Muito Prazer (2026) Crítica 2- Voyeurismo e Cinema

O texto a seguir contém alguns leves spoilers

Muito Prazer, novo filme de Jorge Furtado, parte de uma premissa que parece simples até você perceber o tanto de coisa que o diretor consegue tirar dela. Rubem (Daniel de Oliveira) herda um motel caindo aos pedaços e, ao chegar lá, descobre que Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária, ainda vive no lugar. Os dois decidem reabrir o Motel Pérola e, com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), encontram uma maneira completamente absurda de fazer dinheiro: vender vídeos dos clientes gravados por câmeras escondidas. Quando o esquema é descoberto, precisam provar que aquelas imagens são falsas, produzindo novas gravações que parecem reais. 

É uma premissa tão absurda que só poderia funcionar se o filme entendesse exatamente o quanto ela é absurda, e Jorge Furtado entende. Muito Prazer é uma comédia que parece estar sempre prestes a virar uma coisa muito maior do que realmente é, mas felizmente nunca abandona a piada. O humor vem principalmente da maneira como os personagens tratam situações completamente surreais com uma naturalidade impressionante. É aquele tipo de filme em que uma ideia obviamente criminosa vai sendo discutida como se fosse simplesmente mais uma alternativa para pagar as contas do mês.

Gosto muito de como o filme consegue falar bastante sobre sexo sem depender do sexo. Existe um motel, pornografia, câmeras escondidas, gente transando e personagens tentando fabricar situações sexuais falsas, mas o filme está muito mais interessado naquilo que existe ao redor dessas coisas. Desejo, curiosidade, solidão, intimidade e principalmente a vontade de observar o outro. É menos um filme sobre sexo e mais sobre o nosso interesse quase maluco pela vida sexual dos outros.

E aí entra uma das melhores ideias do filme: a relação entre voyeurismo e cinema. Afinal, o que estamos fazendo quando assistimos a alguém na tela? Estamos olhando para uma intimidade que não é nossa, observando pessoas que sabemos que estão sendo observadas, mesmo quando a situação é completamente fictícia. O Motel Pérola transforma isso em piada, mas existe uma provocação muito boa por trás. As câmeras escondidas dos personagens não estão tão distantes da câmera do próprio Furtado, e o espectador também participa dessa brincadeira ao aceitar ficar olhando.

É justamente por isso que gosto tanto da maneira como Muito Prazer lida com a pornografia e o prazer. Em vez de simplesmente fazer piada com sexo, o filme percebe que existe toda uma indústria construída em cima do ato de olhar, e hoje isso fica ainda mais interessante porque a internet transformou praticamente qualquer intimidade em conteúdo. O filme consegue brincar com isso sem parecer que está tentando dar uma aula sobre tecnologia, e ainda encontra espaço para fazer críticas muito engraçadas à inteligência artificial e à dificuldade cada vez maior de distinguir o que aconteceu de verdade daquilo que simplesmente parece verdadeiro.

A ideia de precisar produzir vídeos falsos para provar que vídeos reais são falsos é provavelmente a coisa mais Jorge Furtado possível do filme. A história vai ficando cada vez mais ridícula justamente porque o mundo em que os personagens vivem também ficou ridículo. Se qualquer imagem pode ser fabricada, então a própria imagem deixa de ser uma prova. E o filme transforma uma discussão bastante atual sobre IA, verdade e manipulação em uma situação de comédia quase idiota. E digo isso como elogio.

Também gosto muito de como a relação entre Rubem e Grace funciona. Existe uma estrutura de comédia romântica bastante tradicional, mas Furtado parece mais interessado em brincar com as expectativas desse tipo de história. O fato de o filme estar ambientado em um motel não significa que os dois precisam imediatamente virar um casal obcecado por sexo. Pelo contrário, a relação funciona justamente porque existe uma certa distância entre eles e porque o desejo não precisa ser transformado imediatamente em ação. Grace é uma pessoa muito interessada em sexo, mas aparentemente assexuada, o que a torna muito interessante também logo de cara.

E Luisa Arraes está PERFEITA. Grace é provavelmente a personagem que mais facilmente poderia virar apenas uma coleção de excentricidades, mas Arraes encontra um jeito de fazer com que ela pareça completamente natural dentro daquele universo. Ela tem um ritmo cômico muito bom e consegue vender até as situações mais absurdas sem parecer que está esperando a piada acontecer. É o tipo de atuação que faz uma personagem engraçada ficar ainda mais engraçada simplesmente porque a atriz parece acreditar em tudo aquilo.

Daniel de Oliveira também funciona muito bem como o sujeito relativamente normal jogado no meio de uma situação que fica cada vez mais absurda, enquanto Samantha Jones entra para completar esse trio com uma energia que combina perfeitamente com a proposta. A dinâmica entre os três é uma das coisas que fazem o filme funcionar, porque ninguém parece estar tentando disputar a atenção do outro. Cada personagem tem seu próprio jeito de lidar com aquela maluquice.

E tem algo muito bom na maneira como Furtado constrói esse motel como um pequeno universo. É um lugar decadente, cheio de dívidas e problemas, mas que acaba virando quase um estúdio de cinema. Eles começam observando os outros, depois passam a produzir imagens e finalmente precisam dirigir uma espécie de ficção dentro da própria ficção para tentar escapar das consequências. É uma escalada de absurdo que, ao mesmo tempo, conversa diretamente com a própria natureza do cinema.

Vale destaque também para o título Muito Prazer. Ele funciona como uma expressão banal, quase uma apresentação, mas ganha várias camadas dentro de uma história sobre prazer, sexo, desejo, consumo e observação. Existe o prazer dos personagens, o prazer de quem assiste, o prazer de transformar aquilo em dinheiro e até o prazer de fabricar uma imagem que faça alguém acreditar em alguma coisa. Todo mundo está olhando para alguma coisa, e quase todo mundo quer ser olhado também.

No fim, Muito Prazer é uma comédia muito mais inteligente do que sua premissa absurda faz parecer. Jorge Furtado consegue falar de sexo, pornografia, inteligência artificial, cinema, voyeurismo e relacionamentos sem transformar o filme em uma palestra. Ele simplesmente faz piada com tudo isso e deixa as ideias aparecerem por baixo. E, principalmente, faz aquilo que uma boa comédia deveria fazer: me fez rir bastante (mesmo que demore um pouquinho para engatar) enquanto ainda tinha alguma coisa para pensar depois.

É um filme safado, engraçado e surpreendentemente interessado na maneira como a gente olha para os outros. E, considerando que estamos todos sentados numa sala escura olhando para a intimidade de pessoas que nem sabem que estamos ali, talvez nós sejamos os maiores voyeurs de todos.

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