É sempre muito curioso quando um filme subverte nossas expectativas. E é ainda mais satisfatório quando ele sabe explorar diversos gêneros, brincando constantemente com seus clichês para construir algo genuinamente diferente – o que é exatamente o caso de O Drama, longa protagonizado pelas jovens estrelas Robert Pattinson e Zendaya.

Logo de início, somos apresentados a Emma e Charlie dentro de uma estrutura clássica de comédia romântica: flashbacks intercalados enquanto os dois preparam seus votos de casamento. A relação é encantadora, cheia de pequenos gestos que capturam a intimidade de quem já compartilha uma vida. A química entre Robert Pattinson e Zendaya funciona com naturalidade, e o filme se apoia nisso para nos fazer investir emocionalmente na relação entre eles antes de revelar o tipo de história que realmente quer contar.
Acontece que, durante um jantar pré-casamento com os amigos Rachel e Mike (Alana Haim e Mamoudou Athie), um segredo vem à tona e abala as estruturas da relação. A partir daí, o filme abandona o tom leve da comédia romântica e ganha camadas mais densas – sem nunca perder o humor, que se torna apenas diferente, mais constrangedor e de nervosismo. E com isso surgem as perguntas que o longa parece mais interessado em explorar: até onde nos cegamos pelo amor? E será que todos realmente merecem uma segunda chance?
O grande destaque do filme para mim fica com a performance de Robert Pattinson, ator que cada vez mais cresce no meu conceito. Seu personagem tem uma insegurança estranhamente cômica e meio patética, conforme o filme vai avançando e se tornando uma grande bola de neve, ficamos apenas esperando o que ele vai fazer em seguida.
Já Zendaya constrói uma personagem mais contida, porém ainda mais complexa: sua personagem carrega a necessidade de provar que mudou, que não é mais definida por quem foi um dia/ pelo o que já fez (ou não fez). Existe um esforço ali, uma tentativa de reescrever a própria imagem – não só para os outros, mas talvez para si mesma.

Nos coadjuvantes, Alana Haim é quem mais chama atenção ao construir uma falsa moralista extremamente irritante, ao mesmo tempo que compreensível. Rachel se coloca no papel de juíza, alguém que observa de fora e sentencia com firmeza o passado dos outros, mas sem nunca olhar para o próprio umbigo. Há algo de profundamente humano nisso, nessa tendência de exigir dos outros uma clareza moral que raramente aplicamos a nós mesmos. Julga, mas não aceita ser julgada, ou sequer parece disposta a entender que podemos mudar.
Acho que é por isso que O Drama acerta tanto: ele não tem medo de abraçar a própria bagunça. Em vez de lições de moral ou personagens fáceis de definir, o filme entrega um drama bem honesto, com dilemas que podemos trazer com facilidade para nosso dia a dia, mesmo que no longa em si tudo seja mais complexo e mais “absurdo”. Pode ser até meio irritante em alguns momentos, mas é o que faz tudo parecer real.
Terminei o filme não querendo julgar ninguém, mas refletindo sobre os meus próprios julgamentos enquanto assistia. É incômodo ver como o filme vira um espelho para a gente quase sem querer. Porque no fundo, O Drama é sobre o que o amor exige de nós. Exige que enxerguemos alguém além do pior que já fizeram, além da imagem que construímos deles. Exige um esforço que às vezes não estamos dispostos a fazer.
Talvez o grande ponto seja esse: amar de verdade – não o amor fácil dos flashbacks bonitos, mas o amor que continua mesmo quando dói, quando a ilusão é quebrada – dá um trabalho danado. E o filme tem a honestidade de não fingir que todo mundo está à altura disso.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.