
Talvez eu seja maluco (ou melhor, com certeza), mas existem produções artísticas capazes de criar em nós um elo emocional mais complexo, envolto em nuances, altos e baixos, do que algumas pessoas jamais conseguiriam. Batman vs Superman é como aquele amigo que você esperava demais e te decepcionou, mas algo sempre os unia novamente, e mesmo não atingindo um vínculo tão positivo quanto previsto, a profundidade enraizada entre vocês é inegável. Posso trazer minha nostalgia de volta a julho de 2015, com o lançamento do trailer da San Diego Comic Con, possivelmente ainda a melhor prévia de qualquer filme que já vi na vida. Pouco me deixou tão pilhado, eufórico, rasgando a cabeça em ansiedade, construindo a trama dos sonhos em minha mente, de algo que por quase uma década antecipava contemplar no cinema em live-action. É óbvio que eu cairia do cavalo. O ano de 2016 foi cheio de desafios particulares, desnecessários a elaborar aqui, mas sou capaz de enxergar neles um dos motivos da decepção inicial. Eu procurava um escape confortável para minhas dores, e fui confrontado com elas dramatizadas diretamente em um momento pouco propício. Quando felizmente superei o conflito, pude permitir-me encontrar nesta obra de Zack Snyder o valor que havia perdido.
Os temas centrais de “Batman vs Superman” são tragédia e morte. Entretanto, são visionados de uma lente agridoce, beirando à esperançosa, de que eventos devastadores, não importando seu escopo, têm o potencial de abrir um caminho luminoso inesperado. Isso descreve, emocionalmente, a trajetória de Bruce Wayne, o menino órfão que abraçou sua perda como um manto protetor dos inocentes… mas essa versão caiu do cavalo também. O cinismo que permeia esta interpretação de Ben Affleck é o mesmo que dominou Lex Luthor por completo, e que gradualmente chama ao Superman de Henry Cavill, com o signo adotado por Snyder para representar estes temas… o animal duas vezes mencionado.
“O cavalo é o branco dos olhos, e a escuridão interna.”

Em contraponto à simbologia do cavalo de Andrei Tarkovsky como representantes de “vida”, vislumbramos o animal três vezes no decorrer dos 180 minutos de projeção, efetivamente no prólogo, ponto central, e epílogo. No início, durante a destruição de Metrópolis, após Bruce correr em direção aos escombros da Wayne Tower, um cavalo passa sutilmente por entre a fumaça; no meio, de frente à explosão do Capitólio orquestrada por Luthor, um policial tenta acalmar seu cavalo entre o barulho e os tremores; E ao final, dois cavalos brancos carregam o túmulo de Clark Kent em seu funeral. Para cimentar o significado do animal, em um sonho acordado do homem de aço, onde reencontra seu pai Jonathan no topo de uma montanha, lhe é contada a história de quando Pa Kent era criança, e o custo de salvar sua fazenda de uma enchente foi a vida dos cavalos dos vizinhos, cujos gritos ecoavam em sua mente durante a noite. A cura para tamanha culpa foi o amor de Martha, o mesmo que Clark encontrou em Lois, que Bruce Wayne perdeu de seu filho adotivo, e que Lex Luthor não encontrou em seu próprio pai.
A estrutura do roteiro, em particular no primeiro ato, é construída através de rimas narrativas entre os personagens-título, o que descobrimos de um, em seguida sabemos do próximo, e dessa forma o conflito entre eles é estabelecido: Ambos enxergam no outro suas maiores falhas. Quando Clark é confrontado com a ideia de “Como escolher quais vidas importam?”, ele encontra o Batman, um vigilante que condena homens à morte na prisão; e ao Bruce ouvir sobre “A febre, a raiva, a sensação de impotência, que torna homens bons cruéis”, ele reconhece em Superman o potencial devastador de tamanha queda de caráter, a mesma que ele enxerga sobre si. Quando os dois maiores super-heróis da história falham em abraçar seu próprio valor, jamais enxergarão algum no próximo. Suas lutas são contra seus monstros internos, o morcego gigante pulando do túmulo de Martha Wayne, e o Apocalypse criado por Luthor. O alvorecer da justiça, a amizade entre os dois que definiu décadas de quadrinhos, só surgirá ao superarem suas batalhas particulares. Pode existir uma falta de fidelidade ao âmago das versões mais tradicionais, mas tudo aqui se encaixa numa ousada reinterpretação, similar a diversos dos mais famosos arcos em HQ. Se pode na página, por que não no cinema? Porém, fidelidade visual é o que não falta.
Não há escapatória alguma, pois o maior hater de Zack Snyder tiraria o chapéu por suas singulares proezas visuais. Além do desenho de luz com propósito, ao criar esta atmosfera densa e onírica, a gravação em película, o mausoléu abandonado conhecido como Mansão Wayne, um dos maiores méritos aqui está no figurino e caracterização. O traje do Batman de Ben Affleck é o mais perfeito já colocado no cinema (eu poderia olhar pra isso por cinco horas) e além dele, mesmo sem a máscara, esse é o Bruce Wayne, da página às telas, igualmente quanto ao Clark Kent de Henry Cavill. Quanto ao seu Superman, ganhando uma roupa mais vibrante para destacar-se ao cinza e preto de sua co-estrela, mantém-se entre as melhores traduções visuais do personagem. Até mesmo o Lex Luthor de Jesse Eisenberg, o grande calcanhar de Aquiles da peça, tem alguns de seus surtos semi-justificados ao perceber que sua adaptação é inspirada na obra do Expressionismo Alemão “Metrópolis” de Fritz Lang, especificamente em Rotwang, o arquétipo do cientista maluco original. É refrescante poder encontrar referências de autores clássicos do Cinema dentro do subgênero super-heróico, mesmo que a ambição e a realização estejam em patamares distantes.

Como já trouxemos ele à tona algumas vezes, Lex Luthor. Sem floreios, é a pior versão do personagem em décadas de adaptações, puramente de um elemento performático. Na página, o maquiavélico bilionário é reconhecido, seu jogo de palavras e manipulação, o detalhado escopo de seus planos, até em suas motivações, levemente alteradas. Quando originalmente partindo de um lugar de inveja, esta versão vem do niilismo. O abuso que sofreu de seu pai o moldou numa criatura amarga e cínica, uma dor que nem Bruce e Clark são capazes de entender, vindos de um ambiente com perda de amor, e não falta dele. É conteúdo substancial para um ator absorver, porém um trabalho como o entregue por Eisenberg porcamente evoca esta tragédia. Se fosse, ao invés de um jovem nerd caricato, um homem culto, frio e calculista, o peso de suas dores seria melhor traduzido, assim como sua aura teria imponência sobre a dupla protagonista. Ao menos, este foi o único equívoco do elenco.
Este pode ser o melhor acervo de atuações da carreira de Snyder. Affleck nunca esteve tão bem, os olhos de Cavill evocam o conflito e o peso nos ombros de Superman, Amy Adams entrega talvez a melhor performance do longa, em sua subtrama à la “Todos os Homens do Presidente”, desenrolando toda a conspiração por trás das maquinações do vilão, que dez anos atrás eu considerei desinteressante, hoje em dia está entre as partes que mais me fascinam, pois nada mais, nada menos, serve para mostrar o quanto Lois ama Clark, o quão longe iria por ele, um arco ativo raro de encontrar na icônica personagem. Além dela, temos o lendário Jeremy Irons como Alfred, numa versão que sempre teve um favorecimento de minha parte, diferente das figuras paternas anteriores tenras de Michael Gough e Michael Caine, vemos um verdadeiro aliado do Cruzado Encapuzado, mais irônico e melancólico; Holly Hunter como June Finch, que fique anotado, tê-la em seu filme é bom sinal. Apesar de pontual, o papel da Senadora ganha força em suas palavras cortantes, tanto a Superman quanto a Luthor, é perceptível sua marra assim como sua empatia. Por último, este que virou um queridinho recente, o Perry White de Laurence Fishburne muito solto e de saco cheio, com invejáveis níveis de sarcasmo: “Onda de crime em Gotham. Em outras notícias: Água molhada”.

Por último, possivelmente sendo a maior ansiedade do leitor: “E quanto a Martha?”. Bem, a execução é minha favorita? Não. Mas a ideia é boa? É ótima. Primeiramente, com tantos filmes sobre os heróis sendo tão focados nas figuras paternas, ver a irmandade entre os dois surgindo da coincidência cósmica de suas mães terem o mesmo nome é um frescor absoluto, afinal ambas personagens foram sempre colocadas mais ao fundo. Em segundo lugar, a ferida de Bruce sempre abriria com a menção do nome, especialmente antes de matar alguém, mas note que ele não desiste, na verdade, fica com mais raiva. Finalmente, quando Lois interrompe, declarando por quem Superman chamava, é quando Bruce percebe que sua jornada nos últimos anos tem sido a recriação de seu trauma, e não um combate ao mesmo. Ao matar Clark ele se torna o assassino de seus pais, o destruidor de uma família, algo representado antes, ao passarmos algumas cenas na prisão com um capanga, pouco antes de morrer, com a marca do morcego em sua pele, que é também pai de um filho pequeno, uma declaração política como jamais sonhada no subgênero. Todo o caminho orquestrado por Snyder e Chris Terrio, co-roteirista, sempre estava trilhando à polêmica cena da “Martha!”, onde jaz o maior peso emocional da obra.
Nestes dez anos, BvS apenas engrandeceu. Pode não ser o melhor filme de herói de 2016, mas facilmente o mais notório e impactante, pela expansão ousada de seus temas, força imagética, e a entrada a todo vapor nesta visão única. Quando considerado em seus iniciais e sabotados 150 minutos como o estopim de um universo cinematográfico, o fracasso existe; contudo quando se tornou completa em suas três horas como a Parte 2 de uma trilogia Elseworlds, distante do tempo em que nasceu, numa época de saturação da fórmula Marvel enquanto ela se espalha pelo resto do cinema blockbuster como um câncer digital, o épico de Zack Snyder pode finalmente florescer, e voar tão alto quanto seus heróis.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.