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Logo no início um letreiro nos contextualiza, o ano é 1983 e, na Argentina, a situação não vai bem. Cerca de 30.000 pessoas foram mortas ou presas durante a ditadura, e é neste contexto que Luís Molina (Tonatiuh) é jogado em uma cela escura e sem vida ao lado de Valentín Arregui (Diego Luna), um preso político detido após um protesto de fome. Molina chega com uma missão secreta: extrair informações de Arregui em troca da redução de sua pena, movido pelo desejo urgente de reencontrar a mãe doente. Suas intenções, no entanto, são camufladas por um comportamento extravagante e afeminado, uma persona que desarma certas defesas de Arregui, ainda que o líder revolucionário mantenha uma postura rígida e fechada diante do mundo.

Até que para escapar um pouco do sentimento ruim causado pela prisão, Molina convence Arregui a ouvir ele contando sobre seu filme favorito, “O Beijo da Mulher Aranha”, e é quando a narrativa ganha uma escala visual vibrante através das projeções lúdicas de Molina, que encontra na figura de sua atriz favorita Ingrid Luna, interpretada por Jennifer López, uma forma de aguentar toda a pressão mental daquele ambiente hostil. J-Lo assume então o papel de uma diva mística, surgindo em números musicais belíssimos e sequências de sonho que rompem a monotonia do cárcere com um trabalho de color deslumbrante que emula o saudoso technicolor. A presença da atriz representa o brilho inalcançável de Hollywood que Molina evoca para seduzir Arregui e a si mesmo, e é onde ele transforma a cela em um palco onde a fantasia de uma estrela de cinema é a única arma contra a desolação da tortura, e para tentar desarmar seu companheiro de cela, afim de conseguir mais informações.

Para Molina, e talvez para todos nós, o seu amor pela arte é uma forma de sobreviver e aguentar as provações do mundo. Em momentos de dor absoluta, a mente humana tende a “fugir” para cenários construídos por luz e sombra, para transformar o nosso subconsciente em uma espécie de refúgio. O imaginário atua como uma ponte: enquanto o corpo está acorrentado à realidade política e física, o seu pensamento é livre para viver, já que fugir para a ficção é, muitas vezes, a única forma capaz de suportar o peso da existência.

Dirigido por Bill Condon (Dreamgirls e alguns filmes da saga Crepúsculo), sua versão de “O Beijo da Mulher Aranha” é uma espécie de lembrete de como um musical no cinema deve ser, relembrando grandes filmes que marcaram o gênero. Ele estava super à frente do projeto, coordenou as cores de tudo, desde o design de produção, figurino, cabelo e maquiagem, para obter um maior impacto dramático, e funciona. Condon cria sequências musicais estonteantes que parecem ter sido filmadas em antigos estúdios, em um mundo onde às cores eram muito mais valorizadas no cinema (Wicked, estou de olho em você).

É um grande deleite visual, e um grande mar de referência ao gênero, desde referências mais óbvias como “Chicago” — outro musical de cárcere em que Bill Condon trabalhou no roteiro – a “Quanto mais quente melhor” e “Os homens preferem as loiras” estrelados pela Marilyn Monroe, que certamente serviu de inspiração para a personagem Ingrid Luna.

Para articular o contraste entre o ambiente opressivo da prisão e os elementos fantasiosos da narrativa, o filme distribui sempre dois papéis para cada ator. Jennifer Lopez interpreta Ingrid Luna, figura recorrente nas histórias narradas por Molina, além de assumir o papel da Mulher Aranha, associada à ideia de morte e confinamento, pois um beijo seu, seria a morte. Caracterizada por figurinos elaborados, cabelos loiros ondulados e maquiagem marcada, a personagem é uma projeção estética idealizada inspirada em estrelas clássicas do cinema, justamente quem Molina tanto se inspira, e deseja ser. Suas aparições estão muito mais concentradas em números musicais e sequências estilizadas que interrompem a linearidade do espaço carcerário, do que para qualquer outra coisa. A personagem também permite que temas ligados ao desejo, à autoimagem e à marginalização sejam abordados de forma indireta, sempre mediadas pela linguagem do cinema dentro do cinema.

Enquanto Lopez ocupa esse espaço mais exagerado e visualmente marcante, Diego Luna assume uma posição mais contida, interpretando Valentín Arregui, o preso político que divide a cela com Molina, e também Armando, o interesse romântico presente nas histórias narradas. Em ambos os papéis, sua função é a de contraponto: na cela, representa a resistência política – nas sequências fantasiosas, encarna a figura masculina idealizada que precisa ser protegida, seja das garras do vilão mafioso genérico, ou das garras da Mulher Aranha.

A caracterização inicial de Arregui é rígida e defensiva, mas a atuação de Luna gradualmente introduz nuances que revelam vulnerabilidade, saudades e desejo, acompanhando a transformação da relação entre os dois personagens. Tonatiuh, no papel de Molina, sustenta boa parte do filme ao transitar entre leveza performática e momentos de maior contenção, alternando sempre conforme a distância entre fantasia e realidade vai se rompendo.

Nem tudo é perfeito, toda a parte política poderia ter um desenvolvimento mais interessante explorando mais o personagem de Diego Luna, mas no final é uma experiência super gratificante que relembra ao público como é gratificante ser convidado ao universo de um bom filme musical.

E para espectadores familiarizados com versões anteriores de “O Beijo da Mulher Aranha”, as comparações podem ser inevitáveis. Ainda assim, a adaptação de 2025 se diferencia ao assumir de forma mais explícita a estrutura musical, afastando-se tanto do filme de 1985 dirigido por Héctor Babenco, quanto da encenação teatral. A relação entre os dois protagonistas ganha outra abordagem ao ser inserida nesse formato, menos interessado no realismo dramático tradicional e abraçando muito mais a fantasia.

Lançado em um contexto marcado por excesso de estímulos e consumo constante de imagens, além de uma tendência chatíssima de realismo no cinema, o filme aposta em uma estrutura que convida à suspensão de descrença momentânea da nossa realidade. A trilha sonora de John Kander e Fred Ebb, ainda que não alcance o nível de trabalhos anteriores como “Chicago” cumpre muito bem sua função e tem ótimas canções como “I Do Miracles” ou a própria “The Kiss of the Spider Woman”. O resultado é uma obra que dialoga com o passado do gênero musical e utiliza estes elementos para reencenar uma história de intimidade e amor construída sob um contexto de muita vigilância e repressão de uma forma belíssima.

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