Dia D marca o retorno de Steven Spielberg à ficção científica, um terreno que ele ajudou a redefinir ao longo da carreira. E talvez o que mais me chamou atenção seja justamente o momento em que esse reencontro acontece. Spielberg vive uma fase admirável. West Side Story era uma demonstração de vigor e sensibilidade que parecia impossível para alguém revisitando um clássico tão amado, enquanto The Fabelmans soava como uma obra profundamente íntima, um cineasta olhando para a própria vida sem perder a capacidade de encantar. Era difícil não chegar aqui com expectativas altas.

O filme conta a história de Daniel Kellner, um homem que está fugindo do governo com informações importantes, que tem seu caminho cruzado com Margaret Fairchild, uma meteorologista que começa a ter comportamentos e habilidades estranhas após um acontecimento. No meio disso tudo, muita conspiração alienígena.
Mas, no fundo, o que Dia D realmente pergunta é: o que faríamos se descobríssemos que não estamos sozinhos?
O grande conflito da humanidade perante esse cenário, seria muito possivelmente, existencial. Afinal, nossa percepção de importância perante o vasto universo mudaria completamente. As religiões entrariam em crise? Os governos perderiam a credibilidade? As pessoas encontrariam esperança ou desespero? Spielberg levanta o debate para esses questionamentos (sem nunca focar em buscar respostas), e encontra imagens e diálogos poderosos o suficientes para explorar esse pensamento que pode ser desconfortável para muita gente.
Existe uma conversa específica que resume muito bem isso. Uma freira comenta que em gênesis é mencionado os seres humanos como a criação suprema de Deus… na Terra. É uma fala simples, mas brilhante. Em vez de enxergar a descoberta como uma ameaça à fé, ela amplia a própria ideia de divindade. Talvez o desconhecido não destrua nossas crenças; talvez apenas nos obrigue a admitir que elas nunca foram tão completas quanto imaginávamos. Talvez.

E ainda sobre o filme, nem todos os elementos de ficção científica nele presentes funcionam com a mesma força. O longa tenta abraçar conspirações governamentais, controle mental e múltiplos núcleos dramáticos ao mesmo tempo, e alguns desses caminhos parecem menos inspirados. O núcleo protagonizado por Colin Firth, por exemplo, nunca encontra o mesmo peso ou o mesmo fascínio do restante da narrativa, funcionando mais como um núcleo de “vilões” genéricos do que qualquer outra coisa Digo “vilões”, pois consigo enxergar os motivos para fazerem o que fazem, mesmo não concordando com os meios..
Por outro lado, o elenco eleva muito do material. Colman Domingo e Josh O’Connor entregam atuações sólidas, carregando humanidade mesmo diante do absurdo, dois atores que se encontram no melhor momento de suas carreiras. Mas é Emily Blunt quem domina o filme. Há uma vulnerabilidade e uma força impressionantes em sua interpretação, e ela consegue traduzir em olhares e pequenos gestos o terror, a confusão e a necessidade desesperada de encontrar algum sentido em meio ao caos,a cena da casa é exemplo perfeito disso. É uma atuação que deve vir a ser lembrada pelo restante do ano, e muito provavelmente, passa a ser minha favorita de sua (ótima) carreira, curioso isso pois ano passado critiquei muito sua personagem em The Smashing Machine, fico feliz que tenha se redimido tão rapidamente (e ainda está no bom O Diabo Veste Prada 2 deste ano).

Dia D talvez não esteja entre os trabalhos mais redondos de Spielberg. Algumas ideias parecem maiores do que a capacidade do filme de desenvolvê-las plenamente. Ainda assim, quando acerta, acerta em cheio. Porque transforma tudo que envolva material extraterrestre e teorias conspiratórias em algo muito mais próximo de nós: o medo de perceber que talvez não sejamos o centro da história.
E talvez essa seja a reflexão que mais ficou comigo. Passamos a vida inteira agindo como se o mundo fosse feito à nossa imagem, como se fôssemos a medida de todas as coisas. Mas e se não formos? E se existir algo maior, algo que desafie nossa compreensão e nossa necessidade de controle? Será que isso nos destruiria… ou finalmente nos ensinaria algum tipo de humildade?
Spielberg parece acreditar que o mais assustador não é descobrir que existe vida lá fora. É descobrir quem somos/ seremos quando deixamos de acreditar que somos tudo o que existe.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.