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Sinopse: Um homem chamado Eghbal está dirigindo à noite com sua esposa grávida quando atropela e mata um cachorro. O acidente danifica gravemente seu motor. Ele para em uma garagem próxima de propriedade de Vahid, que nota que Eghbal se parece muito com o policial que o torturou na prisão e arruinou sua vida.

Um ano sem se apaixonar por um filme novo é uma amargura indesejável para qualquer um que dedique mais tempo a ver filmes do que gostaria. Felizmente, graças a Jafar Panahi o meu ano não se perdeu, ainda que tenha demorado a se salvar. 

O novo filme do diretor iraniano é um colecionador de prêmios. Se destaca a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025, prêmio máximo do célebre evento, e se aproxima um possível Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026 (ainda que o fã-clubismo mantenha acesa a chama por um bicampeonato brasileiro – porque se o cinema precisa se alimentar de algo do futebol, é a paixão irracional). Ainda assim, de filmes meia-boca o cemitério de premiações está cheio, mas não será nesse terreno que o filme de Panahi estará enterrado. Muito pelo contrário, em rima poética com a narrativa do próprio longa-metragem, não existe sequer a certeza de que haverá um enterro, e espero que não haja. 

Encurtando a contextualização para começar a falar do que a mim mais interessa escrever, “Foi Um Simples Acidente” é um filme fenomenal. O que foi exposto anteriormente sobre o filme é um retrato bastante fiel de tudo que eu sabia sobre ele antes de assisti-lo e, já que você parou pra dedicar algum tempo para ler as minhas impressões, quem sabe considere também esse conselho: saiba o mínimo. A partir desse ponto o texto não entrará em spoilers (com clareza, pelo menos) e não se propõe a ser uma sinopse alongada, mas apresentará alguns aspectos mínimos da trama para poder elaborar (na medida do possível) sobre o impacto do filme mais interessante de 2025. 

Não foi um acidente que essa obra tenha alcançado um status privilegiado na minha concepção, com o perdão do trocadilho (para quem estiver disposto a perdoar palavras divertidas na telinha). É um trabalho primoroso de ritmo, tensão e conflitos, que dá vida a algo entre um drama político, uma comédia de erros e um suspense de vingança. 

Assimetria informacional, fazendo um uso envergonhado de palavras feias, é o primeiro conceito central para entender o impacto hipnótico do filme de Panahi nas 1h46min que passei em sua companhia. Desde o início do filme observamos uma relação público-personagem em que os conhecimentos de uma das partes sobre certos aspectos da narrativa demora a alcançar a outra. Se, por um lado, sabemos da curta trajetória da família que inicia o filme até que ela pare em um estabelecimento desconhecido para pedir ajuda com o seu carro quebrado, por outro lado não sabemos o porquê de um dos funcionários passar a se esconder e simular uma segunda voz ao falar com certas pessoas que estavam naquele carro. Com o avançar da trama, nos apropriamos do que é exibido em tela, mas somos confrontados por uma imensidão de anos, experiências, traumas e vivências que os personagens carregam consigo e demoram a ser reveladas ao público. A expectativa pelo momento catártico das revelações é uma ascensão constante. O primeiro motivo para não piscar está aí.

Já a sensorialidade é a razão para, sem piscar, ser impactado tão profundamente por cada uma dessas descobertas progressivas. Como um motivo recorrente, tanto as descobertas quanto os achismos que não se convertem em certeza se relacionam profundamente com os sentidos dos personagens e os nossos sentidos de plateia. Aquilo que não se vê (ou não se viu) é peça chave para manter vivo o conflito da história, que busca outras formas de testemunhar e argumentar os diferentes pontos de vista, como as memórias corporais comandadas pela audição, olfato e pelo tato, por exemplo. Sem certeza visual, ouvir uma voz e reconhecê-la, ou encostar em uma cicatriz e saber a sua origem, geram pistas que aceitamos na tentativa de resolver o mistério, mas que enfrentam dificuldade para encerrar com certeza um caso confuso de vingança.

O panorama de personagens é um dos grandes destaques do filme, e não por menos as atuações recebem elogios frequentes nos comentários de quem já assistiu “Foi Apenas Um Acidente”. A barreira da língua é quebrada pelas diferentes formas de expressar sentimentos comuns, como o volume do grito de raiva, as feições confusas de surpresa, os movimentos descontrolados de desespero e as hesitações de incerteza. Há quem grite, há quem reflita, há quem se contradiga, há quem se questione, e nada parece fora do lugar. São esses personagens complexos que aumentam a vontade de entender como pessoas tão diferentes, com posições distintas na sociedade, podem estar ligadas por um mesmo desejo: justiça. 

Aos poucos recebemos doses maiores de informações, ao mesmo tempo em que o filme começa a apresentar aspectos de uma comédia de erros. Nesse ponto da crítica, já se passaram 13 dias desde que escrevi a primeira linha e, nesse meio tempo, pude terminar a leitura de “Esperando Godot” (1953), peça de Samuel Beckett referenciada nominalmente durante o filme de Panahi e com quem o longa compartilha uma clara intertextualidade. O prolongado tempo em que o mesmo dilema permanece sem resposta (tempo proporcional, não absoluto, relembrando que o filme possui menos de 2h de duração) não gera o tédio, mas intriga pela possibilidade de descobrir o que aqueles personagens fizeram com sua vida a partir do momento em que um trauma comum as ressignificou. Assim como na peça de Beckett, em que dois amigos maltrapilhos esperam no deserto pela vinda prometida de Godot, também no filme de Panahi há uma espera por uma resposta que aos poucos passa a parecer menos provável e, durante esse tempo, os acontecimentos absurdos afloram a personalidade e os desejos dos envolvidos em resolverem suas próprias histórias. 

As escolhas de onde depositar as esperanças são um reflexo do poder de instituições como a amizade, o amor e o trabalho, que em sua ausência geram um impacto atordoante para alguns dos personagens. Diferente da trama de Beckett, no entanto, a espera não é infinita (ainda seja tão ou mais desgastante para as relações durante o tempo que dura) e as respostas não são tão nebulosas. Ao final do filme, resta àqueles personagens que ainda não expiaram suas dores a impossibilidade de adiar o confronto e a urgência de decidir o que fazer. 

O final atordoante distancia Panahi e Beckett. Ao contrário do teatro do absurdo, que não se explica ou deseja explicar, mas apresenta as ferramentas de sobrevivência ao vazio como exagerações (absurdas, veja pois) que afastam a incerteza pelo preenchimento dos vazios, Panahi opta pelo confronto que busca preenchê-lo com sentido. É no confronto final que se revela o que durante toda a peça de teatro absurdista não se explicita: a resposta sobre quem é Godot, a resposta sobre a espera. 

E com a ironia mais bela de um ano cinematográfico que se salvou nos acréscimos, a última cena de “Foi Apenas Um Acidente” coloca uma coroa de espinhos na cabeça do espectador e o parabeniza por ter aguardado: Godot está aqui.

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