Facebook
WhatsApp
Email
X
Telegram

Marty Supreme se apresenta ao público como filme sobre ascensão, mas rapidamente deixa claro que não está interessado em trajetórias edificantes ou em seguir a “cartilha da biopic”. O que Josh Safdie encena aqui é menos a história de um talento improvável e mais o retrato de um tipo humano específico, recorrente e profundamente incômodo. Marty Mauser não é um herói torto nem um anti-herói sedutor. Ele é um canalha. E o filme é plenamente consciente disso, recusando qualquer esforço de torná-lo moralmente defensável, mesmo que ainda consiga nos fazer torcer por ele.

Desde o início, Marty se move pelo mundo amparado por um talento inegável e por uma confiança muito arrogante que surge de seu talento. Ele sabe que é bom no que faz (tênis de mesa, o famoso ping pong) e aprende cedo a transformar essa habilidade em uma forma de conquista. Avança por espaços que de fato conquista, mas também distorce, confundindo mérito real com conveniência moral. É nesse ponto que o filme começa a embaralhar julgamentos e se tornar muito além de um filme sobre a trajetória de um atleta.

Timothée Chalamet entende essa ambiguidade do personagem perfeitamente, algo que inclusive incorporou à sua persona pública ao trabalhar o marketing e a campanha do filme. Sua atuação não busca necessariamente empatia nem um carisma redentor (como ocorre com o personagem do Dwayne Johnson no filme ‘Smashing Machine” do outro irmão Safdie, Benny), mas também não transforma Marty em um vilão caricato. O personagem é inquieto, vaidoso, por vezes infantil, e plenamente consciente do efeito que causa nos outros. Há algo de performático em cada gesto, como se ele estivesse constantemente decidindo qual versão de si mesmo é mais útil naquele momento. A atuação de Chalamet não pede compreensão do público para seu personagem, nem oferece trauma como justificativa. Mas Marty não é um farsante vazio, ele é bom, muito bom. E talvez seja isso que o torna mais perigoso, já que talento não exige caráter.

E então a personagem de Odessa A’zion surge como um contraponto que nunca se fecha em oposição moral clara. Sua personagem reconhece o talento de Marty, se encanta por ele e, ao mesmo tempo, percebe suas falhas. Ainda assim, permanece próxima, orbitando esse centro instável. A força da atuação está nessa tensão entre lucidez e adesão, entre saber exatamente quem ele é e, mesmo assim, continuar ali, fazer parte daquela maluquice. Gostaria de destacar também sua presença na cena de abertura, que fez o filme me cativar logo de cara com uma inesperada cena ao som de “Forever Young”.

O mesmo vale para os personagens vividos por Kevin O’Leary, Abel Ferrara e Gwyneth Paltrow, figuras que encarnam diferentes formas de poder, validação e capital simbólico. Nenhum deles ignora quem Marty é. Eles veem suas falhas, percebem sua ética flexível, mas escolhem negociar com ele porque o talento justifica o risco. Não são vítimas de sua manipulação; são parceiros ocasionais de um sistema que recompensa resultados, não princípios. E em alguns momentos, podem ser ainda piores que ele, como é o caso do vendedor de canetas interpretado por O’Leary.

O que se repete ao longo do filme é essa lógica de espelhamento entre os personagens com relação ao protagonista. Todos que interagem com Marty acabam funcionando como extensões de suas falhas, não por ingenuidade ou sedução absoluta, mas por conveniência. O mundo ao redor não é corrompido por ele de fora para dentro; ele apenas expõe uma estrutura já disposta a relativizar ética, afeto e responsabilidade sempre que há algo concreto a ganhar.

Nesse sentido, Marty Supreme funciona como uma alegoria bastante direta dos Estados Unidos, como pontuado em um comentário que havia lido no letterboxd do crítico de cinema Diego Quaglia. Marty é basicamente o país em forma humana. Ele chega com uma promessa de crescimento, entrega resultados imediatos e deixa rastros difíceis de medir. O roteiro não se interessa em mostrar os danos de forma explícita, e essa escolha não é omissão, é justamente seu comentário, os EUA nunca vão deixar que comentem as atrocidades que fazem, eles só seguem.

A direção reforça essa leitura ao recusar qualquer arco clássico de punição ou aprendizado. O filme não acompanha consequências porque parece afirmar que, para figuras como Marty, elas raramente se materializam. Independente dos meios, ele consegue o que busca. A ideia de sonho americano não exige virtude, apenas a capacidade de fazer o necessário para atingi-lo, não importando o quão imoral seja.

A trilha sonora acompanha essa lógica com energia constante e quase opressiva. Não há espaço para contemplação. A música empurra as cenas para frente, transforma decisões impulsivas em gestos de coragem e reforça a sensação de que parar para pensar é sempre um erro, é um filme muito rápido, dinâmico e que, mesmo em 2h30min, nunca é cansativo.

Essa aceleração constante alimenta a imprevisibilidade do filme. As cenas mudam de tom de forma muito brusca, conflitos surgem e desaparecem rapidamente, e a narrativa se recusa a oferecer estabilidade emocional a seu espectador. Essa forma fragmentada não é algum tipo de descuido como uma visão mais quadrada de cinema possa vir a pensar, mas reflexo direto de um protagonista que vive no improviso e chama isso de virtude, ele não tem plano B, e seu plano A é uma droga, então precisa improvisar na vida sempre.

É nesse ponto que o filme pode causar desconforto. Ao não condenar Marty de maneira explícita, Marty Supreme flerta com a celebração de seu personagem central. Mas talvez o incômodo venha do reconhecimento de que essa celebração já existe fora da tela. O filme apenas a expõe, sem didatismo, sem sublinhados morais. Somos fascinados pelo que é moralmente condenável, e o filme entende e explora isso em tudo, principalmente com suas piadas de humor ácido que são até difíceis de assistir, mas não por isso menos engraçadas.

Novamente, não há redenção nem uma queda tradicional. O corte final então não encerra um ciclo, apenas interrompe um momento. Ele sai de cena convicto de que venceu mais uma vez, e o filme não faz esforço algum para contestar essa percepção. Ao som de Everybody Wants to Rule the World, canção de Tears for Fears, talvez Marty tenha realmente por um breve momento, conquistado o mundo.

No fim, Marty Supreme propõe um pensamento menos sobre um indivíduo e mais sobre um sistema. Se o sucesso continua sendo medido apenas pela capacidade de chegar lá, independentemente do caminho, então o sonho americano nunca foi sobre justiça ou merecimento. Talvez ele sempre tenha sido, sobretudo, sobre quem sabe usar talento e cinismo na mesma medida, sobre quem não tem medo de passar os outros para trás.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *