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Falar de A Voz de Hind Rajab é um caso diferente do que o padrão, porque acima de tudo este é um filme que não deveria existir. Não por falta de mérito, mas porque sua razão de ser nasce de uma atrocidade que vem acontecendo no mundo real.

Hind Rajab era uma menina de cinco anos quando o carro em que estava com os tios e quatro primos foi alvejado por tanques israelenses. Os adultos e três das crianças morrem quase imediatamente. O que transforma o episódio em algo ainda mais difícil de assimilar, porém, não é apenas o ataque inicial, mas o que vem depois: Hind permanece viva, presa no banco traseiro, cercada por corpos, enquanto sua prima adolescente tenta manter uma ligação telefônica funcionando pelo seu breve período de vida restante. Mas durante horas, o que existe é uma criança falando, pedindo ajuda, respondendo a perguntas simples, enquanto do outro lado da linha adultos tentam entender onde ela está e se ainda há tempo de chegar até ela.

É esse intervalo – feito de chamadas, tentativas e silêncio – que Kaouther Ben Hania  (diretora responsável pelo excelente “As 4 Filhas de Olfa” que também mistura o real com o encenado e pelo bom “O Homem que Vendeu sua Pele”) escolhe como foco de A Voz de Hind Rajab. Em vez de reconstruir o ataque ou dramatizar o momento dos disparos, o filme se instala na sede da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, acompanhando os voluntários responsáveis por atender a ligação e coordenar um possível resgate para a menina. A violência não é mostrada diretamente; ela é ouvida, mediada por vozes e decisões que nunca parecem suficientes. O espectador permanece onde essas pessoas estão: diante de telefones, telas e protocolos que, naquele momento, estabelecem a diferença entre agir e assistir à tragédia se desenrolar.

A escolha é de manter a câmera praticamente sempre nesse espaço fechado , o que torna tudo mais angustiante. A cada nova tentativa de contato, a cada pedido de autorização, cresce a sensação de que a situação está sendo tratada menos como uma emergência humana e mais como um problema administrativo. O tempo tem sua passagem não marcada por relógios, mas por quedas de ligação, transferências de chamadas e respostas vagas vindas de instâncias superiores. Enquanto isso, a voz de Hind continua ali, pequena, calma demais para a situação em que se encontra, o que torna tudo ainda mais assustador e desesperador.

Ben Hania constrói o filme a partir de uma estrutura híbrida que mistura encenação e material real (o que, novamente, ela já fez antes), sem nunca apagar a diferença entre uma coisa e outra. As vozes que ouvimos são, na maior parte do tempo, gravações autênticas do caso, enquanto os rostos em cena pertencem a atores que encarnam os voluntários da organização. Em certos momentos, o filme lembra o espectador de que o que está em jogo ali não é uma representação simbólica, mas a tentativa de lidar com algo que de fato aconteceu, e por isso, é tão difícil de assistir.

Há momentos especialmente fortes em que os atores interrompem qualquer fala e passam apenas a escutar. Nessas cenas, o filme parece recusar qualquer dramatização excessiva. O que vemos são reações mínimas: um olhar que se fixa, um corpo que se inclina para frente, uma respiração contida tentando não chorar ao falar com a garotinha. A emoção não vem de diálogos super bem escritos, mas de um certo constrangimento e da dor de ouvir uma criança descrevendo sua própria situação sem compreender completamente a gravidade dela.

A câmera acompanha esse processo de forma inquieta, frequentemente próxima demais dos rostos, como se também estivesse presa naquele espaço sem saber para onde ir. Não há planos de alívio, nem cortes que ofereçam distanciamento. A claustrofobia não vem da arquitetura da sala, mas da consciência de que todas as opções estão sendo esgotadas sem resultado. Cada novo procedimento de segurança exigido para o resgate soa menos como cautela e mais como um adiamento fatal.

Ao recusar o espetáculo da violência explícita, o filme desloca o foco para a engrenagem que permite que ela continue operando mesmo depois do ataque. O horror não está apenas no que foi feito, mas no modo como a situação é conduzida a partir dali: na fragmentação das responsabilidades, na burocratização da urgência, na normalização do atraso. O telefone permanece como o único elo entre Hind e o mundo exterior – e esse elo se mostra frágil demais.

The Voice of Hind Rajab não é o filme que tenta oferecer uma leitura total do conflito nem organizar o episódio dentro de uma narrativa explicativa mais ampla. O filme se “limita” a acompanhar o tempo em que uma criança permanece viva e audível enquanto adultos discutem possibilidades. É uma obra que não se apoia em discursos prontos; ela exige que o espectador escute, assim como aqueles voluntários escutaram, até que a voz do outro lado da linha desapareça.

Ao final, não se trata apenas de cinema, mas sobre reconhecer que a história de Hind não é exceção nem acidente, e sim parte de uma lógica que normaliza a espera, o silêncio e a morte de crianças palestinas. Escutar essa voz é recusar o apagamento – e, diante disso, não há como sair ileso nem neutro. Falar de Hind Rajab é manter viva a chama da Palestina, lembrar que sua história e seu povo resistem a qualquer tentativa de apagamento. E no final, nada do que eu tenha dito aqui é realmente tão relevante quanto o próprio filme, vejam, ele fala por si só.

 

Sem Nota.

 

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