Sinopse: Neste comovente filme, Brendan Fraser interpreta um ator americano em Tóquio que luta para encontrar um propósito até conseguir um trabalho inusitado em uma agência japonesa de “famílias de aluguel”: interpretar papéis substitutos para desconhecidos. À medida que se envolve mais profundamente na vida de seus clientes, ele cria laços genuínos e redescobre o sentido e a beleza silenciosa da conexão humana…

O novo filme da diretora Hikari é uma obra de uma ternura ímpar e surpreendente sensibilidade, ambientada no coração de Tóquio. A narrativa centra-se em Phillip Vanderploeg (Brendan Fraser), e sua jornada é um convite à reflexão sobre a solidão moderna e a busca por um propósito, tudo permeado por uma beleza narrativa que desarma até aquele espectador mais casca grossa.
No centro da trama está o fascinante conceito de “família de aluguel”, uma prática real no Japão onde indivíduos são contratados para simular laços sociais e familiares. Hikari trabalha esse tema com muita delicadeza, evitando algum tipo de sensacionalismo ou tornar o tópico muito estereotipado. A agência de aluguel, que emprega Phillip, não é apenas um negócio, mas um espelho da epidemia de isolamento social que vivemos quanto sociedade. O filme então levanta sua problemática ao questionar se um vínculo pago pode ser menos autêntico do que um “natural”, mostrando que a necessidade de conexão transcende a transação financeira.
Phillip é a personificação perfeita de um ator frustrado, um homem infeliz com o brilho de sua antiga ambição apagado pela falta de oportunidades de emprego em um novo país*. Quando consegue seu trabalho na agência é, ironicamente, a performance mais importante de sua vida. Ele se torna o pai ausente, o marido de apoio, o amigo caloroso. Brendan Fraser entrega Phillip com uma vulnerabilidade que é crucial, mostrando o cansaço de ter que atuar a própria humanidade, tentando convencer os outros – e a si mesmo – de que ele é digno de afeto e atenção.
* Não é realmente novo para ele, pois já está no Japão há 8 anos, porém, não encontrou o seu lugar.

No principal núcleo do filme, ele interpreta o pai de uma garotinha, Mia, interpretada por Shannon Gorman, mas ela não é quem contrata, apenas quem é afetada pelo acordo. É a mãe quem contrata Phillip para desempenhar o papel de um pai presente e bem-sucedido, visando manipular a imagem familiar da filha para que esta consiga entrar em uma escola de prestígio. A jovem, embora desejando o afeto, está sufocada pelas expectativas e sonhos não realizados da mãe, que está impondo um caminho para a criança. Acontece que enquanto a mãe oferece pressão por querer que a filha tenha um bom futuro, Phillip, o ator de aluguel, surpreendentemente oferece a única coisa que a jovem verdadeiramente precisa: ele a escuta de verdade. Neste cenário, a figura falsa do pai se torna o único refúgio de autenticidade para a criança.
A narrativa ainda é uma meditação sobre a luta de Phillip para encontrar seu lugar no mundo, e especialmente em um país diferente daquele em que cresceu. A cidade de Tóquio, com suas barreiras culturais e costumes que fogem do padrão ocidental, reforçam seu sentimento de deslocamento. Ao interpretar papéis familiares para estranhos, ele começa a vivenciar o pertencimento que sua própria vida negou. Cada cliente oferece a Phillip uma chance temporária de ser necessário. Esse trabalho, embora artificial, torna-se um caminho para sua autodescoberta e para a redescoberta de sua própria capacidade de empatia.
O talento de Hikari na direção se manifesta ao meu ver de forma brilhante no seu uso recorrente de janelas, vidros e portas. Há uma frequência com que Phillip é visto através desses “filtros”, seja espiando uma família reunida do lado de fora de uma casa ou sentado sozinho no metrô, observando a cidade. A diretora filma janelas como mais do que um recurso estético ou um objeto de cena: elas funcionam como um reflexo para a condição de Phillip, que é um eterno observador da vida, participando das cenas apenas como um substituto, sempre separado por uma fina camada do vidro de um sentimento que não é totalmente seu.
O filme não ignora as complexidades morais do serviço de aluguel. A linha entre a simulação e o sentimento genuíno é o principal fator de discussão do filme. Phillip sente o peso de ser pago para confortar. No entanto, o filme demonstra que a necessidade do cliente é tão real quanto a satisfação de Phillip em preenchê-la. O que começa como um arranjo profissional se contamina com a verdade humana.
Brendan Fraser entrega uma performance notavelmente mais contida e sensível que de costume. Seu Phillip não é um homem grandioso, mas terrivelmente humano. Sua emoção é transmitida em silêncios, na hesitação de um sorriso mais gentil ou no peso de seu corpo em um assento. Sua atuação evoca uma empatia imediata, dando ao seu personagem uma profundidade que o torna muito mais único, é uma performance muito diferente daquela que lhe rendeu o Oscar por “A Baleia”, mas sinceramente, gosto mais do que ele apresenta aqui, do que em seu último trabalho (que eu também gosto, mas parece gritar por notoriedade, aqui é tudo mais simples, mais bonito).

O elenco de apoio é ainda mais notável pela presença de um ator como Akira Emoto (Zatoichi, Dr. Akagi) e pela sutileza de Mari Yamamoto (Pachinko, Monarch). Emoto, veterano do cinema japonês, interpreta um dos clientes mais importantes de Phillip, um ator idoso e recluso. Sua filha contrata Phillip fingindo que ele é um jornalista, apenas para que o pai sinta que ainda é lembrado. A atuação de Emoto é de uma melancolia discreta, transmitindo a dor da memória e do isolamento com apenas um olhar, mesmo que seja um ser cheio de vida e super engraçado. Ele representa a clientela que busca na agência não apenas companhia, mas uma forma de reconciliação com o passado.
Por outro lado, Mari Yamamoto assume um papel crucial como trabalhadora da mesma empresa e, embora discreta, funciona como um reflexo das inseguranças de Phillip, ou talvez como a personificação de uma potencial conexão autêntica que ele hesita em abraçar. Emoto, Yamamoto e o restante do elenco fornecem a base necessária para que as interações de Phillip pareçam complexas e multifacetadas. Takehiro Hira, como o dono da empresa, também encarna essa mesma solidão e complexidade, mas sua presença funciona melhor sendo descoberta diretamente pelo espectador, sem que eu me estenda demais aqui.
O maior trunfo do filme é mostrar que, mesmo em cenários artificiais, a conexão humana pode florescer. O laço que Phillip estabelece com a jovem Mia, que precisa dele como figura paterna, é o ponto de virada mais emocionante. Não há um clímax super melodramático, mas uma acumulação de momentos que provam o valor da presença e do afeto. É na delicadeza desses pequenos laços que Hikari encontra o coração de seu filme, e talvez, seja nisso que ela também encontre algum propósito para a vida através de Phillip.Família de Aluguel é uma obra profundamente humana e sensível, e mesmo sendo previsível, isso não é um demérito, o importante é a jornada. Se trata de um comentário sobre a atuação como meio de sobrevivência e sobre a mercantilização do afeto, mas é, acima de tudo, uma história de amor e esperança. Phillip, o ator que perdeu os holofotes (que sequer algum dia realmente teve), encontra seu maior papel: o de ajudar pessoas solitárias que, assim como ele, só precisam de alguém para verem e serem vistas. O filme emociona e ilumina a busca universal pelo sentimento de pertencimento.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.