Sinopse: Dr. Victor Frankenstein, um cientista brilhante, mas egoísta, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à ruína tanto do criador quanto de sua trágica criação.

Se o monstro é fruto de seu criador, quem é o verdadeiro monstro?
Essa pergunta atravessa toda a história e parece ganhar um novo peso na visão de Guillermo del Toro para o clássico livro de Mary Shelley. Em Frankenstein, a criatura não nasce como sendo símbolo de maldade, mas como um espelho da própria humanidade – uma espécie de reflexo distorcido dos desejos e falhas de seu criador. Victor Frankenstein busca criar vida, mas o que realmente acaba trazendo à existência é uma imagem de sua própria solidão, uma forma de espelhar o luto pela sua mãe e a carência que o consomem. É por isso que essa história permanece viva por tanto tempo: ela fala menos sobre monstros e mais sobre o vazio humano. Quando entendemos que o monstro não nasce monstruoso, mas se torna o que o mundo o obriga a ser, percebemos que o verdadeiro horror não está na vida concedida a corpos remendados, e sim na ausência de afeto que a costurou. Del Toro entende como poucos que o monstro nunca é apenas uma figura na tela – ele é também a culpa, o abandono e o orgulho de quem o criou.
Frankenstein é, em essência, uma reinterpretação de Gênesis. Na Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, num gesto de amor e desejo de partilhar a vida. Já Frankenstein repete o ato, mas movido por outra força: o medo da morte, o desejo de desafiar o natural e o orgulho de quem se recusa a aceitar a perda. Sua criação não nasce do amor, mas da tentativa de preencher o vazio deixado pela dor. A criatura surge pura, quase inocente, como um novo Adão, mas é imediatamente expulsa do paraíso (sua casa) no instante em que abre os olhos. O que se espera não é ternura nem compaixão, mas o silêncio do criador, e é nesse silêncio que nasce o verdadeiro pecado: não o de criar vida, mas o de negar responsabilidade sobre o que se cria.
Existe também um grande exagero visual por parte de Del Toro em conjunto com todo o departamento de arte, e passo longe de considerar isso algum tipo de defeito. A teatralidade e os exageros visuais são usados como forma de traduzir o peso moral e psicológico da história. O filme parece encenar o próprio ato da criação: tudo é grandioso, pulsante, mas também profundamente triste. A criatura aprende o que é ser rejeitada antes mesmo de compreender o que é ser viva, de ver a beleza na vida. Sua jornada é basicamente a de um humano– cheia de tentativas, de frustrações, de uma busca por pertencimento que o mundo insiste em negar. Ao fim, ela é quem mais se aproxima do humano, enquanto Victor, em sua arrogância e incapacidade de amar o que criou, se torna o verdadeiro monstro.

Del Toro parece fascinado não apenas pelo terror da criação, mas pelo drama da existência. Ele filma o monstro não como ameaça, e sim como um ser em construção, alguém que precisa aprender a sentir e a lidar com o próprio corpo, com a consciência e com o olhar alheio, quase como uma criança. Há um cuidado na fotografia do filme que faz o grotesco ganhar certa poesia. O que poderia ser apenas uma história de horror ganha um ar melancólico, de conto trágico sobre o nascimento da sensibilidade.
O elenco funciona como uma extensão desse olhar. Jacob Elordi entrega a atuação mais expressivas de sua carreira, criando uma criatura que é simultaneamente ingênua e ameaçadora, um corpo que ainda não entende o próprio peso no mundo. Sua presença em cena é hipnótica, e Del Toro sabe explorá-la com planos longos, permitindo que o espectador enxergue a dor e a confusão por trás do olhar. Oscar Isaac dá vida a Victor Frankenstein com uma intensidade contida, oscilando entre o cientista obcecado e o homem devastado por dentro, há algo de profundamente humano na forma como ele tenta justificar seus atos, como se acreditasse mesmo que a ciência pudesse curar o luto. E Mia Goth, em mais um papel marcante no horror, surge como a única voz capaz de olhar para o monstro sem repulsa, o que confere ao filme momentos de rara ternura.
Há uma sensação constante de que tudo em Frankenstein é construído para causar desconforto, mas também muita empatia, Del Toro não quer que a criatura seja temida, e sim compreendida. Ele transforma o medo em compaixão e o horror em uma forma de reconhecimento. Quando o monstro olha para o espelho, ele não enxerga apenas as cicatrizes em seu rosto – enxerga o reflexo de uma sociedade que o criou para depois rejeitá-lo. É um filme sobre exclusão, sobre como criamos o que tememos e depois fingimos não reconhecer.

Outro aspecto notável é o modo como o filme trabalha o som. A trilha sonora tem algo de religioso e trágico, misturando o sagrado e o profano de maneira orgânica. Cada batida, cada respiro da criatura, parece parte de uma sinfonia maior sobre o ato de existir. O ritmo é cadenciado, nunca apressado demais. O diretor confia na força das imagens e nas pausas, permitindo que o silêncio tenha o mesmo peso que os gritos (ver no cinema foi uma ótima experiência não só pela parte visual, mas diria que principalmente por conta da mixagem de som do filme). Essa escolha torna o filme quase meditativo, um contraste interessante com o horror mais comercial que tende a “apelar” para violência ou choque, aqui tudo é muito mais melodramático.
Ao final, Frankenstein de Guillermo del Toro não se limita a reinterpretar uma história conhecida, mas a reanimá-la (revivê-la, se me permitem o trocadilho) – de forma simbólica e dolorosamente humana. Ele transforma o tão conhecido monstro em uma reflexão sobre criação, rejeição e responsabilidade. Há algo de muito atual em ver um criador que dá vida ao que não está pronto para amar, que abandona o que construiu por medo de encarar sua própria falha. Del Toro nos relembra que a monstruosidade não está na deformidade, mas na forma como tratamos o outro. E talvez por isso sua versão seja tão devastadora: porque, no fim, o que vemos na tela é apenas o retrato do que já somos.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.