Sinopse: Na noite de 31 de março de 1943, lendário letrista Lorenz Hart (Ethan Hawke) confronta sua estilhaçada autoconfiança no bar Sardi’s enquanto seu antigo colaborador, Richard Rodgers (Andrew Scott), celebra a noite de abertura de seu inovador musical de sucesso, “Oklahoma!”.
É fascinante e peculiar como a baixa estatura de um homem real pode servir como poesia visual, ao vermos a tamanha pequenez de Lorenz Hart cercada por o que parecem deuses gregos. Não é somente realismo e fidelidade, mas uma demonstração do quão impotente o protagonista se enxerga neste mundo, representado por um restaurante nova iorquino com notas de jazz suave ao fundo. Os arredores de Hart são gentis, belos, delicados, as trevas são apenas internas, subjetivas. Sob a camada de extroversão há insegurança, auto-ódio, sua grande reverência por outros expõe seu desinteresse completo de si, sua maior fraqueza.
O cinema de Richard Linklater parece ser universal aos diversos amantes da sétima arte, afinal falho em recordar de alguém que detesta o homem e toda sua carreira, sempre há um projeto que cativa. “Blue Moon” talvez esteja entre os “piores” que assisti do artista, contudo quando este é um ponto baixo, significa talento legítimo. A abordagem exercida não é dissimilar ao seu estilo-padrão, o famoso hangout movie, muitas conversas variando de pequenos assuntos a existencialismo e filosofia, numa colisão de personagens que vêm e vão, assim como um profundo amor pela História da Arte, aqui vislumbrada através da Broadway dos anos 40. Tudo envolto e amarrado no roteiro do indicado ao Oscar Robert Kaplow, que dará uma grande peça no futuro, evocando bem a visão típica de Linklater a um ponto que mal percebe-se que não foi o diretor-autor quem o escreveu, e eventualmente esquecemos que sequer assistimos a um filme. Como é almejado no teatro, a ilusão é mantida.
Um dos muitos sucessos do longa está na ambientação. Logo na primeira cena foi cômico, da melhor maneira, como tudo parecia um filme noir, que apenas reforça a atmosfera de tragédia, pois tradicionalmente histórias do subgênero não acabam bem. Ao iniciar a película pelo final, cria-se uma forma de inquietação, a pergunta sorrateira que permeia em nossas mentes pelo tempo-real da narrativa: O que levou a isso? Não posso revelar, mas a noite dramatizada no Sardi’s teve um impacto inegável, positiva e negativamente. O set do restaurante, onde passamos 95% do tempo, é simples, vívido, elegante, digno de uma peça onde cenas podem se estender sutilmente por quinze minutos, nunca gerando cansaço ou desgaste, o que seria possível ao utilizar específicas artimanhas.

Apesar de um anseio inicial particular de um formalismo técnico que emulasse por completo uma peça, é fácil imaginar tal ângulo envelhecendo em meados da exibição. A linguagem visual composta por Linklater e seu diretor de fotografia Shane F. Kelly não inova, é exclusivamente funcional, para assim ser convidativa. Uma mistura de teatro e cinema poderia distrair do trabalho dos atores, onde todo o cerne do projeto se encontra, com a mera ideia de perder a oportunidade de planos fechados nos rostos de Hawke e Margaret Qualley em uma íntima e introspectiva cena sendo um grande desserviço, que exigiria toda uma mudança do estilo de atuação. Sabiamente, os criativos traduziram o teatral ao cinemático, de um modo sorrateiro, invisível, bem ilustrado pela edição, afinal cenas fluem com facilidade e delicadeza, planos longos, cortes pontuais, como diriam os mais românticos – mágica.
Cada ator tem seu brilho, por mais breves aparições que possam ter, como Patrick Kennedy interpretando E.B. White, o autor de “Stuart Little”, em algumas das conversas mais envolventes do longa, pois tratam além de temas pessoais, como por exemplo técnicas de escrita, sendo formidável observar dois grandes amantes de palavras trocando-as diante de nós, uma partida de tênis verbal. Temos também o bartender Eddie, papel do subestimado Bobby Cannavale, servindo a função de um curioso “personagem-orelha”, e ocasionalmente jogando algumas palavras de sabedoria, porém mais focado em boas sacadas de humor seco. Além deles nos papéis secundários, há o querido por todos, odiado por ninguém, Andrew Scott, como Dick Rodgers, em emotivas cenas com Hawke, tanto nostálgicas como pesarosas. Um amor de irmão com uma carga de ressentimento exala pelos olhos e palavras de Rodgers, o reconhecimento do valor de Hart, ao mesmo tempo um desejo de se afastar do abismo que o amigo carrega no peito.
Quem não pode sair sem menção é, para surpresa de alguns, Margaret Qualley, a “insubstituível” Elizabeth. Na maioria do primeiro ato, a personagem é apenas mencionada, e sua presença é pontual no decorrer da jornada apesar de estar entre as principais, mas a maneira como Hart a descreve, não é uma mulher, sim uma deusa. A imagem da mulher que não está lá, que transcende o tempo que podemos passar com ela, tão além dos meros mortais, é um caminho de criação de personagem que se envolve ao extremo como meu estilo de escrita, portanto vê-lo tão bem realizado, com a promessa da divindade sendo devidamente cumprida, não sou capaz de reconhecer mérito maior em “Blue Moon” do que tudo rodeando Qualley.

Mas… é preciso finalmente falar de Ethan Hawke, o tecido conjuntivo de cada parágrafo, celebrando sua primeira indicação ao Oscar como Melhor Ator. Uma ousadia na representação de Hart jaz na brutal honestidade de fazê-lo, esporadicamente, um idiota. Não há glorificação da persona, existe a figura apaixonada e carismática, assim como o alcoólico amargo, o criativo frustrado, com elogios falsos e um ego inflado como escudo à insegurança, de perder um amigo de longa data ou um amor fresco – o toque humano que o mantém cativante uma vez que a máscara cai. O que fascina nessa figura de Hart, é a noção dele não ser honesto consigo mesmo. Ele satiriza quando há clamor por sinceridade, se esconde sob o véu de representar a todos no teatro, portanto seu trabalho acaba impessoal. Ele não escreve sobre si pois é incapaz de ter interesse na própria imagem, um homem tão devoto à representação que esquece de ser alguém a ser representado. “Blue Moon” serve como uma reparação histórica de que Hart é, de fato, maior que suas criações.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.
