Em Nosso Segredo, acompanhamos uma família que precisa lidar com a morte de um de seus membros enquanto coisas começam a acontecer dentro de casa. Aos poucos, o filme de Grace Passô mistura esse cotidiano familiar com elementos levemente sobrenaturais e vai construindo um mistério em torno daquela ausência. É uma história que, pelo menos para mim, começa de uma forma interessante justamente porque não entrega tudo de uma vez e deixa espaço para entendermos aos poucos o que está acontecendo.

Grace Passô também consegue trabalhar bem a relação entre os personagens. Existe uma sensação de que todos naquela família estão tentando seguir em frente, mas cada um lida com a situação de uma maneira diferente. O filme não precisa ficar explicando constantemente os sentimentos de cada personagem e consegue criar essa dinâmica principalmente através das conversas e da convivência entre eles.
A parte sobrenatural também funciona durante boa parte do filme. Gosto de como Nosso Segredo não abandona completamente a realidade para entrar nesse universo, mas faz as duas coisas existirem juntas. A casa acaba sendo o principal espaço para isso e a direção consegue criar uma atmosfera estranha sem transformar o filme em um terror convencional. Existe sempre a sensação de que tem alguma coisa acontecendo ali, mesmo quando os personagens estão apenas vivendo suas vidas.
E é por isso que fiquei um pouco frustrado com o final, durante boa parte da duração, o filme vai criando expectativas sobre onde aquela história pode chegar e sobre o significado de tudo aquilo que estamos vendo. Não precisava necessariamente explicar tudo, e nem acho que esse seria o melhor caminho, mas senti que a conclusão tenta resolver ou apresentar suas ideias de uma maneira que não me convenceu tanto. Para mim, o filme perde um pouco da força justamente quando precisa fechar aquilo que vinha construindo.

É estranho porque não acho que Nosso Segredo seja um filme ruim, consigo entender perfeitamente o que fez com que ele chamasse atenção e até a sua vitória em Gramado. É um filme com personalidade, uma direção bastante segura e uma proposta que não parece estar tentando seguir um caminho fácil. Mesmo quando não concordo completamente com suas escolhas, existe algo interessante na maneira como Grace Passô conduz a história.
No fim, fiquei com a sensação de ter apreciado mais do caminho do que da chegada. Nosso Segredo tem boas ideias, constrói bem seus personagens (especialmente o caçula Tutu) e consegue criar uma atmosfera própria, mas o final acabou não funcionando para mim na mesma medida que o restante. Talvez, com uma conclusão que conversasse melhor com aquilo que o filme vinha desenvolvendo, eu tivesse saído muito mais satisfeito, não só isso, mas sinto que o filme acabe várias vezes e ele se prolonga demais. Ainda assim, entendo o reconhecimento que recebeu e acho interessante acompanhar uma estreia que claramente tem uma visão própria, mesmo que, dessa vez, ela não tenha funcionado completamente para mim.
Curiosamente, no mesmo dia vi A Natureza das Coisas Invisíveis que também fala sobre luto.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.