Sinopse: Em um futuro próximo, “O Sobrevivente” é o show de maior audiência na televisão – uma competição mortal onde os participantes precisam sobreviver 30 dias enquanto são caçados por assassinos profissionais. Cada passo é transmitido a um público sedento por sangue e cada dia sobrevivido aumenta o prêmio em dinheiro para o vencedor.

Não sou contra remakes; pelo contrário, sou um grande fã da ideia de que filmes com premissas interessantes, mas que pareceram “chances desperdiçadas”, recebam uma nova oportunidade. Gosto da possibilidade de que esses títulos ganhem novas versões, reinterpretadas com diferentes pontos de vista através de novos diretores. O filme O Sobrevivente (The Running Man), estrelado por Arnold Schwarzenegger nos anos 80, me pareceu um desses casos que mereceria um remake, especialmente com um diretor que admiro, como Edgar Wright. No entanto, percebo que, tanto a versão original quanto a nova adaptação tendem a gerar a mesma sensação: são, na melhor das hipóteses, uma aventura divertidinha, mas que possuem um universo muito mais rico e fascinante do que a execução da trama em si.
Baseado no livro homônimo de Stephen King, The Running Man apresenta uma premissa bem divertida: um homem (interpretado por Glen Powell) é forçado a participar de um reality show mortal, onde precisa sobreviver por 30 dias enquanto é caçado por profissionais e monitorado pelo mundo todo. Ele se submete a este risco extremo com o objetivo de garantir uma vida melhor para sua esposa e filha que vivem em situação de extrema pobreza, assim como grande parte da população.
O conceito principal do mundo em The Running Man não é tão distante do nosso: uma sociedade distópica onde a pobreza é extrema e a única válvula de escape – a única chance real de ascensão social e riqueza – é através de um entretenimento promovendo a morte transmitido ao vivo para milhões. Essa ideia toca em pontos da nossa própria sociedade atual, onde a linha entre a necessidade e o espetáculo é cada vez mais tênue, e a exploração da miséria alheia se torna algo vendido e consumido, temos muito isso no Brasil mesmo com programas que exploram os pobres com o suposto intuito de ajudá-los.
A crítica social do livro de King, sobre como o voyeurismo e a violência televisiva distraem e pacificam as massas enquanto os ricos ficam mais ricos, é atemporal (tanto que é comparado durante o filme ao pão e circo da época de grandes conflitos no Coliseu) e merecia uma abordagem mais impactante, especialmente considerando a nossa obsessão atual por esquemas de azar e ganho fácil como o popular “jogo do tigrinho”, que vendem a ilusão de riqueza para os mais vulneráveis, que não deixa de ser a ilusão que o protagonista de Glen Powell também cai.

Infelizmente, o filme de Edgar Wright, apesar de ser tecnicamente bem executado, não consegue cavar fundo nessas questões. E mesmo que Glen Powell traga uma humanidade e um desespero necessários (além de ser muito legal ele se disfarçando como já vimos em “Assassino por Acaso”), a narrativa, por vezes, troca o entretenimento por um comentário social que, embora importante, se torna repetitivo demais, transformando o seu manifesto político-social em uma simples e esticada corrida de gato e rato, que nunca parece ter o escopo que o próprio universo do filme comenta. Falam tanto de ser algo em escala global, mas não vemos isso em tela, muita falação para pouca ação.
Mas a situação fica realmente esquisita quando a personagem da Emilia Jones (CODA) aparece, é como se fosse uma enviada da Paramount para dizer que nem todo rico é malvado, alguns são apenas bobos e inocentes, se importam com pobres, só não sabem o que acontece com eles. Ela é apresentada com uma história de fundo que parece ter sido introduzida apenas como essa desculpa simplista para argumentar que “rico também tem seus problemas”. Ela parece ser um desvio narrativo que não só desacelera o ritmo da perseguição durante um momento interessante do filme, como também apaga um pouco o foco da crítica principal sobre a exploração das classes baixas, sem adicionar uma camada de profundidade significativa à discussão de classes.
Mas, deixando essa personagem de lado, os habitantes deste mundo são em geral bem cativantes, e dá vontade de passar mais tempo com eles. Jayme Lawson, Lee Pace e William H. Macy rendem especialmente bons momentos, mesmo com tempo de tela e funções bem limitadas, e o elenco ainda reúne nomes de peso como Michael Cera, Josh Brolin e Katy O’Brian, formando um conjunto que merecia até mais espaço para brilhar, mas o show aqui é total de Glen Powell que é representado em tela como um herói clássico, típico de filmes dos anos 80, e sinceramente, não me oponho nada a isso e espero que o Powell consiga todo o sucesso que parece merecer.
No fim das contas, O Sobrevivente não é um desastre, longe disso, mas acaba sendo o trabalho menos inspirado de Edgar Wright em todos os aspectos. Funciona como um entretenimento competente, daquele tipo que você assiste tarde da noite sem se arrepender, mas também sem sentir que viu algo realmente marcante. Há lampejos de algo maior, vestígios de uma crítica social mais afiada e a promessa de um universo instigante, mas tudo isso parece ficar sempre no quase, como se o filme estivesse dividido entre querer ser um blockbuster tradicional e descompromissado, mas ao mesmo tempo, um comentário profundo sobre desigualdade e espetacularização da violência. Wright tenta equilibrar essas suas duas vontades, mas o resultado final é uma pequena bagunça que se diverte aqui e ali, sem jamais alcançar o potencial que o filme realmente tinha.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.