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Sinopse: Os radares em Fort Greely, Alasca, detectam um míssil nuclear. O presidente e sua comitiva devem usar o tempo limitado que têm para tentar derrubar o míssil antes que ele atinja Chicago.

Mesmo não sendo um profundo conhecedor e entusiasta do cinema de Kathryn Bigelow, me parece bem claro que existe uma cisão, em algum período no início dos anos 2000, que permite separar os filmes anteriores a esse período e os posteriores da diretora, e colocando-os em categorias bem díspares. Enquanto “Quando Chega a Escuridão” e “Estranhos Prazeres” atuam muito no campo de uma ludicidade sombria, experimentam códigos de diferentes gêneros e suas imagens são pensadas de forma mais anárquica, a cineasta só estabeleceu de fato sua autoridade de prestígio perante a indústria ao realizar filmes como “Guerra ao Terror” e “A Hora Mais Escura” — ambos com várias indicações ao Oscar, sendo o primeiro vencedor em Melhor Filme e Melhor Direção —, obras que, ao retratarem eventos marcantes contemporâneos da política estadunidense, optam por uma abordagem completamente naturalista de encenação. Existem outros exemplos, como o primeiro grande sucesso de Bigelow, “Caçadores de Emoções”, que não assisti então evito comentar, mas me parece mais próximo dos filmes do mesmo período, e o mais recente “Detroit em Rebelião”, que segue bem a proposta de Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura. Ainda assim, enxergo como uma característica presente em ambas as fases da diretora uma certa visceralidade que leva as suas apostas às últimas consequências.

Não é preciso ser um gênio para identificar que “Casa de Dinamite” se insere muito mais nessa fase atual. Não é de se esperar que Bigelow seja a mesma artista de trinta anos atrás, depois de mudar tanto o seu estilo, mas há diferenças em relação ao que fez em suas obras mais oscarizadas. De Guerra ao Terror retorna a câmera na mão que documenta a ficção — mesmo que Guerra ao Terror seja baseado em fatos, é uma obra ficcional — e aproxima o espectador da visceralidade da ação que ocorre no plano. Desta vez, não há um evento-base para Bigelow se debruçar na narrativa e, por isso, a trama é muito mais objetiva — e conscientemente limitada pelo roteiro. Nesse sentido, a encenação está muito mais interessada em explorar as sensações por meio dos acontecimentos do que em pintar um cenário com respostas coerentes ou conclusões fechadas. É uma narrativa pré-apocalíptica, onde os EUA enfrentam ameaças nucleares desconhecidas, e os profissionais supostamente capacitados precisam impedir a concretização do ataque e descobrir quem está por trás dele. Mas, como eu disse, não espere qualquer conclusão. A montagem divide essa história em três sequências que mostram os mesmos acontecimentos sob diferentes perspectivas — o que me instiga a escrever este texto com parágrafos que dizem a mesma coisa utilizando palavras diferentes, mas resistirei à tentação (ou não?) — justificando o seu grande elenco estrelado, em que ninguém é realmente bem aproveitado.

A aposta de Bigelow de realizar um cinema de sensações — vale dizer que sensações são inerentes ao cinema, independentemente do tipo de filme, mas utilizo esta nomenclatura para diferenciar este dos outros filmes dessa fase da diretora, que possuem uma construção narrativa mais complexa e sofisticada — ao invés de um cinema que responde perguntas até funciona no primeiro terço da rodagem. Se fosse um cinema de respostas, a narrativa avançaria na direção de, a partir do território desconhecido em que o filme inicia, apesar de estabelecer múltiplas possibilidades, destrincharia as respostas deixando tudo claro, mas o que verdadeiramente há em “Casa de Dinamite” é simplesmente uma crescente dessa paranoia até um ponto em que não há mais saída. Os personagens iniciam a trama com muito mais certezas do que terão ao fim. Digo que essa primeira parte é efetiva muito porque a construção do terror do desconhecido é muito bem tensionada através das escolhas que os personagens precisam fazer ao decorrer dos acontecimentos, demonstrando, aos poucos, a falta de controle que eles têm. A câmera na mão cai como uma luva, fazendo o espectador sentir um perigo real. Se for pra destacar qualquer componente do elenco, a resposta óbvia seria a Rebecca Ferguson, atriz que possui um magnetismo ímpar na Hollywood atual e que, nessa primeira parte, interpreta a personagem que melhor parece estar vivendo esse perigo real.

Entretanto, a construção do suspense se dissipa à medida que o roteiro passa a repetir as mesmas passagens sob outras óticas. Não é uma abordagem necessariamente ruim, mas perde muito da visceralidade quando é uma repetição que não adiciona nada ao que foi mostrado anteriormente. O roteiro passa a ser simplesmente prolixo. Se, em um primeiro momento, há muitos diálogos discutindo as questões que envolvem esse perigo nuclear — em que o público possa ter uma dificuldade de compreender certos conceitos e termos —, quando as mesmas discussões são repetidas, a sensação não é a de um complemento, mas que há uma diminuição na importância do que fora mostrado antes, como se anulasse aquilo e só agora o filme resolvesse mostrar o que realmente importa. E isso se repete na terceira vez. As tentativas de conexão emocional com o público por meio dos relacionamentos dos personagens soam completamente jogadas, já que quase nenhum deles soa como pessoas reais, mas sim como bonecos ou peças em um tabuleiro de xadrez. Para mim, o grande ponto negativo do elenco — não por culpa do ator — é justamente Idris Elba, que interpreta o presidente estadunidense. É um personagem praticamente acessório à trama e, para além de sua importância enquanto figura de autoridade, não há nada sobre como ele é filmado ou escrito que o torne de fato alguém que aspire à realidade da função.

O que há de mais interessante sobre Casa de Dinamite é a visão que Bigelow aparenta transmitir sobre o fim do mundo. É um dos temas, manifestado sob diferentes códigos e contextos, que mais movem a indústria Hollywoodiana desde à Guerra Fria — o roteiro inclusive, com alguns ajustes, totalmente poderia ser de um filme do período — e a própria realizadora já o discutia na sua fase anterior. “Estranhos Prazeres”, que é pra mim seu melhor filme, é uma obra que, embora não retrate exatamente um evento paradigmático singular, representa uma sociedade americana semidistópica — apesar de não muito distante temporalmente de quando foi lançado — à beira de um colapso que aparentemente sem salvação. Mas, curiosamente, Estranhos Prazeres talvez seja o único filme da diretora em que o discurso do roteiro se trai e, ao contrário do que afirmei no primeiro parágrafo, não leva suas apostas às últimas consequências. É um filme muito mais anárquico e livre em sua encenação — especialmente na criação de mundo — mas que, ao final, apesar de uma conclusão linda e apropriada ao íntimo dos personagens, não se compromete com o caos e a imaginação, afogando qualquer chance de um colapso desorientante. Casa de Dinamite, embora muito mais genérico e limitado, verdadeiramente caminha para uma conclusão totalmente desorientante, justificando de certo modo a falta de importância de qualquer coisa que acontece no plano — ainda que diria que não intencionalmente.

De todo modo, é uma obra que demonstra, mais uma vez, o quanto esses filmes menos imaginativos da diretora são completamente inócuos e incapazes de gerarem qualquer tipo de reflexão para além de si mesmos — não necessariamente ruins por isso. São obras que, ao supostamente levantarem críticas aos governos e às pessoas envolvidas na política americana, na prática apenas reforçam uma autoridade imperialista dos EUA, só reforçam a sua importância e superioridade sobre os demais. Não gostaria de dizer que são filmes de americanos para americanos, mas, na prática, são todos filmes pensados por uma visão muito autocentrada — talvez não faça sentido cobrar que não sejam — cujo cinismo cheira a propagandismo. Eu verdadeiramente não entendo o que fez uma artista tão interessante dar uma volta completa e mudar totalmente. De filmes com paixão a filmes tão cinzentos e desalmados. Apesar de Estranhos Prazeres ser traído pelo roteiro, a potência da imagem supera qualquer problema. Por outro lado, Casa de Dinamite é praticamente nulo enquanto filme.

 

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