A Meia-irmã feia (2025) um conto de fadas macabro

Nos últimos anos, ganhou força uma tendência curiosa: recontar histórias infantis clássicas sob uma ótica assumidamente voltada ao horror. Exemplos não faltam, de Ursinho Pooh: Sangue e Mel a Screamboat, o famoso “filme do Mickey assassino”. Diante desse histórico, era natural existir certa resistência inicial à proposta de A Meia-Irmã Feia, uma releitura de Cinderela mergulhada no gore. O que surpreende, porém, é que o filme se revela bem mais interessante  (e consciente) do que a maioria das produções que exploram esse estilo.

Existe uma sensação de cansaço que já acompanha esse tipo de releitura, mesmo sendo uma tendência que estourou a pouco tempo. Muitas delas parecem interessadas apenas no choque imediato, na subversão vazia da imagem que já conhecemos desde a infância. Trocar o encanto pelo sangue vira um atalho muito fácil, quase preguiçoso, que confunde provocação com personalidade. O resultado costuma ser descartável: filmes que existem mais como curiosidade ou piada interna do que como obras capazes de sustentar uma ideia até o fim.

A Meia-Irmã Feia parte de outro lugar. A escolha do ponto de vista já indica uma mudança de interesse: não se trata de corromper a figura da princesa, mas de olhar para quem sempre ocupou o papel de obstáculo, de erro, de desvio dentro da lógica do conto. Ao fazer isso, o filme transforma a inveja, normalmente tratada como defeito moral, no centro de tudo. Um sentimento que nasce da comparação constante, da hierarquia imposta entre corpos, rostos e destinos.

Trata-se de um trabalho ao mesmo tempo grotesco e fascinante. Há um cuidado estético evidente em cada detalhe: a maquiagem, reconhecida inclusive com uma indicação ao Oscar, impressiona não apenas pelo impacto visual, mas pela forma como traduz fisicamente o sofrimento e a distorção interna da personagem. O figurino de época é minucioso e muito elegante, mesmo sendo usado como uma forma de sufocar seus personagens, enquanto a trilha sonora, que à primeira vista parece deslocada, cria um contraste estranho e proposital. Essa combinação reforça a ambiguidade do filme e amplia a sensação de desconforto, como se beleza e horror estivessem sempre dividindo o mesmo espaço.

É interessante como todos crescemos ouvindo (ou assistindo) a história da Cinderela como um conto sobre recompensa, paciência e bondade. Sempre houve crueldade ali, mas ela vinha diluída, quase suavizada pela promessa de que tudo daria certo no final, afinal, era um conto destinado às crianças. Em A Meia-Irmã Feia, essa promessa simplesmente não existe. O que o filme faz é tirar o brilho do baile e deixar exposta a engrenagem por trás dele. A competição, a comparação, a necessidade de ser escolhida. De repente, o que parecia fantasia romântica ganha um peso incômodo, como se estivéssemos olhando para o mesmo conto, só que sem filtro.

Quanto ao gore, que atrai público na mesma medida que afasta, na falta de melhores palavras: é MUITO maneiro. Não é um filme sutil, e não precisa ser. A violência visual acompanha a deterioração da personagem que precisa ser “a escolhida” para ter uma vida digna, e torna física uma dor que, em versões mais “limpas” da história, sempre foi ignorada. Em vez de chocar por chocar, o filme insiste em mostrar que aquele mundo é cruel antes mesmo de qualquer gota de sangue aparecer.

Claro que não é um filme isento de problemas, existem alguns excessos que parecem não condizer com o próprio tom do filme, em certo momento tudo fica meio repetitivo, mas pouco importa.

O que mais ficou comigo ao final de tudo foi a tristeza da jornada da protagonista, que preciso ressaltar o quão bem vivida pela incrível atriz norueguesa Lea Myren. Ela é alguém sufocada por expectativas, pela própria insegurança e por um sistema que mede valor do próximo a partir de aparência e aprovação, talvez não tão distante de nosso mundo. Terminei o filme menos impressionado com o choque que ele propõe e mais tocado por essa sensação amarga de inevitabilidade. Não é uma releitura feita para destruir um clássico, mas para encarar o que sempre esteve ali, só que escondido sob o vestido azul e o sapatinho de cristal da Disney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *