Natal Amargo (2026) Crítica

Até que ponto é inteligente transformar a própria falta de ideias em tema de um filme? Existe, claro, algo potencialmente fascinante em um cineasta como Pedro Almodóvar olhar para si mesmo e admitir o esgotamento criativo, a repetição dos próprios vícios, o automatismo de uma assinatura estética que há muito virou caricatura de si mesma. Em teoria, Amarga Navidad poderia ser justamente isso: um acerto de contas entre artista e obra, um filme sobre um autor incapaz de escapar de si mesmo. O problema é que Almodóvar parece acreditar que reconhecer seus defeitos já basta para superá-los

Natal Amargo acompanha duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patrícia enquanto o marido, Bonifacio, permanece em Madri. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção. 

Acontece que Raúl é quem está contando a história de Elsa, pois ela é uma personificação dele mesmo… E de outras pessoas em sua vida.

Ao longo da narrativa, especialmente através do personagem de Raúl – esse alter ego descarado do próprio diretor, e o lado que quero abordar neste texto –, Almodóvar constrói um discurso sobre a crise da criatividade, sobre cineastas que vampirizam a própria vida e daqueles ao seu redor indefinidamente, sobre questões éticas quanto a transformar sofrimento alheio em matéria-prima artística. Mas existe uma diferença enorme entre um filme que se questiona e um filme que realmente coloca sua linguagem em crise.

Porque Amarga Navidad constantemente parece satisfeito demais com sua própria autoconsciência. O filme aponta para seus vícios sem jamais abandoná-los. Ele ironiza os “momentos almodovarianos” enquanto continua inteiramente dependente deles: os diálogos calculadamente excêntricos e teatrais, os personagens que entram e saem como pequenas participações, os momentos de humor aqui bem deslocados, o melodrama embalado em embalagens sofisticadas (novamente outro filme visualmente bem agradável do diretor). 

Há algo quase contraditório em assistir um longa que fala tanto sobre esgotamento artístico sem jamais transmitir qualquer sensação real de risco formal. Em muitos momentos, Amarga Navidad parece um diretor tentando transformar sua repetição em profundidade. Como se dissesse: “eu sei que ando fazendo sempre o mesmo filme”, esperando que essa consciência automaticamente converta o gesto em autocrítica sofisticada. Mas consciência não é renovação.

E talvez por isso o filme soe tão vazio em seus momentos mais supostamente confessionais. Diferente de Dor e Glória (que ganhou crítica recentemente aqui na Toca), onde o autobiográfico vem acompanhado de sentimentos e emoções muito genuínas, aqui a autoficção frequentemente soa domesticada, excessivamente intelectualizada, quase transformada em mecanismo de autopreservação. A reflexão sobre a criação vira desculpa para continuar reciclando exatamente os mesmos impulsos criativos que o filme teoricamente questiona.

Mas Amarga Navidad realmente possui momentos em que parece à beira de um colapso criativo fascinante, como se Almodóvar estivesse finalmente disposto a desmontar sua própria mitologia. Só que ele nunca vai até o fim. Sempre retorna à uma zona segura. 

E isso torna tudo estranhamente confortável para uma obra que deveria ser desconfortável, afinal, ela tenta (e muito) isso.

Talvez o aspecto mais frustrante seja justamente perceber que Almodóvar ainda é talentoso o suficiente para fazer até mesmo seu filme que considero mais fraco parecer “sofisticado”. A direção de atores continua precisa, mesmo que passe longe de ser um de seus melhores elencos, a mise-en-scène continua elegante, há imagens belíssimas espalhadas pelo filme inteiro. Mas a técnica nunca foi o problema de seu cinema, e não passa a ser agora. O problema é a sensação de assistir um cineasta girando em torno das próprias obsessões sem conseguir transformá-las em algo vivo.

No fim, Amarga Navidad acaba sendo exatamente aquilo que tenta diagnosticar: um cinema aprisionado na repetição de si mesmo, no vampirismo ético e fascinado pela própria consciência, mas incapaz de realmente romper com ela. E talvez exista algo involuntariamente melancólico nisso. Porque o filme parece o retrato de um autor que reconhece o próprio esgotamento, fala sobre ele o tempo inteiro… mas já não sabe mais como escapar. Aguardo o retorno do Almodóvar que conhecemos e admiramos.

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