A Noiva! (2026) uma abordagem diferente de frankenstein

Após uma intensa e brilhante cena de abertura que se inicia com uma fala de Mary Shelley – aqui interpretada pela futura vencedora do Oscar, Jessie Buckley –  somos apresentados à criatura de Frankenstein, vivido por Christian Bale. Ele procura na experiência da Doutora Euphronious, papel de Annette Bening, uma forma de finalmente criar uma esposa para si, reanimando o corpo de uma mulher morta. A proposta que faz a ela é atravessada por desejo, solidão e uma arrogância quase juvenil de quem acredita que pode moldar o amor conforme a própria carência, mas que funciona ao questionar a própria doutora se ela realmente era uma cientista louca, e até onde ela estaria disposta a ir para se provar.

Frank está sozinho. Há mais de cem anos ele existe naquele mundo sem vivenciar qualquer contato carnal, ele carrega o tempo todo uma sensação de vazio com ele, como se fosse sua sombra. Existe uma urgência quase constrangedora de viver o que nunca pôde experimentar, ele fala sobre querer sentir o toque, a intimidade, os prazeres carnais, como se estivesse tentando recuperar um tempo que o mundo lhe negou, apenas por ser quem é. Não é só desejo, é frustração acumulada, uma raiva internalizada.

Quando a mulher revive, nada acontece da forma que a doutora e Frank esperavam. Ida, a mulher ressuscitada e também interpretada por Buckley, já apresentava episódios de instabilidade mental (guiada pela voz de Mary Shelley em sua cabeça) antes de morrer, e retorna a vida aparentemente sem memória alguma de quem foi.

Não possuindo memória, ela é levada a acreditar que era a noiva de Frank, Penélope, mas acontece que Ida é expansiva, imprevisível, caótica em seus gestos e falas, o que oferece um grande contraste com o Frankenstein contido e introspectivo de Bale, criando uma dinâmica muito interessante, porque o filme deixa de ser apenas sobre a criação de uma companheira e passa a discutir controle, identidade e a ilusão masculina de fabricar um amor conforme seus ideais, mesmo que ele seja totalmente entregue e devoto a sua noiva, ele também se frustra quando ela confronta seu passado, afinal, como uma mulher poderia ousar ter uma vida antes de encontrar o seu amor? (Contém ironia)

O que a princípio poderia se desenhar “apenas” como uma história de amor macabra,  repleta de estranheza, muda repentinamente de rumo após um incidente que transforma os dois em fugitivos. A narrativa então vai para a estrada e o filme vira uma espécie de road movie atravessando os Estados Unidos. Eles passam por cidades que marcaram a vida de Frank, lugares que ele conheceu e idealizou através dos filmes de seu ator favorito, Ronnie Reed, interpretado por Jake Gyllenhaal

Tudo que envolve o personagem de Ronnie Reed, no entanto, é o que menos me agrada. A ideia de transformar essa obsessão em parte estrutural da jornada é interessante no papel, mas na prática soa um pouco dispersa. Ainda assim, rende uma cena musical bastante inspirada, talvez uma das mais visualmente marcantes do filme. É caótica, bem coordenada e muito divertida, tudo que eu esperava do filme e ainda mais condensado em uma única cena.

Gosto muito também do arco policial envolvendo os personagens de Peter Sarsgaard e Penélope Cruz, sendo talvez o momento em que o filme deixa mais clara sua mensagem feminista. Toda a questão do papel da mulher na sociedade dos anos 1920 é discutida com sem perder complexidade, sem medo de afastar certo tipo de público, especialmente quando atravessada por um breve arco revolucionário presente no filme. Não é apenas sobre denunciar um sistema opressor, mas sobre expor como ele se infiltra na lei, em discursos morais e até na ideia de amor

Visualmente o filme é um espetáculo. Diferente da abordagem mais gótica que Guillermo del Toro apresentou recentemente com sua versão de Frankenstein, aqui a estética flerta muito mais com a de um filme noir. Essa escolha conversa perfeitamente com a trama criminal que se desenvolve ao longo da narrativa. Ida carrega uma ligação direta com um chefão do crime, e é essa conexão que acelera os acontecimentos, empurra os personagens para situações cada vez mais perigosas e vai tornando tudo uma bola de neve ao chegar em seu clímax.

Recentemente a diretora Maggie Gyllenhaal em entrevista ao The Interview, revelou que as exibições teste provocaram reações intensas tanto do público quanto dos executivos da Warner Bros. Muitos espectadores se disseram impactados pela presença de violência explícita, incluindo violência sexual, e questionaram se o filme não teria ido longe demais para um grande estúdio. A pressão não veio só das plateias: parte da cúpula da Warner pediu cortes em sequências mais duras, mas é muito legal ver como ainda assim, o filme chega aos cinemas com muita personalidade, incluindo cenas que seriam consideradas “demais” para o filme, é importante ver a visão da diretora sendo mantida.

Então mesmo que a versão idealizada do filme não seja a presente no cinema, ainda é uma versão muito corajosa em suas ideias, fico curioso para ver a versão ainda mais doidona, espero que um dia seja lançada (embora, duvido seriamente que agora com a compra da Warner pela Paramount, um filme como esse fosse receber luz verde novamente). Me remeteu muito a “Coringa: Delírio a Dois, o que para muitos pode parecer um insulto, mas eu gosto.

No fim das contas, por trás da violência, da estética noir e das discussões políticas, tudo aqui retorna a ser sobre amor, ou melhor, sobre as variáveis dele. “A Noiva” não fala apenas de um desejo romântico, mas da necessidade quase desesperada de ser visto, tocado, reconhecido como digno de afeto. Frank acredita que o amor pode ser construído como um experimento científico, moldado à sua solidão, enquanto Ida transforma essa ideia em algo imprevisível, vivo e impossível de controlar. O filme parece perguntar o tempo inteiro se amar é possuir, salvar, recriar ou simplesmente aceitar o outro como ele é. E talvez a maior tragédia desses personagens seja justamente confundirem amor com projeção, mas é muito interessante como todo o horror, suspense e ficção científica no final se resume a um único e inexplicável sentimento: amar.

A Noiva” é um filme muito corajoso, ao mesmo tempo que não tenha chego em sua loucura máxima, mas é extremamente bem encenado, necessário e o verdadeiro manifesto feminista da Warner, desculpa Barbie, mas seu posto foi cedido para uma personagem mais durona. 

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