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Sinopse: Um programa altamente sofisticado, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres de I.A..

A franquia Tron sempre foi uma espécie de Davi contra diversos Golias. Uma saga nichada que nunca decola, competindo por uma chance contra alguns dos lançamentos mais populares de suas eras. A sequência do clássico original, O Legado, tem um valor muito especial pra mim. Lembro-me de assistir ao trailer no Disney Channel, fascinando meu cérebro de 10 anos por imagens e sons como jamais sonhara. Meus cadernos de escola no 7º ano eram de Tron… Somente eu no mundo inteiro os tinha, mas demonstra o quanto o universo da Grade foi significativo. O anúncio de um terceiro filme, no estado atual do cinema blockbuster americano, vindo da Disney, proporcionou mais receio que empolgação, especialmente estrelando nossa “bunda da piada” preferida Jared “It’s Morbin’ Time” Leto. Após o anúncio da presença do Nine Inch Nails na trilha sonora, e trailers inegavelmente empolgantes para alguém com a minha história, a escala receio-empolgação pendeu à segunda opção… Mas a primeira se provou como a mais correta.

O que há de principal a se falar sobre uma nova jornada na Grade sempre será o puro do audiovisual – som e imagem. Majoritariamente, ambos os aspectos são bem sucedidos por si e em comparação a outros longas do estúdio nesta década, apesar de quando comparados ao projeto antecessor (uma obra-prima em composição sonora e força imagética), é quase um fracasso. Por Ares situar boa parte de sua duração no mundo real, o espetáculo acaba reduzido, especialmente com uma fotografia em diversos momentos insossa, caindo nas tendências mais frustrantes dos últimos tempos – a baixa profundidade de campo, a famosa flat lighting que facilita alterar tudo na pós-produção, e telas verdes desnecessárias para cenários como uma rua ou garagem, deixando toda a identidade visual “só mais uma”, ao invés da singularidade apresentada no clássico de 1982 e todo “o molho” da continuação de 2010. Nos breves momentos dentro da Grade, aquele garoto de 10 anos vendo Legacy no cinema retornou, o desenho de luz passou a ter mais propósito, drama, e personalidade, levando a uma perseguição deslumbrante ao som de “I Know You Can Feel It”. Sobre a música, considerando como Nine Inch Nails está entre minhas bandas preferidas, é desnecessário rasgar elogios, mas que fique registrado, é uma das grandes trilhas sonoras do ano, elevando fortemente diversas cenas da película. Trent Reznor e Atticus Ross há tempos estão entre os melhores compositores da atualidade, rivalizando apenas com Ludwig Göransson (este que criou a trilha suprema de 2025 em Pecadores).

De uma perspectiva de escrita, há muitos que diriam desta ser a menor das preocupações neste universo. O roteiro precisa ser mais eficiente do que perfeito, conter temas a serem elevados pelo trabalho do realizador, editor, e os diretores de arte e fotografia. A falha de Ares na página é sua pobreza em explorar temas característicos da saga. Ambos os filmes anteriores, e especialmente a série animada Tron: A Resistência (que vale MUITO a pena), são histórias sobre fascismo, abuso de autoridade, e até genocídio. Não é à toa que o vilão do clássico se chama Controle Mestre. Ares acaba por espelhar assuntos modernos como inteligência artificial, ganância corporativa, e a natureza mutável da vida, sem nunca se aprofundar neles mais do que um TikToker faria. Qualquer comentário sobre a presença de IA no cotidiano aqui presente é nulo, extremamente afastado da realidade; vilões ricos engravatados já beiram a um clichê irônico imoral, afinal estes são os mesmos que produzem esses longas; e a moral da história acabar como “na vida nada é permanente” é chover no molhado.

A narrativa consiste, simplificando, no primeiro contato terrestre entre seres humanos e os programas do mundo digital da Grade (algo antecipado em Legacy), estes que precisam do Código de Permanência para poderem existir na Terra por mais de meia-hora. Eve (Greta Lee), CEO da empresa desenvolvedora de jogos ENCOM, encontra o Código, portanto ela se torna o alvo de Ares (Leto), e os vilões principais, a programa Athena (Jodie Turner-Smith) e o CEO da companhia rival, Dillinger Systems, Julian (Evan Peters). É difícil descrever o cerne narrativo sem se aprofundar em um discurso expositivo emaranhado, o que em si comprova a falta de eficiência contida na página. É uma premissa tão desinteressante e confusa para leigos, que sou incapaz de me imaginar explicando-a para uma pessoa sem deixá-la entediada (por isso salvei-a para o meio do texto). A jornada emocional de Ares e suas escolhas acabam sendo mal traduzidas, podemos assumir o caminho, mas não conseguimos senti-lo. Talvez, por mais desconfortável que poderia ser com este ator principal, o roteiro peça por uma história de amor. Com nossa dupla protagonista, Ares e Eve, desenvolvendo um romance, a jornada de descoberta e transição de moralidade do personagem-título conteria uma nova força, inclusive espelhando o destino sugerido dos protagonistas do filme anterior. Ajuda muito a canção dos créditos “Who Wants to Live Forever?” ser profundamente romântica.

O trabalho cênico, como boa parte dos outros elementos da projeção, acaba sendo, igualmente, aquém do ideal. Mediano e adequado, sim, mas não especial. O diretor Joachim Rønning, por falta de termo melhor, um “pau mandado” tradicional da Disney, tendo dirigido Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar e Malévola: Dona do Mal, entrega aqui seu trabalho mais único e pessoal (dentro deste histórico), porém inegavelmente sem a visão arquitetônica e atmosférica de Joseph Kosinski, e o puro suco criativo de Steven Lisberger, inclusive falhando em criar um ritmo empolgante e até frenético como um projeto abertamente inspirado em O Exterminador do Futuro deveria. Sem a presença da trilha, e alguns visuais cativantes, a experiência seria tão enfadonha como assistir ao Tron clássico sem o uso de entorpecentes. O desempenho dos atores está longe de ser ruim (grandes atuações jamais foram essenciais para Tron), com destaque à Turner-Smith entregando uma vilã memorável e imponente, e para surpresa geral da nação, Leto contém seus surtos caricatos desta década, tornando Ares um personagem mais introspectivo e curioso de forma bem sucedida. As performances mais questionáveis acabam sendo as dos medalhões, Gillian Anderson e Jeff Bridges.

Para a eterna Dana Scully de Arquivo X,  um papel ingrato e unidimensional da mãe do vilão Julian Dillinger, seu tédio com tamanha planicidade é palpável. Quanto à lenda Jeff Bridges, reprisando seu papel como Flynn, um dos criadores da Grade, é surreal que este é o único personagem que retorna de todos os outros… O título do filme é TRON, o herói do filme clássico, e na série A Resistência, o nome se torna um manto, um símbolo adotado por programas insurgentes. Seria uma escolha perfeitamente razoável trazer de volta sim o ator Bruce Boxleitner, com um personagem título passando seu nome para o outro, assim ambos unidos sobre a mesma ideologia, justificando o título da obra. Como dizia Tron, “Eu luto pelos usuários”. Alguns roteiros passam anos sendo desenvolvidos, um trabalho árduo, emocionalmente desgastante, apesar de suas muitas recompensas. Contudo é frustrante quando em meras horas um escritor amador consegue ter uma ideia substancialmente mais poderosa (e até mais fan service, o que todo estúdio mais ama hoje em dia) do que profissionais milionários almejam. Todo este alongado discurso para enfatizar que a presença de Kevin Flynn é apenas uma cameo forçada, não pertencente à história e sem um singelo poder emocional, com Bridges transparecendo tal sentimento em cena.

Concluindo, por mais duro que o texto tenha se desenvolvido, havia uma felicidade por finalmente ver um novo Tron. Entrar na Grade em uma nova aventura, ver as Light Cycles, os Recognizers, guerras de discos e todos aqueles raios de luz. Os problemas evidentes, e comuns do cinema moderno, se contiveram pelo simples retorno de um fã a este universo especial, da pequena franquia que podia, sempre perde e dá um jeito de voltar. É impossível não ser romântico pelo Cinema, sobretudo por seu potencial, palavra-chave para esta série. Todos os projetos anteriores entregam uma certa expectativa para mais aventuras com seus protagonistas, infelizmente jamais continuadas e finalizadas. Mas enquanto Tron, Uma Odisseia Eletrônica proporciona uma aventura simples através de sua abordagem quase experimental, e O Legado uma nova perspectiva vívida, e pulsante coração audiovisual, Ares acaba sendo uma colcha de retalhos com alguns vislumbres de brilhantismo, sem a riqueza dos seus antecessores.

P.S.: Reforçando, ASSISTAM a Tron: O Legado e Tron: A Resistência no Disney+.

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