Yellow Cake (2026)- Crítica

Há algo de fascinante em ver um cineasta brasileiro mirar um gênero que, por aqui, quase sempre parece reservado às grandes produções estrangeiras. Yellow Cake nasce justamente desse impulso de desafiar expectativas: um filme de monstro e catástrofe ambientado em Picuí, no interior da Paraíba, transformando uma paisagem familiar em palco para uma ameaça nada convencional, o Aedes Aegypt. Só essa premissa já carrega um frescor raro dentro do nosso cinema, ainda que o resultado encontre obstáculos pelo caminho.

Tiago Melo demonstra uma ambição admirável ao abraçar um projeto que exige equilibrar suspense, comentário social e elementos fantásticos sem abrir mão da identidade regional. Em vez de esconder suas limitações, o filme frequentemente as incorpora à própria atmosfera, criando uma sensação de estranhamento que conversa bem com o isolamento da pequena cidade. É uma proposta que vale muito mais pelo risco que assume do que pela segurança da execução.

Boa parte desse mérito passa pelo elenco. Rejane Faria e Tânia Maria conferem humanidade a uma narrativa que poderia facilmente se perder na grandiosidade do conceito, e se perde mesmo em certo momento, mas não por conta delas. São elas que mantêm o espectador conectado quando os efeitos ou o ritmo nem sempre acompanham a força das ideias, oferecendo interpretações que ajudam a sustentar o peso dramático e um lado mais leve da história.

Mas, infelizmente, Yellow Cake sofre com uma irregularidade difícil de ignorar. Há momentos em que o filme parece fluir bem, mas certo acontecimento na metade do filme acabou (na minha experiência, vale ressaltar) prejudicando muito minha experiência. 

Ainda assim, é difícil sair da sessão sem admirar a coragem da proposta, afinal, Yellow Cake lembra que experimentar também é uma forma de fortalecer nossa cinematografia. Mesmo imperfeito, o filme possui personalidade suficiente para justificar sua escolha como abertura do festival Olhar de Cinema (em mais uma sessão que ocorreu na sempre bela Ópera de Arame) e deixa a sensação de que iniciativas como essa merecem continuar existindo – porque, às vezes, um projeto que ousa errar acaba sendo mais memorável do que tantos que preferem não arriscar. 

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