A Outra Mamãe é um filme sobre uma entidade demoníaca que consegue transformar pessoas em gosma, desintegrar corpos, assumir a aparência de outras pessoas e ter todos os poderes do mundo, mas que também precisa pedir autorização para entrar no coração de uma menina de sete anos. E este é o principal conflito de um filme que parece ter sido escrito por alguém que teve uma ideia excelente para um trailer e depois precisou improvisar desesperadamente para preencher os 85 minutos restantes. A criatura quer se tornar humana, Bela quer uma mãe mais presente e eu queria entender o que estava acontecendo em tela.

Bela vive com Ursula e Russ, em uma família cheia de problemas que a menina ainda não consegue compreender completamente. É nesse cenário que ela começa a receber visitas de uma criatura que assume a aparência de sua mãe e oferece todo o carinho que sente falta. A Outra Mamãe quer possuir seu corpo, mas precisa que a menina permita sua entrada, então promete amor incondicional e uma vida sem sofrimento. A premissa é muito boa, porque torna a carência de Bela em uma vulnerabilidade que o monstro pode explorar. O problema é que o filme parece achar que essa ideia, sozinha, não é suficiente e resolve acrescentar absolutamente tudo o que passa pela cabeça de alguém que gosta de muitos filmes de terror diferentes.
A cena da criatura debaixo da mesa da cozinha –divulgada nos trailers– com aquele sorriso perturbador e o corpo completamente contorcido, é a única que realmente me interessa. Existe algo muito errado naquela imagem, mas é justamente isso que a torna tão interessante. A criatura não precisa destruir uma cidade, arrancar a pele de ninguém ou se transformar em um Godzilla (chegaremos lá). Basta estar ali, com o rosto de uma pessoa conhecida e um comportamento que parece humano o suficiente para causar desconforto. É uma pena que o restante do filme pareça tão pouco interessado em entender por que essa cena funciona.
Conforme a entidade começa a interferir na vida da família, fica claro que ela não é apenas uma presença assustadora no quarto de Bela. Ela aparece diante de adultos bem cedo, assume outras aparências e representa uma ameaça física para todos ao redor. Quando a menina pede que a criatura faça Frank, amante de Ursula e amigo de Russ, desaparecer, ela atende ao pedido e mata o homem brutalmente. É um momento que poderia explorar melhor a relação entre Bela e a entidade, mostrando como a menina lida com a descoberta de que aquela figura que lhe oferece carinho também é capaz de cometer atrocidades. Mas o filme está ocupado demais aumentando a escala da ameaça. Frank morre, a família entra em pânico e seguimos para a próxima atração do parque de horrores, enquanto isso eles agem nos intervalos de ataque da criatura como se nada tivesse acontecido.

É nessa altura que Outra Mamãe apresenta seu maior problema: afinal, o que essa criatura pode fazer? Em determinado momento, ela parece uma força sobrenatural praticamente invencível. Em outro, não consegue sequer ferir a família sem qualquer tipo de defesa. E ainda tem toda a regra do coração que deveria ser o principal mecanismo de suspense, mas acaba parecendo uma formalidade burocrática que o demônio precisa cumprir antes de “concluir o serviço”.
E não para por aí. A criatura consegue transformar pessoas em gosma e glitter mágico, mas também passa por momentos em que parece mais interessada em assustar a família do que em resolver qualquer coisa. Quer conquistar a confiança de Bela, mas frequentemente aparece com uma aparência monstruosa que faria qualquer criança pedir emancipação. Em uma das imagens mais absurdas, chega a surgir um braço gigantesco emergindo do oceano. Porque aparentemente não bastava ser uma entidade demoníaca com poderes de possessão, agora também estamos diante de uma ameaça que poderia participar tranquilamente de um filme do Godzilla. O que exatamente isso tem a ver com entrar no coração de Bela? Não sei, e o filme também não. Talvez o coração da menina seja muito maior do que imaginávamos.
A família ainda recorre à avó Ruth e a investigadores paranormais, que tentam entender o que está acontecendo sem oferecer respostas particularmente satisfatórias (e essa cena dos investigadores é de uma vergonha alheia que chega a causar dor física). O mais engraçado é que os adultos conseguem enxergar a Outra Mamãe desde o começo, eliminando aquela dinâmica habitual em que a criança tenta convencer os pais de que existe um monstro no quarto enquanto ninguém acredita nela. Só que o filme não sabe muito bem o que fazer com essa decisão. A entidade aparece diante de várias pessoas, mata gente e faz coisas que desafiam qualquer explicação racional, mas as consequências disso nunca são desenvolvidas. Não estou pedindo um documentário sobre a resposta das autoridades a uma invasão demoníaca, mas um pouco de coerência não faria mal.

No meio dessa bagunça, Ursula “descobre” (não me pergunte o como, pois quem traz essa possibilidade é um ninguém) que precisa “quebrar a inocência” da criança para afastar a criatura, apesar dela já tinha sido quebrada muito antes. Só acaba trazendo um discurso horroroso que parece ter sido escrito por um grande corno que queria muito ser pai, se tem ali uma das piores revelações do cinema de horror recente.
E então temos o confronto final envolvendo a promessa de uma vida sem sofrimento, o que é claramente uma mentira. A ideia desse ser o centro do discurso da Outra Mamãe faz sentido, mas a execução é bastante conveniente. Depois de demonstrar um repertório de poderes tão absurdo que seria capaz de humilhar metade dos vilões do MCU, a entidade acaba derrotada porque Bela compreende uma lição sobre a vida.
Jessica Chastain é uma das poucas coisas que funcionam melhor do que o material que recebeu. A atriz consegue diferenciar Ursula da Outra Mamãe pelas expressões, pelos movimentos e pela maneira como cada uma tenta se aproximar de Bela, o problema é que o filme sequer cria mistério com quem é quem, então até a atuação dela perde força.

O mais frustrante é perceber que Outra Mamãe tinha material para um terror psicológico muito mais interessante. A ideia de uma entidade que se aproveita das inseguranças de uma criança para convencê-la a abandonar a própria identidade poderia render uma história bem mais legal. A necessidade de consentimento para a possessão também poderia criar uma dinâmica tensa, afinal, tornaria sempre a interação da Bela e da criatura em um jogo de manipulação. Em vez disso, o filme prefere acrescentar poderes, incontáveis sustos muito ruins e imagens levemente grotescas até que a ameaça perca qualquer identidade. Quanto mais a Outra Mamãe consegue fazer, menos interessante ela se torna, porque já não existe uma lógica que nos permita compreender suas limitações.
No fim, a cena da mesa da cozinha continua sendo a única que realmente me interessa. É uma imagem que consegue ser assustadora, engraçada e desconfortável sem precisar explicar demais o que estamos vendo. O restante do filme parece uma tentativa de transformar aquela imagem em uma experiência cada vez maior e mais barulhenta. Outra Mamãe não precisava de um braço do tamanho de um prédio, de investigadores paranormais incompetentes ou de uma coleção de poderes que mudam conforme a necessidade da cena. Precisava apenas entender melhor a própria criatura e confiar na relação entre ela e Bela. Mas, aparentemente, pedir que o roteiro estabeleça regras para seu monstro é uma exigência mais difícil de atender do que convencer uma criança a entregar o coração a um demônio.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.