Sinopse: Após a devastadora guerra contra a RDA e a perda de seu filho mais velho, Jake Sully e Neytiri enfrentam uma nova ameaça em Pandora: o Povo das Cinzas, uma tribo Na’vi violenta e sedenta por poder, liderada pelo implacável Varang. A família de Jake deve lutar por sua sobrevivência e pelo futuro de Pandora em um conflito que os leva aos seus limites emocionais e físicos.

Enquanto no texto anterior de quem vos escreve, sobre Tron: Ares, foi esclarecido o quanto aquele universo era “a minha parada”, Avatar beira ao ponto de ser uma experiência religiosa. O longa original de 2009 hoje facilmente se encaixa no meu Top 3 de favoritos, com seu impacto florescendo cada vez mais com o tempo. Há algo puro, singular e espiritual naquela obra-síntese de James Cameron que sou incapaz de encontrar na mesma força em qualquer outro lugar. Portanto, carrego comigo um peso emocional à Pandora, seus nativos e colonizadores, diferente de muitos. No decorrer dos últimos dezesseis anos, todos já estão cientes se essa é “a sua parada”, Fogo e Cinzas não será o capítulo que converterá ninguém.
Iniciando imediatamente após O Caminho da Água, a trama segue a família Sully após o falecimento de seu primogênito, cada um lidando com o luto à sua maneira. A ausência de Neteyam leva as crianças a um apego ainda maior ao amigo/irmão adotivo Spider (Jack Champion), o filho do grande vilão Miles Quaritch (Stephen Lang), com tudo deslanchando num ataque interrompendo a jornada dos protagonistas de retornar o garoto à tribo da floresta, sua casa. Dessa forma, somos introduzidos ao povo das cinzas, e nossa nova vilã interpretada por Oona Chaplin, a feroz Varang, com a chama de seu fogo sendo um tanto… apagada.
Houve tanto marketing ao redor da nova antagonista, trailers dando foco à ela, seu rosto estampado em diversos posters, que a promessa não pareceu cumprida. Varang é niilista, violenta, hipnotizante, poderosa e sedutora em cena, especialmente quando vista pela perspectiva de Quaritch, mas considerando sua participação e impacto na história, é difícil não determiná-la como uma “coadjuvante de luxo”. Por outro lado, felizmente, Stephen Lang está extremamente solto como o Coronel Quaritch. Após os eventos do último filme, é perceptível como o personagem está mais letal e maquiavélico, ao mesmo tempo que mais frágil e humano. Sua trajetória nos últimos dois filmes espelha a de Jake Sully no primeiro, seu renascimento num corpo alienígena que lhe deu nova vida, se conectando com alguém que ama o mundo de Pandora, e encontrando uma espécie de romance com uma nativa. Há diversos diálogos e frases de efeito do personagem, palavras cortantes como facas, que simplesmente arrancaram os maiores sorrisos de mim e meus amigos, extasiados pela presença de um grande vilão. O mesmo não poderia ser dito sobre algumas outras falas neste roteiro.

É dificilmente um sinal muito bom quando assistindo a um filme pela primeira vez, chegar ao pensamento “essa fala poderia ser mais curta ou diferente”, sensação que provou-se recorrente, apesar de pontual, no decorrer da projeção. Um exemplo, de uma subtrama revelada no marketing, portanto não consideraria um spoiler, acontece quando Spider, um humano, é dado por Eywa, a divindade Na’vi, a capacidade de respirar em Pandora, sem o uso de máscaras. Quando o personagem percebe isso, junto de seus amigos/família, ele exclama “Eu consigo respirar o ar”. A frase é boba e cômica, piorando ao ser repetida várias vezes e gritada em celebração, enquanto ao invés disso, um íntimo “Eu consigo respirar o seu ar” evocaria substancialmente mais poder poético. A redenção é devido ao universo de Avatar, e o cinema de Cameron, terem como grandes triunfos seu melodrama e cafonice, devido à sua sinceridade.
Por sólidos dez anos, virou um padrão do blockbuster americano, devido ao sucesso da fórmula Marvel, ignorar a sinceridade em favor de humor autodepreciativo, e algumas piscadelas para o público. Enquanto a norma atual é assumir seu papel de ridículo, adotando uma filosofia de “fazer piada de si mesmo para ninguém mais conseguir”, Cameron é da escola tradicional, nos apresentando mitologias e cenas estapafúrdias sem medo da chacota, uma demonstração de confiança, tanto na audiência aceitar essa realidade fictícia, quanto em si mesmo, e suas capacidades como artista. No longa há animais marinhos como águas vivas que são extremamente letais (e nojentos), tensão sexual entre os antagonistas sob o efeito de drogas, baleias espaciais debatendo sobre violência, uma batalha climática diante de um vórtice gravitacional enorme sugando naves, e um vislumbre da grande divindade do planeta. Não há piadas ou ironias sobre, todas as ideias são abraçadas igualmente, a tensão e imersão não são quebradas por insegurança dos criativos ou interferência de engravatados.
Com a palavra mágica vindo à tona, a capacidade imersiva do cinema de James Cameron continua sem precedentes. O trabalho de efeitos visuais, esperadamente, é um absoluto espetáculo, como seus antecessores. Há um evidente desprovimento de novidade e evolução, por sua produção simultânea com O Caminho da Água e os curtos três anos de distância (comparados aos treze do longa original), conceitos facilmente associados à saga, mas ainda há muitas partes novas de Pandora a se explorar, e crescimentos de personagens a serem presenciados. A jornada de Spider talvez seja a mais importante, tomando um certo protagonismo na narrativa, afinal é a ele que mais mudanças ocorrem, incluindo uma emotiva cena junto de Jake Sully (Sam Worthington), vemos o garoto se transformar no elo entre heróis e vilões, assim como parte do povo Na’vi. O ator Jack Champion não está entre os melhores do meio, mas dada a natureza da narrativa e o que é requerido de suas capacidades, acaba não sendo um grande problema.

Cameron muitas vezes mencionou como maior orgulho dessa produção, o desempenho dos atores. A carga emocional imposta sobre os personagens é evidente, escolhas difíceis aparecem diante deles constantemente, como aos adolescentes Sully, Kiri e Lo’ak (Sigourney Weaver e Britain Dalton, respectivamente), trilhando seu próprio caminho, entrando em conflito com o que é esperado ou aceito pela tradição; e ao casal Jake e Neytiri, enfrentando a primeira crise de relacionamento desde seu início. Uma sensação que não me escapa, porém, é que há cenas faltando. Estranho sentimento a se ter após 3 horas e 17 minutos, mas como já foi confirmado em entrevistas que o autor removeu uma sólida meia-hora, e considera uma versão estendida, a suspeita se confirma. Há mais a se explorar, pois algumas crises surgem bruscamente, e se esvaem da mesma forma. Similar ao primeiro filme, cuja versão estendida inclui um prólogo na Terra, e revelações sobre a família de Neytiri e o passado com a empresa vilã RDA, essenciais a seu poder narrativo e esclarecendo uma cronologia. No caso deste lançamento, são alguns ingredientes do recheio do sanduíche faltando, o principal está presente, restando apenas adicionar uma cebola picada, um molhinho, quem sabe uma pimentinha. Ainda um baita lanche, minimamente incompleto.
Mais uma vez, é um filme de Avatar, com seus temas ecológicos e políticos, espetáculo visual, ação megalomaníaca, riqueza mitológica e de personagens, abraçando sua fórmula e eficiência em prol destes elementos. Há muitas rimas, visuais e narrativas, com o filme original, e ao continuar diretamente seu antecessor, haverá abordagens e cenas muito similares, porém longe de uma reciclagem, apenas a maneira como funcionam os cinemas autoral e de franquia tradicional. Apesar de seus breves equívocos, como sangue fresco pouco aproveitado e diálogos clamando por revisão, Avatar: Fogo e Cinzas está entre os grandes filmes de 2025, um triunfo de autorismo na Hollywood moderna.
P.S.: Antes do filme iniciar, exibiram o primeiro teaser de Vingadores: Doutor Destino. No silêncio absoluto da sala, a voz de meu amigo Lucas Ribeiro ecoou com a frase “Não aguento mais essa p****”.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.