Feito Pipa (2026) Crítica- Coração no Lugar Certo

São tantos os assuntos que o carismático Feito Pipa aborda que é difícil não se relacionar com a trama em algum momento. O longa de Allan Deberton, diretor do lindíssimo Pacarrete, tem um olhar muito cuidadoso para a infância e para as descobertas que fazem parte desse período, principalmente quando crescer também pode significar perceber que o mundo nem sempre está disposto a aceitar quem somos. Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, o filme tem qualidades que ajudam a entender a decisão, sobretudo na maneira como olha para seus personagens com carinho e de uma forma tão sutil, é aquele famoso filme difícil de não gostar. Ainda assim, por mais que eu reconheça a beleza do que está sendo construído, senti falta de um pouco mais de tempo para que suas ideias pudessem amadurecer.

A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino apaixonado por futebol que vive com a avó Dilma (Teca Pereira), responsável por criá-lo em um ambiente de liberdade e afeto. Quando a saúde dela começa a piorar por conta do Alzheimer, ele tenta esconder a situação, com medo de ser separado da pessoa com quem construiu sua vida e obrigado a morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), com quem mantém uma relação bem mais difícil. A partir desse conflito, Feito Pipa acompanha uma criança que precisa lidar com a possibilidade de perder a avó, com as dificuldades de se aproximar de um pai ausente e com um mundo que nem sempre aceita sua maneira de se expressar. 

Gosto especialmente de como o filme aborda a infância queer sem reduzir o protagonista a estereótipos. Gugu é uma criança cheia de interesses, desejos e muita personalidade, e sua relação com o futebol convive com outras formas de expressão que nem sempre são bem recebidas por quem está ao redor. O preconceito e o bullying fazem parte de sua experiência, mas não definem quem ele é, e isso é um dos acertos do roteiro. Existe uma diferença entre retratar uma criança queer apenas pelo sofrimento que enfrenta e permitir que ela tenha uma vida para além dele. O filme tenta fazer isso ao mostrar suas brincadeiras, suas amizades e a liberdade que encontra ao lado da avó, lembrando que a infância também precisa ser um espaço para experimentar e descobrir quem se é, sem que tudo vire razão de julgamento.

A relação entre Gugu e Dilma é, naturalmente, uma das partes mais bonitas da narrativa. A avó representa não apenas a segurança de um lar, mas também a possibilidade de crescer sem precisar esconder partes de si mesmo. Por isso, o avanço do Alzheimer torna a situação ainda mais delicada: Gugu corre o risco de perder justamente a pessoa que lhe oferece a liberdade de ser quem é, ao mesmo tempo que precisa lidar com a própria dificuldade de compreender o que está acontecendo. Existe até uma espécie de luto sem perder a pessoa, na percepção de que alguém tão presente pode começar a mudar diante dos nossos olhos. É uma ideia que poderia render momentos bastante dolorosos, especialmente por ser vista pela perspectiva de uma criança, mas sinto que comigo, o filme nem sempre permanece tempo suficiente nessas situações para que elas atinjam toda a força que poderiam ter.

Batista, por sua vez, acrescenta outra camada a essa história ao representar uma relação paterna marcada por ausências, expectativas e preconceitos. A dificuldade de Gugu em se aproximar do pai não está separada do medo de não ser aceito por ele, e o filme encontra nesse conflito uma maneira de falar sobre as diferentes formas de abandono que podem existir dentro de uma família. Lázaro Ramos , para a surpresa de ninguém, é um ator muito bom e traz nuances para o personagem, mesmo que o filme deixe muitas vezes de lado essa relação. Ainda assim, são Teca Pereira e Yuri Gomes os grandes destaques do elenco. A atuação do menino é especialmente importante para que Gugu não pareça apenas um personagem construído para provocar a simpatia do público, enquanto Teca Pereira transmite a familiaridade e o carinho de uma avó cuja presença dá sentido a boa parte da trajetória do protagonista.

O que me incomoda um pouco é justamente a quantidade de temas que Feito Pipa tenta desenvolver ao longo de sua duração. Além da infância queer, do preconceito e dos conflitos familiares, existe o luto pela mãe, a doença de Dilma, o amadurecimento de Gugu e a importância das amizades nesse processo. São assuntos que conversam entre si e ajudam a compor um retrato reconhecível da infância, mas nem todos recebem o mesmo cuidado. Em alguns momentos, tive a impressão de que o filme estava mais interessado em apresentar essas questões do que em trabalhar elas. Isso não significa que precisasse abandonar algum desses elementos, mas talvez permitir que as situações tivessem mais espaço para crescer. Há muita coisa interessante aqui, e é justamente por isso que a pressa em seguir adiante acaba sendo um pouco frustrante.

No fim, Feito Pipa é um filme bonito, sensível e feito com o coração no lugar certo, características que não são pouca coisa quando estamos falando de histórias sobre crianças que precisam enfrentar preconceitos e mudanças familiares antes de estarem preparadas para sequer entendê-las. Allan Deberton demonstra novamente seu carinho por personagens que encontram formas próprias de existir diante das limitações impostas pelo mundo, e o resultado tem momentos genuinamente encantadores. Ao mesmo tempo, não consegui me envolver com a mesma intensidade que gostaria, porque senti falta desse desenvolvimento mais cuidadoso de algumas relações e situações. É um filme correto, com boas atuações e uma perspectiva importante, mas que, para mim, não consegue transformar todas as suas boas intenções em uma experiência tão marcante quanto poderia. 

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