Millenium Mambo (2001) & o cinema de fluxo

O Cinema de Fluxo é um dos cantos da sétima arte com o qual tenho escassa experiência, mas apesar disso afirmo que os poucos lampejos que tive de sua filosofia passaram a guiar como sinto a arte por vários desses últimos anos, talvez na verdade sempre tenha sido a lente pela qual vislumbrava esse mundo. “Millennium Mambo” é amplamente considerado o maior e definitivo longa dentro deste estilo, servindo como porta de introdução a diversos dos estudantes de Cinema… exceto pra mim, eu não vi esse filme pra aula. Não deu tempo! Obrigado a Caio Caldeira por entregar o texto sobre para nossa professora lá nos confins de 2020 e colocar meu nome.

Àqueles inseridos neste meio a muito tempo, em algum ponto você leu a crítica “style over substance” vinda de alguém. Se você não tem esse azar, comumente haverá algum desinformado insistindo que um projeto artístico é “estilo sobre substância”, imagens bonitas e forma inovadora mas sem um recheio temático profundo, contudo a falha verdadeira deste argumento surge da ignorância de não tratar estilo como substância. Cada tema e ideia já foram pensados e realizados, o frescor artístico vêm de como isso é apresentado através do meio. No caso do Cinema, a mise-en-scène. Como cada enquadramento, movimento de câmera, desenho de luz, e corte trabalham em favor daquela ideia, por mais singela, batida, ou rasa que possa ser. A forma altera como reagimos ao que vemos, ouvimos e sentimos.

Pois a história de “Millennium Mambo” é manjada, fraca, beirando ao desinteressante. Curioso pois tanto foi falado deste que fica fácil imaginar algo colossal e épico, mas trata-se de uma jovem mulher no início do novo milênio, perdida na vida, em idas e vindas de um relacionamento ruim, dependente de conexões, incapaz de fazê-las durar ou importar. Porém, devido a como eu reagi à forma, uma das mais hipnóticas já criadas, trazendo transe instantâneo em seu memorável (e clássico) plano de abertura, e mais importante, pelas minhas experiências de vida, o filme que eu descrevi pode ser completamente diferente do qual você vai assistir.

O que foi mencionado acima, a respeito da lente pela qual vislumbrava esse mundo, é simples: deixe suas emoções fluírem sobre o cosmos cinematográfico. Atenção absoluta é superestimada e desnecessária. Durante uma cena de luta em “John Wick 3: Parabellum”, se você está pensando em o que comprar no mercado ou na louça que terá de lavar, isso não é tédio nem demérito do filme, mas sim sua resposta emocional ao quão diferente da sua vida é o que você presencia em tela. A sua rotina é essa, a de John Wick é matança desenfreada, e ele é tão desiludido com esse dia a dia quanto você é com o seu. No Cinema de Fluxo, essa introspecção é muito encorajada. O que a produção te faz pensar, sentir, relembrar, importa substancialmente mais em comparação a um possível tema intencional do autor ou qualquer fala do roteiro.

A reação que “Millennium Mambo” proporcionou, exemplificada na descrição acima, parte de como me entendo e ao mundo, assim como uma pessoa muito específica que o filme me lembrou. Ela não merece a atenção que este texto daria, mas quem sabe… sabe, e jamais confirmarei. Além de que entraria em aspectos muito particulares que a internet não precisa ter conhecimento. Mas quem enxergar aqui uma trajetória de resiliência do espírito feminino, um isolamento imposto pelo mundo, uma busca por amor-próprio, entre muitos outros, estará correto. Há um vácuo específico a ser preenchido pelo público. Não é preguiça de artista dando-lhe lição de casa, mas sim ligar os pontos, resultando em imagens ora únicas, mas sempre pessoais.

Portanto trata-se de um estilo convidativo, para você espelhar na protagonista Vicky suas emoções, impressões de alguém, com base no que viveu e te marcou. De certo ponto de vista, são filmes como este que expandem seu autoconhecimento, trazendo à tona pensamentos longínquos, lembranças de pessoas que uma vez importaram, de ter caminhado como ela neste estado de perdição. Realidade e ficção se mesclam na mente, transcendendo a mídia. Por essas e outras que em sua jornada encontrará “Millennium Mambo” dentre os favoritos de diversos amantes do Cinema, e por tratar-se de uma joia moldante de acordo com sua mentalidade, um dia pode acabar entre os seus.

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