguranças e frustrações em assuntos proibidos dentro da própria casa.

A monotonia retratada aqui também foge do caminho mais óbvio. Ela não nasce da rotina, mas da falsa impressão de que, depois de anos juntos, já não existe mais nada para descobrir sobre o outro. Os protagonistas deixaram de fazer perguntas, deixaram de ouvir e passaram a conviver mais com versões antigas um do outro do que com as pessoas que continuam mudando diariamente. A intimidade dá lugar ao hábito, e o hábito acaba sendo confundido com estabilidade.
É justamente nesse ponto que o casal vivido por Norton e Cruz exerce seu papel. Independentemente de concordarmos com a forma como eles vivem sua relação, existe entre os dois uma abertura para conversar sobre assuntos considerados desconfortáveis sem transformar cada frase em um conflito. O contraste evidencia que o verdadeiro tabu não está necessariamente no sexo, mas na incapacidade de falar sobre ele – e sobre tudo o que o cerca – com quem se divide uma vida inteira.
Um dos grandes acertos de Wilde quando o filme entra em uma conversa mais séria, está em não se propor a responder os conflitos do filme ou julgá-los. O filme não tenta convencer o espectador de que existe um modelo ideal de relacionamento, tampouco transforma a poligamia ou qualquer alternativa em solução para casamentos desgastados. Seu interesse está em mostrar que relações fracassam quando a comunicação passa a ser substituída pela suposição, quando o medo do julgamento pesa mais do que a honestidade e quando duas pessoas deixam de dividir aquilo que realmente pensam.

Talvez seja justamente por confiar tanto na comédia que o impacto de seus momentos mais sérios funcione tão bem. Como o filme nunca sacrifica o humor em nome de uma mensagem, as reflexões surgem naturalmente das situações vividas pelos personagens, sem discursos ou conclusões artificiais. O riso continua presente até os minutos finais, mas passa a dividir espaço com uma percepção incômoda: a de que muitos relacionamentos não terminam por falta de amor, e sim porque seus integrantes, aos poucos, desaprendem a conversar.
Olivia Wilde entrega uma comédia surpreendentemente inteligente, extremamente bem dirigida e sustentada por um quarteto de atores em estado de graça. Um filme que encontra nas situações mais constrangedoras algumas de suas maiores gargalhadas, mas que também entende que, por trás de cada piada daquela noite, existia um casamento tentando lembrar como era ser sincero novamente.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.