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Noutro dia como qualquer outro, enquanto fuçava os confins do streaming HBO Max, emprestado a mim por Bruno Andrade (não aquele), namorado de uma amiga minha, me deparei com o mais recente filme do querido M. Night Shyamalan, “Armadilha”, um dos meus preferidos do cineasta e do ano de 2024, contendo um aviso de “Últimos Dias”. Ações como esta sempre me bugam, por falta de termo mais apropriado e menos chulo, afinal de contas, aquela é uma produção da Warner Bros. Pictures, seu destino é o catálogo da HBO Max, não é uma adição vinda de uma cessão de direitos de outro estúdio rival. Por que cojones estão tirando algo de vocês do seu próprio streaming?

Pense que você está indo para uma biblioteca exclusiva de sua editora preferida. Isso existe? Não sei, mas é tudo hipotético. Você sabe quais livros a casa detém, e procura o seu preferido, quem sabe um lançamento mais antigo, talvez esquecido… ambos não estão lá. Ao perguntar aos bibliotecários, eles apenas informam que removeram os livros das prateleiras, e não colocarão de volta até quando a editora quiser. Em essência, tais projetos artísticos tornaram-se reféns corporativos, numa intersecção entre existência e inexistência. São reais? Sim. São acessíveis? Não. É como ir ao seu restaurante mais frequentado, pedir o de sempre, e ser informado “não fazemos mais isso”. Ué?

Existem alguns exemplos mais notórios de situações como essa na sétima arte, vindos da própria Warner, como “Um Pepino Americano”, estrelando Seth Rogen, sendo o primeiro filme original HBO Max,  e “Convenção das Bruxas”, de Robert Zemeckis. Ambos foram excluídos do catálogo, junto de alguns outros, sem cerimônia ou aviso, apesar de serem de propriedade da companhia, lançados exclusivamente ali. Os longas têm disponibilidade por outros meios legais ao redor do mundo, inclusive por mídia física, mas há uma certa democracia em ter todo o seu catálogo disponível a um clique de distância, negada nesse tipo de exclusão. O caso mais conhecido talvez, porém, veio da Netflix, apesar de justificado.

O filme original de Mike Flanagan, “Hush – A Morte Ouve”, lançado na Netflix em abril de 2016, adquirido pouco antes de sua estreia no festival South by Southwest. O contrato estipulava o licenciamento por sete anos, portanto em 2023, foi removido do catálogo. Recordo-me muito bem do alvoroço, apesar de haver uma explicação coerente, foi o que despertou o gigante, da possibilidade de, legalmente, um filme moderno se transformar em mídia perdida. Por volta de um ano depois, “Hush” ganhou lançamento em VOD, exibição limitada nos cinemas americanos, e finalmente, cópia em Blu-ray incluindo um corte alternativo em preto-e-branco. A história recebeu um final feliz, dentro do possível, afinal DVDs, aparelhos e discos, são cada vez mais raros hoje em dia, especialmente no Brasil. Compare o preço de adquirir um aparelho e diversos, mas limitados, discos Blu-ray, e o valor de assinaturas de streaming, com milhares de opções disponíveis… é por isso que a mídia física, em essência, está morta a anos.

O que torna-se absurdamente claro, é que isso acontece, em sua maioria, com projetos menores, e até independentes. A menos que pelo tema do próximo parágrafo, você nunca verá “Harry Potter” e “Game of Thrones” excluídos da HBO Max, e por mais que oremos pra que isso aconteça, “Stranger Things” nunca irá embora da Netflix. As super marcas sempre permanecerão, mercadologicamente sustentam demais a empresa, mesmo que seus valores artísticos sejam diminuídos cada vez mais por infinitas temporadas, reboots e spin-offs, e polêmicas fortíssimas pelas mentes e astros dos projetos. Tudo diluído e afogado nas maquinações, distraindo-nos de vozes e perspectivas diferentes, esperando por uma chance de brilhar. Mas quem sabe, eles tenham tido uma ideia, de como essas exclusões possam ser frutíferas…

Ao anunciar que um “conteúdo” (péssimo termo) está saindo de sua plataforma, você gera mais atenção nele, sendo mais visualizado até seu último dia. Eventualmente, quando ele voltar, basta inserir um adesivo de “Novidade” e BOOM! Você terá uma enxurrada de novas visualizações. Se “Harry Potter” for excluído da HBO Max em março, fevereiro inteiro todos os filmes estarão em alta no serviço, e ao retornar em junho, julho, quando for, estarão em alta novamente. Uma simples tática de marketing, criando oferta e demanda. É um modo eficiente para gerar mais atenção em algum filme menor, em baixa nos últimos tempos, cujas visualizações tenham caído drasticamente desde o lançamento. Porém, essa abordagem também é uma filha da p***!

Uma franquia, das grandes, que está complicada nesse quesito, é James Bond. Depois de todo o auê da Amazon em adquirir a franquia, todos os 25 filmes entram e saem do Prime Video a torto e a direito. Aparecem por um mês, somem vários outros, vão pro MGM+ (UNIFIQUE ESSES SERVIÇOS, JEFF BEZOS, PELO AMOR DE DEUS), agora tem alguns no Universal+, e em breve, outros estarão no Netflix. Os filmes estão disponíveis para aluguel, mas pagar R$11.90 por cada um dos 25 filmes? Somado com todas as assinaturas, mais as contas, comida, lazer, presentinhos… não né! 007 foi por décadas a franquia de maior bilheteria, ela é histórica, merece muito mais respeito, com todos os capítulos disponíveis para o povo assistir, não vai ser em um mês que alguém vai ver tudo (eu mesmo levei no mínimo quatro), e esse suposto preciosismo, que mais transparece escárnio, for um indicativo de como o personagem será tratado em futuras aventuras… o Bezos vai matar o agente mais letal da ficção, sensacional.

Em resumo, é só mais um sintoma de capitalismo tardio, afetando o mundo das artes. É substancialmente mais simples e democrático disponibilizar o seu próprio catálogo inteiramente o tempo todo, pois o algoritmo já faz boa parte da propaganda, e sempre há uma barra de pesquisa no canto, possibilitando a todos encontrar algo fora de seus padrões. Exclusões deveriam ser limitadas a direitos licenciados de outros estúdios, como por exemplo, filmes da franquia do “Homem-Aranha”, pulando de lá pra cá (como o próprio personagem) em quase todos os streamings, já que a Sony Pictures não possui um serviço próprio (e antes da publicação deste texto, fechou um contrato exclusivo com… Netflix). A Mubi é o principal exemplo, tendo poucas produções originais em seu histórico, e sempre disponibilizando uma variedade extensa de filmes, séries e curtas de diversos países, épocas e estilos. Quando algo é excluído de lá, sabemos que algo tão interessante e único quanto o anterior surgirá no próximo mês.

A verdade é que isso nunca irá parar, e com essa ameaça de fusão da Netflix e Warner, o futuro da preservação do cinema na era digital, legalmente, atinge o ápice de sua desolação. Então, continuem excluindo a vontade, corporações, pois para nos envolvermos com arte significativa para nós, sempre haverá outros meios mais fidedignos de contemplá-la.

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