O cinema de arte marcial sempre me fascinou, e ver este projeto surgindo como uma espécie de “sucessor” do excelente Operação Invasão me deixou automaticamente empolgado. Mas, ao mesmo tempo, sinto que fazer comparações como essa, mesmo que inevitáveis, possam comprometer a recepção de The Furious para muita gente. É um ótimo filme, mas que deve ser visto e analisado por si só, fugindo desse tipo de comparação.

O filme acompanha um homem (interpretado por Xie Miao) que tem sua filha sequestrada e parte em busca dela. No meio do caminho, conhece Navin (Joe Taslim), um homem cuja esposa, uma jornalista, também foi sequestrada. Juntos, eles começam a descer a porrada em todo mundo enquanto tentam encontrá-las. É uma premissa aparentemente muito simples, e de fato é, mas muito bem executada.
Existe aqui um tema muito sério sendo abordado: o tráfico e a exploração infantil. Ainda assim, ele nunca se torna o foco da violência em si, uma decisão muito acertada, que permite ao filme trabalhar algo tão pesado sem nunca soar apelativo. A violência mostrada aqui é praticamente exclusiva de seus protagonistas espancando todos os envolvidos nesse esquema nojento e corrupto de tráfico de crianças, e dificilmente isso poderia ser mais satisfatório durante boa parte do tempo.

É sempre admirável ver um filme com tanto cuidado nas coreografias de ação, que em geral são frenéticas e extremamente criativas (com exceção de alguns momentos em que a limitação do espaço torna tudo um pouco repetitivo, e o diretor Kenji Tanigaki parece não trabalhar tão bem em ambientes mais estreitos), mas sem apelar para um tipo de realismo que muitos costumam prezar ao falar de filmes de artes marciais. Afinal, eles não são super-heróis. Ainda assim, existem diversos momentos e personagens que subvertem justamente essa lógica mais pé no chão, como o Homem Grande e Careca do filme. Ele sequer possui um nome, assim como vários dos antagonistas menores. Funcionam quase como NPCs em um grande jogo de ação, obstáculos que conduzem os protagonistas até o verdadeiro chefão dessa rede de tráfico e corrupção.
E é tão divertido quando o filme abraça esse completo absurdo de videogame. Se você pode aceitar uma criança andando de moto por um corredor enquanto espanca capangas genéricos do mal com um cano, este filme é para você. Em momento algum tentam ser sutis – o tipo de ação que lembra muito filmes do John Woo e outras produções que abraçam o total absurdo, até como o recente John Wick 4, meu filme favorito do gênero nos últimos anos.

É aquele tipo de filme que não passa muito tempo justificando seu próprio universo, tudo é estabelecido rapidamente e com poucos diálogos, já que a ação está lá em pelo menos 85% do tempo. E grande parte dessa ação é muito divertida, muito ressaltada pela trilha sonora eletrônica e pelo ótimo trabalho de som que torna o resultado final de quebrar o queixo.
The Furious é um ótimo filme, pode não ser o ápice da ação do cinema asiático, mas é um respiro em meio a tantos filmes de ação mega protocolares que vemos sendo produzidos de maneira desenfreada. Espero que seja uma forma de mandar o recado de que o público sempre vai querer ver bons filmes de artes marciais, simplesmente porque bater nos caras malvados é gratificante demais.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.