Depois de mais de uma década longe dos cinemas, eu confesso que não sabia exatamente o que esperar de Todo Mundo em Pânico, mas estava muito empolgado. A franquia que ajudou a definir a comédia dos anos 2000 terminou sua trajetória de forma melancólica com um quinto filme que parecia não entender o que fazia a série funcionar, sem os irmãos Wayans e sem personagens icônicas como Cindy e Brenda. Por isso, ver a saga retornar agora, novamente sob o comando dos Wayans e com Anna Faris e Regina Hall de volta, parecia menos uma continuação e mais uma tentativa de reconciliação com o próprio passado. E, na maior parte do tempo, funciona.

O novo Todo Mundo em Pânico entende que o mundo mudou completamente desde sua última aparição. A cultura pop está mais acelerada do que nunca, as redes sociais transformam qualquer assunto em fenômeno da noite para o dia e os filmes de terror vivem uma nova fase. A resposta do longa para isso é simples: atirar para todos os lados. Sem exceções.
A prometida comédia sem limites realmente está de volta. O filme não demonstra medo de fazer piada com nada nem ninguém, seja celebridade, franquia cinematográfica, política, tendências da internet, sexualidade ou fenômenos culturais recentes. É uma postura que remete diretamente aos primeiros capítulos da série e que, por si só, já diferencia este retorno dos caminhos mais seguros que muitas comédias contemporâneas preferem seguir. Mas a ousadia não é sinônimo automático de graça.
Como toda comédia, o humor continua sendo algo profundamente subjetivo, e o filme sofre justamente por apostar tanto na quantidade. Algumas piadas acertam em cheio, enquanto outras simplesmente passam reto. Existem momentos em que o roteiro parece acreditar que a simples referência já é suficiente para gerar risadas, e nem sempre isso acontece. Certas participações e menções surgem tão abruptamente que parecem ter sido inseridas apenas porque estavam disponíveis no momento da produção, são como esquetes do Porta dos Fundos.

Ao mesmo tempo, quando encontra o alvo certo, o filme lembra exatamente por que essa franquia se tornou tão popular. Algumas das paródias são genuinamente inspiradas. As brincadeiras envolvendo o universo de Guerreiras do K-pop, por exemplo, estão entre os momentos mais criativos do longa, justamente porque não se limitam a citar uma referência: elas encontram algo engraçado dentro dela. Já outras, como algumas aparições-relâmpago de celebridades e influenciadores, soam mais como uma lista de tendências do que como material para uma piada de verdade.
Vale também destacar como saber trabalhar bem o deboche com a grande quantidade de remakes, reboots e sequências presentes no cinema atual Hollywoodiano.
O terror contemporâneo também recebe atenção especial. O filme se diverte revisitando tanto os fenômenos recentes quanto a própria decadência do gênero slasher, usando Pânico 5 e Pânico 6 como base narrativa para a grande piada que é o filme. É justamente nesses momentos que a produção parece mais confortável, encontrando um equilíbrio entre homenagem e deboche que sempre foi a essência da franquia.
Impossível citar todos os alvos de piada, mas tem: Terrifier, John Wick, Corra, Corrente do Mal, Premonição, Sorria, A Substância, A Hora do Mal, Longlegs, Wandinha, M3gan, Pecadores, Ma, Halloween e muito mais.

Anna Faris e Regina Hall continuam sendo a alma da série. Existe uma naturalidade na dinâmica entre as duas que o tempo não conseguiu desgastar. Mesmo quando alguma piada não funciona, elas conseguem arrancar sorrisos apenas pela forma como interpretam situações completamente absurdas. O retorno das atrizes reforça uma percepção curiosa: Todo Mundo em Pânico nunca foi apenas sobre referências; era também sobre personagens carismáticos navegando por elas.
Visualmente, o filme não tenta reinventar nada, mas também entende que seu foco nunca esteve na sofisticação técnica. O objetivo é servir de palco para o caos, e isso basta. O ritmo acelerado garante que mesmo as piadas fracassadas sejam rapidamente substituídas por outra tentativa, uma estratégia que mantém a energia constante durante toda a projeção.
No fim, Todo Mundo em Pânico retorna às telonas com algo que parecia improvável: relevância. Nem todas as piadas funcionam, nem todas as referências são bem aproveitadas e certamente haverá momentos que arrancarão mais constrangimento do que gargalhadas. Ainda assim, existe uma autenticidade nessa volta que faltava há muito tempo para o cinema. Os irmãos Wayans entendem que a série nunca precisou ser refinada ou inteligente o tempo todo; ela só precisava ser destemida e engraçada.
E, em uma época em que tantas comédias parecem receosas de arriscar, talvez seja justamente essa falta de medo que torne o retorno tão divertido, é humor pelo prazer da piada, sem buscar uma maior sofisticação, e sinceramente, precisamos nos divertir mais.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.