Zico- O Samurai de Quintino (2026)

Algumas semanas atrás um dos professores da academia a qual frequento me perguntou quem eu considerava melhor: “Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi”. Respondi CR7 sem arrependimento algum, gerou mais burburinho que se comentasse em quem eu votarei nas eleições em outubro mas… o que importa é, se a pergunta viesse depois de assistir a este longa, eu responderia Zico, e ninguém contestaria. O documentário por João Wainer não reinventa tradições ou regras do formato, é uma típica biografia englobando da infância à atualidade, uma fórmula que tem seu valor e certamente capaz de envolver, mas raramente esta abordagem, tanto biográfica quanto documental, resulta em uma experiência duradoura. É sem dúvidas um projeto cativante e fácil de recomendar, mas como Arte falta algo, ou quem sabe… tem até demais.

Quando o assunto é biopic, a melhor estratégia é escolher um momento. Claro, a fórmula dita que todos grandes eventos de uma vida devem ser espremidos em até 1 hora e 45 minutos, deixar-te inspirado ao final, pulando e socando o ar, contudo igualmente 105 minutos depois o frenesi volta para o passado. Enquanto viver um período específico e impactante da vida representada, afinal toda narrativa é o momento mais importante da vida do protagonista, é capaz de atingir mais fundo na alma. Eu posso opinar sobre isso, escrevi a minha biografia, se passa em 24 horas. Assim afirmo que a vida de Zico é cinematográfica, porém cada capítulo do doc merecia o próprio filme. Assistir à juventude de um menino franzino amante de futebol tendo a chance de ser um astro… dá pra fazer um clássico. Acompanhar a jornada do maior atleta do maior clube do Brasil, as sublimes vitórias assim como as devastadoras perdas pessoais, durante aquela era, outro clássico. Pode-se dizer o mesmo do período do intitulado samurai no Japão, havendo uma clara atenção desde o início, de um grande artista no crepúsculo de seus dias, trazendo aos holofotes consigo um time antes desacreditado; assim como sobre as duas Copas do Mundo que participou, e a triste derrota em 1982 que até eu fui capaz de sentir na pele. A experiência acaba como um “geralzão”, uma revisão do que cairá na prova, quando ter uma aula sobre cada matéria possibilita uma adesão maior aos muitos temas que merecem seu devido destaque, ao invés de meros tópicos numa lista.

Quanto à abordagem documental, os que mais marcam tendem a ser formalmente e tematicamente ousados, e pra quem não sabe, pode acreditar, o Brasil é um dos melhores do mundo nessa área. Cada doc de Eduardo Coutinho, por exemplo, apresenta um ângulo diferente, brincadeiras curiosas, contos pessoais, envoltos num frenesi maior que testemunhar monstros gigantes lutando. Então, quando o resultado final padrão de um documentário pouco se diferencia de uma reportagem de jornal estendida, não há problema, mas uma falta de criatividade. O uso frequente de imagens gravadas da época, assim como alguns vídeos caseiros, contribuem para um mergulho estilístico, porém quando são narrados e picotados pelo tradicional talking heads, a sensação acaba por deixar a piscina mais rasa. Mas há um ângulo sutil, quase secreto, por trás das cortinas.

Um grande mérito, se revelando como o tecido conjuntivo capaz de fazer destas diversas narrativas uma só, é Sandra, esposa de Zico, matriarca da Família Coimbra. Ela fez parte de cada um destes períodos, e como o romântico que infelizmente vos escreve, é inevitável não se deixar levar por esses momentos onde ela ilumina o lendário futebolista. Não é à toa que os créditos do longa são gravações das Bodas de Ouro do casal. O coração de Zico é Sandra, assim tornando-a o mesmo para o projeto, este contendo depoimentos de amigos íntimos, colegas de longa data, e alguns fãs xiitas, é fácil reconhecer uma espécie de fanservice, ao homem e ao Flamengo. Passa a ser impossível não associar um com o outro, similar a Pelé e o Santos. Portanto, os grandes amantes do jogo bonito e seu extenso histórico, dos jovens aos boomers, encontrarão muito com o que sorrir durante a projeção.

Em “Zico: O Samurai de Quintino”, há muito do que apreciar e deixar-se levar, uma aula de História do esporte e a trajetória pessoal de um dos maiores ícones a pisar num campo. A sensação de estar naquele período como se o tivesse vivido, envolver-me na vida de pessoas que nunca conheci como se fossemos íntimos, é sinal de um projeto bem sucedido. Através de uma lente mais ousada, digna do artista magistral que Arthur Antunes Coimbra é, seria um documentário icônico. O resultado é só mais um, mas dos bons.

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