Spider-Noir (2026) um novo caminho para os super-heróis

Sempre afirmei que o cinema de super-heróis tratava-se de um subgênero. Apesar de uma dominância na década passada, levando muitos a afirmá-lo como algo maior, em geral ele cai nas convenções de ação/aventura e fantasia/ficção, mas sua beleza jaz na capacidade expansiva. Dando exemplos nos primórdios do MCU, “Thor” de Kenneth Branagh é um melodrama shakespeariano, enquanto “O Primeiro Vingador” de Joe Johnston trata-se de uma aventura pulp antiquada à la Spielberg. “Spider-Noir” entende maravilhosamente este conceito, usufruindo dos maiores e melhores elementos do film noir, estudo mandatório aos alunos do audiovisual, a série contém uma vibe pura em sua mescla de subgêneros.

Informo-lhe, em primeiro lugar, que assisti à versão Autêntico Preto e Branco, beirando ao impossível não recomendá-la dessa forma. Houveram muitos cortes alternativos de produções adotando esse gimmick, como “Mad Max: Estrada da Fúria” e “Logan”, contudo era perceptível como os filmes não foram feitos para esse esquema de cores. Até o dia 26 de maio de 2026, diria que o melhor uso de P&B numa adaptação moderna de quadrinhos estava no Episódio 4 da quinta temporada de “Lúcifer”, pois igualmente a esta produção, foi planejado como uma homenagem aos clássicos de detetive dos anos 1930-40, idealizado a ser monocromático, em ênfase pelos desenho de luz, figurino e direção de arte. Deste dia em diante, “Spider-Noir” superou com facilidade, ao ser capaz de deixar-me enamorado da sua atmosfera, uma que nos trailers, senti ser perdida pelas cores vivas da outra versão. Além de que… em “Homem-Aranha no Aranhaverso” o personagem literalmente vem de um mundo sem cores.

Àqueles com algum receio de dar uma chance ao projeto, devo dizer que a mera presença de Nicolas Cage no papel de Ben Reilly/Spider é um chamariz mais que suficiente. Em suas características fisicalidades, freak-outs, faces e gestos referentes ao Expressionismo Alemão (e dois ao mestre David Lynch que só eu reparei), o lendário ator está completamente solto e 100% autêntico a seu estilo de performance. Entretanto ainda há uma profundidade enraizada nesta loucura, com Reilly sendo o tradicional detetive noir: cansado, desiludido, receoso, desesperado por novo significado. Na narrativa, Reilly está aposentado como vigilante por cinco anos, desde a morte de sua amada Ruby J. Williams, quem lhe ensinou que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Ele é forçado a vestir o manto outra vez quando seus casos interligam-se com novos meta-humanos surgindo sob o comando do Cabelo de Prata (Brendan Gleeson), o chefão do crime de Nova York e seu arqui-rival. Fica avisado que não é logo no primeiro episódio que Reilly faz seu retorno heróico, sendo algo gradual no decorrer da temporada, mas nunca apagando sequências de ação ou arrastando desenvolvimento da trama, temos tradicionais, quase episódicos mistérios com o protagonista junto de seus aliados, Robbie Robertson (Lamorne Morris) e Janet Ruiz (Karen Rodriguez), culminando no melhor capítulo da leva, o Episódio 3 “Falsidade”, onde vislumbramos o ápice dos dotes investigativos do herói numa teia bem amarrada digna de suas origens, em especial durante a conclusão.

Quanto ao outro grande elemento aqui contido, como já mencionado acima, a tonalidade em P&B. Um trabalho transcendental hipnótico que tornou-se raridade em suas proezas. Digo ser perceptível como algo essencial à narrativa em vez de uma artimanha de venda devido a como os elementos cênicos se entrelaçam ao monocromo. O desenho de luz é a maior dica, há muitas iluminações duras e fortes espalhadas por todo o cenário e atrás das câmeras, pois é preciso descolar os fundos das silhuetas, enfatizar os rostos e olhos dos atores, algo menos necessário quando colorido, e raro no esquema de produção atual; mas também existem os detalhes nos figurinos e direção de arte reforçando este conceito, uma singela observação ressalta as roupas claras em cenários escuros, e vice-versa, e novamente, hoje em dia você não verá isso espalhado por aí, perdi as contas de quantos personagens vestindo preto, num fundo preto, com iluminação mínima já contemplei, num suposto mundo colorido. Cinema literalmente significa “movimento”, em “Spider-Noir” há uma clareza em saltá-los da tela, como impactantes, únicos, das maluquices “Cageanas” até a mulher mais linda que você verá em sua vida acendendo um cigarro, e exalando sua fumaça. Outro elemento digno de destaque na identidade visual está em diversos quadros inventivos dignos das raízes dos quadrinhos, com planos em split diopter, wipe cuts com split screens, até momentos em que a tela se quebra igual um espelho estilhaçado.

Como nas melhores séries, temos um sólido elenco coadjuvante que torna as subtramas curiosas e engajantes. Destaco de novo Robbie Robertson, o aliado mais antigo de Reilly, servindo como voz da razão nos momentos mais difíceis, e devido a história se passar nos anos 30 dos EUA, segregação racial passa como um elemento presente e dramatizado (sob as lentes do P&B sendo ainda mais forte), vislumbramos alguns breves momentos nestas vizinhanças, onde conhecemos esta versão de Lonnie Lincoln/Lápide (Abraham Popoola), formando uma relação empática com Robbie. Temos também a fiel secretária de Reilly, Janet, sendo em doses iguais, carinhosa e atrevida. Ela pode tanto apoiar o protagonista, quanto expor suas besteiras sem papas na língua, e contém algumas pontuais cenas com Frankie (Cary Christopher), um carismático menino de rua que ajuda o trio em algumas investigações. Finalmente, o ás na manga da série, a Cat Hardy interpretada por Li Jun Li, inspirada na Gata Negra. Uma femme fatale que carrega o peso de suas diversas inspirações clássicas em Lauren Bacall, Rita Hayworth, e Anna May Wong, além de ser a primeira adaptação da icônica personagem com destaque na trama. Desde sua psicodélica cena introdutória ao som de “Dream a Little Dream of Me”, Li entrega uma Cat sedutora, apaixonada, estonteantemente linda e carregada de agência em seu anseio por vingança e emancipação. Por mais distante do protótipo de Felicia Hardy que ela seja, esta é uma versão que será difícil de superar no futuro. Cada momento diante dela encanta e magnetiza a experiência, igual aos astros da Era de Ouro de Hollywood.

O antagonismo na série passa longe de um ponto fraco, somente digno de menos destaque. Brendan Gleeson faz de tudo para deixar seu Cabelo de Prata mais tridimensional, que sem seu charme e talento seria, majoritariamente, apenas outro mafioso genérico. Breves momentos de ego ferido e fragilidade emocional contribuem para tornar seu drama mais interessante. Contemos também Flint Marko/Homem-Areia, interpretado por Jack Huston, saído direto de um noir clássico, de verdade, como o guarda-costas leal do chefão numa encruzilhada amorosa com Cat, mantendo a moralidade dúbia do personagem original e honrando o arquétipo do subgênero titular. Por último, o irritante porém memorável Dirk Leyden/Megawatt (Andrew Lewis Caldwell), um vilão obscuro dos quadrinhos que duvido sequer ter ouvido falar antes, carregado com uma natureza imprevisível e violenta.

Talvez o último tópico a se falar esteja em algo que parece pouco mencionado em relação a narrativas seriadas. Existe uma consistência qualitativa considerável por episódio. Não há um que despenque gradativamente em méritos criativos, algo ordinário nas séries do subgênero super-heróico nos últimos tempos. Mencionado acima foi o ápice, contido no terceiro capítulo, e o ponto baixo refiro-me ao Episódio 6 “Pesadelo na Maca”, por sentir seu gatilho transicional na trama um tanto brusco, com uma cena ou outra estabelecendo melhor as escolhas que guiaram a este ponto sendo bem-vindas, além de sua importância ao quadro geral da narrativa estar presente só no último minuto, pois até ele chegar a sensação era de que tudo foi uma mera barriga na jornada. Entretanto… é neste onde você verá o monstro Nicolas Cage saindo de sua epônima jaula com mais frequência.

“Spider-Noir” é um excelente e escasso exemplo do lado bom da introdução do multiverso nas adaptações dos quadrinhos em cinema e televisão. Sem isso, uma ideia como essa jamais seria admissível, rentável, sequer considerada por um grande estúdio. Porém, pelo conceito estar inserido de maneira profunda na cultura popular, uma história como esta pode brilhar livre de deveres a canon, expectativas e referências. Uma falta de responsabilidade que trouxe os maiores poderes. Aqui, torcendo e esperançoso, com o estouro que film noir pode ter nos próximos meses, e as vastas possibilidades da exploração dos ímpares e infinitos cantos do mundo dos quadrinhos que o sucesso da série pode inspirar.

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