Facebook
WhatsApp
Email
X
Telegram

Sinopse: O detetive Benoit Blanc conta com a ajuda de um jovem padre para investigar um crime perfeitamente impossível na igreja de uma cidadezinha que tem uma história sombria.

Rian Johnson retorna ao universo de Knives Out com um filme que, ainda que definitivamente não seja o mais afiado da trilogia, reafirma por que essa série continua tão maneira (e reafirma os motivos pelos quais eu queria que a saga seguisse eternamente).

Wake Up Dead Man é um mistério denso, carregado de simbolismo religioso e inquietações morais, que prefere caminhar por terrenos sombrios e espirituais em vez do brilho mais satírico de Glass Onion (honestamente, para mim funciona menos; gostei menos deste do que de seu antecessor). O resultado é um longa irregular em alguns momentos, mas cheio de personalidade, ambição e imagens que permanecem na memória – o que, querendo ou não, é o necessário para um bom filme.

A direção de Johnson segue extremamente segura, até mais do que nas outras vezes. A câmera segue inquieta quando precisa ser e quase contemplativa quando o peso dramático pede silêncio. Dessa vez, a mise-en-scène trabalha de forma elegante a oposição entre luz e sombra, fé e culpa, redenção e condenação, tornando a atmosfera bem magnética.

A igreja que serve como centro simbólico da narrativa é um dos grandes trunfos do filme: fria, cinzenta e opressiva, mas atravessada por cores vibrantes (tapetes, mantos, vitrais, etc.) que sugerem uma espiritualidade ainda pulsante, mesmo em ruínas. Vi discussões sobre não ser o visual real de uma igreja católica, mas discordo muito – especialmente em relação às das Américas. Acredito que existe uma inteligência visual muito clara nas escolhas, e isso acaba sustentando boa parte da experiência.

Narrativamente, o filme talvez seja o mais ambicioso até agora; a discussão sobre pecado, fé e responsabilidade moral é guiada com coragem (mas nem sempre com precisão). Em alguns momentos, o roteiro parece se empolgar demais com as próprias ideias e acaba escorregando em alguns excessos ou em soluções um pouco forçadas, que quebram o ritmo e diluem o impacto de temas que poderiam ser ainda mais contundentes. Ainda assim, quando funciona, funciona muito bem, especialmente quando a história se permite ser mais humana do que engenhosa.

O elenco é realmente o grande trunfo. Josh O’Connor entrega uma performance belíssima, contida e muito melancólica, construindo um personagem que inspira empatia e desconfiança ao mesmo tempo. Glenn Close adiciona peso emocional e solidão a cada cena, enquanto Daniel Craig retorna com um Benoit Blanc um pouco mais introspectivo, menos performático e sempre muito afiado e carismático.

A química entre os personagens e a atuação sustentam bastante o filme – mesmo quando o roteiro vacila. Os demais personagens cumprem bem seus papéis, embora poucos realmente ganhem densidade suficiente para causar maior impacto emocional.

Então, visualmente, Wake Up Dead Man talvez seja o mais marcante da trilogia. A fotografia trabalha com contrastes fortes, e a iluminação é usada quase como discurso, que revela, esconde e manipula. Passa bem o sentimento, as visões e as crenças e descrenças dos personagens. É um filme que sabe exatamente como quer ser visto, e isso o eleva consideravelmente.

No fim, o capítulo é sólido, ambicioso e, às vezes, bem “espertinho”, mas não totalmente coeso. O final me incomodou tremendamente: detesto quando a grande revelação de um filme é apenas uma grande exposição, especialmente quando é só um personagem confessando tudo (ainda que com todos os significados da palavra). Fica a sensação de que poderia ser mais enxuto ou emocionalmente mais potente, mas também de que estamos diante de uma franquia que não tem medo de se reinventar e que deveria seguir. Wake Up Dead Man pode não ser o melhor da série, mas reafirma o quanto esse universo ainda tem fôlego, inteligência e estilo de sobra. Um mistério imperfeito – e justamente por isso tão interessante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *