Facebook
WhatsApp
Email
X
Telegram

O processo de escrita de um texto que se propõe a comentar sobre uma obra artística é um exercício de compreensão mais de sua própria visão do que de fato sobre o objeto analisado. Filmes são muito maiores e impactantes do que qualquer texto escrito para discuti-los. Palavras não fazem jus à arte, principalmente à uma arte como o cinema que é imagem. Não é segredo que Jean-Luc Godard é o meu realizador favorito e que seu corpo artístico contém alguns dos meus filmes favoritos. E no meu círculo pessoal sempre demonstrei uma enorme desconfiança com Nouvelle Vague, o (antigo) novo filme de Richard Linklater — que já emplacou o mais recente Blue Moon nos cinemas lá fora —, em que o cineasta americano conta a história da produção do primeiro longa de Godard, Acossado, e tenta fazer um panorama do que foi o movimento homônimo ao filme — que pode ser traduzido como “Nova Onda”. Nada sobre o filme me empolgava. Não posso negar que já possuía um preconceito irracional para com a obra, entretanto, fui assisti-lo com o objetivo de deixar a experiência falar por si, como qualquer outro filme.

Não é a primeira vez que Godard vai às telas como personagem, o ridículo O Formidável, do oscarizado Michel Hazanavicius, não poderia ser mais desprezível na forma como representa tanto Godard quanto Anne Wiazemsky — casada com o realizador no período retratado no filme, baseado inclusive em seu livro de memórias —, mas há de se respeitar a coragem de realizá-lo enquanto Godard estava vivo e poderia assisti-lo — não sei se chegou a assistir, mas chegou a dizer que era “uma ideia ruim”. Ninguém morreu por causa disso, é só um filme — que nem chegou a ter uma grande repercussão que fizesse qualquer mínimo dano na imagem do já controverso realizador. Nouvelle Vague, por outro lado, dificilmente seria feito antes da morte de Godard. É um filme “homenagem” para alguém que sempre as rejeitou em vida. O que, de forma alguma, invalida o projeto, mas demonstra ou a falta de compreensão do que Godard defendia artisticamente — como a grande maioria dos realizadores americanos demonstram toda vez que se propõem a homenageá-lo de alguma forma — ou uma pura instrumentalização da figura para aproximação do Linklater com um tipo de cinema autoral que ele sempre aspirou a fazer. Dito isso, não haverá mais julgamento extra filme da minha parte, a obra está no mundo e vou me ater a ela.

Linklater dirigiu alguns longas que adoro, como Jovens, Loucos e Rebeldes, sua continuação espiritual Jovens, Loucos e Mais Rebeldes e os filmes da trilogia Antes. Não é a primeira vez que o realizador retratou uma das grandes lendas do cinema em seus filmes. Pessoalmente não lembro tanto de Eu e Orson Welles além de achar estranha a escalação de um ator bem mais velho do que Welles deveria ter no período retratado, mas guardo com certo carinho que não sei se teria revisitando. Em contrapartida, provavelmente os grandes méritos de Nouvelle Vague estejam justamente na escolha do elenco e na reconstrução de época. A Nouvelle Vague Francesa — para diferenciar do filme —, assim como qualquer movimento artístico, surge a partir de contextos históricos específicos. O Neorrealismo Italiano, a ascensão do cinema americano na Europa após o fim da Segunda Guerra Mundial, a chamada “Tradição de Qualidade” — que segundo François Truffaut privilegiava a convencionalidade acima da originalidade, leia o texto “Uma Certa Tendência do Cinema Francês” se tiver mais interesse — do cinema francês do pós-guerra e a criação da revista Cahiers Du Cinéma são algumas peças que formam esse quebra-cabeças. O roteiro não se propõe a desenvolver tanto esses assuntos, é só o básico: críticos de cinema decidiram fazer os seus próprios filmes, revolucionaram a arte, e Godard foi a figura mais proeminente.

É um elogio muito óbvio para um filme de época falar que o figurino é perfeito, falar do design de produção que nesse caso é quase tudo locação real, etc, mas o mais genuíno que pode ser dito nesse caso é que não é um filme que parece feito para ser apenas olhado como uma imagem intocável, mas que há vida nos cenários. A mise en scène do Linklater tenta conciliar uma proposta muito semelhante à de Acossado, com uma fotografia em preto e branco emulando película, em razão de aspecto quadrada (Academy Ratio, 1.37:1) e uma abordagem realista — realismo teorizado por André Bazin, não confundir com o suposto realismo do cinema contemporâneo — que encontra o imediato pela câmera, um filme que se produz pela própria realidade, ao mesmo tempo que, uma proposta controlada, tecnicista, mais convencional e narrativa de cinema. Há uma clara contradição entre esses dois modelos. Talvez o mais assertivo seria dizer que se tenta parecer livre pelo controle, por mais que o realizador tenha flertado com um cinema mais livre na trilogia Antes — especialmente Antes do Pôr-do-Sol. Fato é, o roteiro tem uma estrutura narrativa episódica, que estabelece a produção de Acossado como uma dinâmica de segmentos de pequenos caos causados pela excentricidade godardiana, intercalando momentos em que o protagonista é um intelectual brilhante incompreendido e momentos em que é um palhaço que não parece saber o que está fazendo. Linklater parece não ter ambição com a construção de seu filme, está mais interessado em contar essa história de forma bem convencional. Assim, seu longa alterna momentos em que o humor e a dinâmica entre os personagens funcionam e momentos em que a repetição dos padrões de comportamento se torna tediosa.

Um elemento que quase sempre me incomoda em filmes biográficos é a mimetização que muitos atores fazem da pessoa retratada — já critiquei isso nos filmes do Pablo Larraín por exemplo —, mas me deparei com uma atuação, que apesar de imperfeita e de eu não gostar tanto de como o personagem é escrito, é assustadoramente semelhante ao Godard e seus trejeitos, principalmente pela forma como Guillaume Marbeck fala, ao ponto de eu só racionalizar o quão boa foi a atuação dias depois de ter assistido. Claro que ser um ator desconhecido por mim facilite essa percepção, mas sumir dentro de um personagem é basilar para uma grande atuação — a menos que a proposta seja outra, evidentemente. Os outros dois destaques são Aubry Dullin que é muito semelhante ao Jean-Paul Belmondo, talvez o personagem mais divertido, e Zoey Deutch que não lembra tanto a Jean Seberg mas entrega uma boa atuação — mesmo sendo um absurdo uma atriz com posições sionistas interpretar a Seberg, que foi assediada até à morte pelo Governo americano, pelas suas posições políticas, o que o lettering ao final omite — servida de uma caracterização excelente. O Matthieu Penchinat como o brilhante Raoul Coutard também é divertidíssimo. Muito se falou sobre este filme ser uma espécie de “Vingadores” da cinefilia pela quantidade de lendas do cinema que aparecem. De fato é legal ver várias das figuras retratadas, quase todas bem interpretadas e caracterizadas, mas raramente vai além desse legal. A Jodie Ruth-Foster como Suzanne Schiffman sempre me remetia em um primeiro momento à Agnès Varda que pouco aparece.

Estou tentando não transformar este texto em uma defesa do cinema do Godard, mas Acossado, na minha visão, não é apenas o maior filme da história do cinema como provavelmente é a obra que mais influenciou tudo o que envolve imagem enquanto linguagem, mesmo que indiretamente. E Nouvelle Vague é um filme que não parece estar tão interessado nisso e Linklater não parece tão apaixonado assim pelo tema. É mais uma biografia de uma figura que marcou uma época, mas que o espectador desavisado vai esquecer o nome assim que começar os créditos. Não é marcante o suficiente para quem não conhece e não é profundo suficiente para quem conhece essas figuras e o que elas representaram. É só mais un film comme les autres. Nem é digno de ser chamado de dégueulasse.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *