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Antes da sessão, as únicas coisas que eu sabia sobre o filme eram justamente a presença da Carolina Dieckmann e o fato de se tratar de uma produção da Globo Filmes com uma proposta aparentemente didática, quase uma propaganda anti-álcool. E, sendo bem honesto? Não dava nada por ele. Entrei na sala com aquela expectativa baixa que a gente cria como mecanismo de defesa. Mas, como sempre tento fazer, fui de mente e coração abertos – e, para minha surpresa, o filme passa longe de ser um desastre. 

Mesmo com seus primeiros dez minutos sendo extremamente mal filmados, marcados por uma câmera trêmula sem propósito e aquela estética limpa demais, quase publicitária e que lembra comercial de produto de limpeza, o longa não demora tanto para começar a se encontrar. Quando decide abandonar essa introdução confusa e focar de fato em seu tema central – o vício – o filme engata, ainda que aos trancos, um caminho mais interessante e menos óbvio do que parecia prometer (e com isso me refiro até a algumas escolhas musicais bem curiosas).

É justamente aí que ele entra em um terreno muito delicado. Afinal, como abordar o alcoolismo sem cair na armadilha da vilanização simplista do álcool, como se a substância fosse um mal absoluto e externo, deslocado de contextos emocionais, sociais e psicológicos de cada um? Penso em Druk, de Thomas Vinterberg, que lida com o álcool de forma muito interessante, quase sedutora, explorando seus efeitos como catalisadores de prazer, descontrole e vazio existencial ao mesmo tempo. Já (des)controle, escolhe um caminho bem diferente: aqui, o álcool é o vilão daquela personagem específica. Ele não é inimigo de todos, mas próprio dela, chegando a se materializar na versão “doidona” da protagonista, Kátia, como se fosse uma presença constante, invasiva e impossível de ignorar. Para outras pessoas no mesmo filme, se existe uma relação saudável quanto a seu consumo, o problema não é a existência dele, e sim o alcoolismo.

Kátia é uma escritora que vive permanentemente à beira da exaustão emocional, sempre flertando com a própria instabilidade. Casada com Zeca (Caco Ciocler), mãe de dois filhos, ela carrega uma vida aparentemente funcional, mas que está sempre à beira de um burnout. Após um momento de colapso, vem a recaída: quinze anos de sobriedade quebrados. A partir disso, o que já não ia bem passa a desmoronar de vez. O casamento entra em colapso, as relações familiares se tornam mais tensas (especialmente com os filhos) e até sua amizade com Léo (Júlia Rabello) passa a ser atravessada por frustrações, ressentimentos e situações de vergonha extrema.

Trabalhar com o alcoolismo no cinema é difícil porque ele exige um equilíbrio entre empatia e responsabilidade. É fácil cair no moralismo barato ou, no extremo oposto, na romantização do vício. (des)controle acerta quando mostra como o vício não é um evento isolado, mas um processo contínuo, feito de pequenas concessões para vencê-lo, negações e auto enganos. Nem tudo funciona – o filme ainda tropeça em certas soluções fáceis e escolhas estéticas questionáveis (apesar dos momentos meio clipe musical da MTV serem bem legais) -, mas há uma honestidade até bem forte em como ele retrata o desgaste emocional de quem está dentro e de quem vive ao redor do problema, não à toa na minha sessão pude perceber muitas pessoas emocionadas.

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