Eu não diria que estou surpreso com as reações iniciais da internet quanto a Digger. Desde os trailers, o novo filme do criativo diretor Alejandro González Iñárritu (responsável pelo maravilhoso Birdman) me parecia ser daqueles que dividem bastante o público. É barulhento, estranho, exagerado e muito consciente das próprias escolhas, além de tomar decisões narrativas que podem afastar quem espera uma sátira mais direta. O que me chama atenção é o quanto algumas críticas parecem ter “descartado” o filme justamente por aquilo que mais me interessou nele, e nisso também reside a beleza do cinema. Eu amei Digger, e quanto mais penso nele, mais gosto da maneira como sua narrativa vai mudando de forma enquanto ainda estamos tentando entender exatamente que tipo de filme estamos vendo.

O ponto de partida parece relativamente simples. Digger Rockwell é um bilionário do petróleo, um homem cuja empresa está diretamente ligada a uma catástrofe ambiental de proporções gigantescas. Diante disso, ele precisa encontrar uma maneira de lidar com as consequências do desastre (incluindo com manipulação de narrativa para a mídia) e, principalmente, com a própria imagem. Só que Digger não é o tipo de protagonista que vai olhar para tudo aquilo e simplesmente reconhecer seus erros. Ele é egoísta, arrogante, manipulador e profundamente convencido de que dinheiro, inteligência e influência são suficientes para resolver qualquer problema. Digger é moralmente terrível e fascinante por tal, pois o filme nunca sente a necessidade de suavizar isso para que gostemos dele.
Acho que isso é uma das coisas que mais me conquistaram no personagem. Existe uma tendência muito forte de que protagonistas precisam oferecer algum resquício de “humanidade” para o público, principalmente quando estamos falando de um filme tão centrado em uma única pessoa. Digger não está muito preocupado com isso, ele pode ser engraçado com um humor bem questionável em uma cena, completamente desprezível na seguinte e, alguns minutos depois, revelar alguma coisa que faça você entender de onde vem determinada atitude sem perdoá-la. O filme não precisa tornar Digger uma pessoa boa. Ele só precisa fazer com que seja interessante passar duas horas dentro da cabeça dele, algo que seria muito mais difícil sem Tom Cruise.
Cruise entende perfeitamente o que existe de ridículo naquele homem, mas nunca o transforma em uma simples caricatura. Existe uma diferença importante entre interpretar um personagem exagerado e interpretar alguém que não percebe o quanto é exagerado. O Digger acredita genuinamente que é a pessoa mais importante em qualquer ambiente em que entra, e Cruise trabalha justamente com essa confiança. Ele fala como se estivesse sempre fazendo uma apresentação, ocupa todos os espaços como se fossem dele e reage às situações como alguém que passou a vida inteira acreditando que sempre encontraria uma saída, porque talvez ele seja mesmo esse tipo de pessoa.

É impossível não pensar na própria carreira do Tom enquanto assistimos ao filme. Durante décadas, ele construiu uma imagem muito ligada ao homem que resolve situações impossíveis. O homem que corre, pula, improvisa, enfrenta o perigo e, no final, encontra uma maneira de seguir em frente. Digger é quase uma versão distorcida dessa figura. Ele também acredita que é o homem capaz de resolver tudo, mas sua ferramenta principal não é exatamente competência. É dinheiro, influência e a certeza absoluta de que todos deveriam ouvi-lo. Existe algo muito engraçado em colocar justamente Tom Cruise dentro dessa fantasia e deixar o filme brincar com a imagem que ele próprio carrega.
Por isso também acho que a atuação dele é mais interessante do que simplesmente dizer que Cruise está “exagerado”. Ele está, obviamente. Mas existe um controle muito grande por trás disso. A maquiagem, o corpo, a voz e a maneira como ele se movimenta poderiam facilmente transformar Digger em uma caricatura insuportável, mas Cruise encontra pequenas nuances que o tornam até cativante. Em muitos momentos, ele parece completamente seguro de si– em outros, quando não existem olhares o cercando, existe uma espécie de vazio no rosto que deixa escapar o homem por trás daquela persona. É uma atuação que depende muito da presença de uma estrela que sabe exatamente o peso que tem diante de uma câmera, e quem melhor para isso do que Tom Cruise?
E acho que é justamente aí que Digger começa a ficar mais interessante do que sua premissa deixa imaginar. O filme vai aos poucos deixando de ser apenas uma sátira sobre um bilionário responsável por uma catástrofe e começa a brincar com a própria ideia de narrativa. Existem coisas que parecem estranhas, escolhas que inicialmente soam deslocadas e mudanças de tom que podem dar a impressão de que Iñárritu está perdendo o controle da história. Eu entendo perfeitamente quem se incomodou com isso, principalmente porque o segundo ato realmente diminui um pouco o ritmo e demora mais do que deveria em algumas ideias.

Para mim, porém, existe uma diferença entre um filme que perde o controle e um filme que está deliberadamente fazendo o espectador perder a segurança sobre aquilo que está vendo. E Digger me parece muito mais interessado nesse segundo caso. Não quero explicar demais porque parte da graça está justamente em descobrir sozinho até onde o filme está disposto a ir, mas a maneira como a história se transforma acaba fazendo com que várias coisas vistas anteriormente ganhem outro peso. É uma daquelas narrativas que me fazem querer voltar para rever o filme, porque algumas escolhas começam a parecer diferentes quando sabemos onde aquilo vai chegar.
Também existe um comentário muito forte sobre a maneira como transformamos tragédias em histórias, que inclusive me remeteu muito a Não Olhe pra Cima, de Adam McKay. Quando alguma coisa terrível acontece, rapidamente procuramos personagens, culpados, heróis e explicações. A realidade é confusa, mas uma narrativa precisa organizar tudo, escolher onde começa, quem acompanha e o que merece ser mostrado. Digger parece muito interessado nesse processo, principalmente na forma como uma tragédia pode acabar virando espetáculo. Nós assistimos, comentamos, rimos, procuramos o culpado e tentamos entender qual é a mensagem. E o filme parece estar sempre um passo à frente dessa própria experiência.
É aqui que a presença de Tom Cruise fica ainda mais interessante para o projeto. Quanto mais o filme brinca com a ideia de representação, mais a própria imagem do ator passa a fazer parte da experiência. Existe quase uma ode ao Tom Cruise dentro de Digger, mas não no sentido tradicional de uma homenagem à carreira. É uma homenagem à força que uma estrela de cinema tem de construir uma imagem e fazer com que o público carregue essa imagem consigo. Cruise interpreta Digger, mas a presença de Cruise também interfere na maneira como enxergamos Digger.

Mas o elenco ao redor dele também impede que tudo dependa apenas dessa presença. Riz Ahmed me agrada muito aqui, pois enquanto Digger está sempre tentando dominar uma conversa, Ganesh (seu personagem) parece muito mais preocupado em entender o que está acontecendo de verdade. Ahmed encontra uma energia mais contida e faz com que a relação entre os dois tenha uma dinâmica bastante interessante e divertida. John Goodman também parece completamente à vontade dentro desse universo absurdo, interpretando um presidente dos EUA bem cômico, enquanto Jesse Plemons e Michael Stuhlbarg possuem menos tempo de tela, mas com boas participações.
Sandra Hüller, por outro lado, é um caso mais frustrante. Não porque ela esteja mal, muito pelo contrário, mas porque sua personagem parece ter sido criada para oferecer muito mais do que o roteiro permite. A relação dela com Digger poderia render uma camada muito interessante para o protagonista, principalmente porque não se trata apenas de colocar alguém “moralmente correto” ao lado dele. Existe uma história familiar ali, diferenças de visão de mundo e uma relação que parece carregar muito mais coisa do que o filme consegue desenvolver, é uma pena.
Entrando um pouco na parte técnica, algo que raramente faço, queria fazer alguns destaques. Gosto muito de como a casa de Digger, seus objetos, suas roupas, os ambientes gigantescos e a fotografia de Emmanuel Lubezki parecem construídos para mostrar um homem que passou a vida inteira tentando provar que pode possuir qualquer coisa. Não é simplesmente uma representação de riqueza em tela, existe uma necessidade de ostentar, de ocupar espaço, de fazer com que todos ao redor reconheçam a dimensão daquilo que ele construiu. O mundo de Digger é quase uma extensão do ego dele.

Por isso, acho que os excessos do filme fazem sentido mesmo quando não funcionam perfeitamente. Algumas piadas são longas demais, algumas passagens parecem não fazer muita diferença e o segundo ato perde um pouco da energia caótica que o começo estabelece. Iñárritu claramente está interessado em brincar com várias ideias ao mesmo tempo, e nem todas recebem o mesmo cuidado. Mas eu prefiro um filme que às vezes se excede tentando fazer alguma coisa diferente a um filme que simplesmente executa sua premissa da maneira mais segura possível, coisa que Digger certamente não é.
O filme pode ser cansativo, parecer convencido e sua estrutura certamente não vai funcionar para todo mundo. Mas nada disso apaga o quanto existe de interessante naquilo que Iñárritu está tentando fazer. Eu não terminei o filme pensando que tudo funcionou. Terminei pensando nele, voltando para algumas cenas e tentando entender melhor o que certas escolhas significavam depois de conhecer o filme por inteiro.
Digger não é apenas uma história sobre um homem tentando lidar com uma catástrofe que ajudou a criar. É também um filme sobre como uma catástrofe pode ser transformada em narrativa, sobre a nossa vontade de encontrar personagens no meio do caos e sobre o prazer que existe em assistir a uma tragédia de algum lugar seguro. E fazer tudo isso tendo Tom Cruise no centro torna a experiência ainda mais curiosa, porque poucas estrelas carregam uma imagem tão forte de espetáculo, controle e sobrevivência.
Ver uma estrela como ele, com uma imagem tão consolidada, usando essa própria imagem para construir um personagem tão moralmente questionável, enquanto o filme começa a brincar com o que significa representar uma pessoa e uma tragédia, é uma das coisas mais interessantes que vi aqui. Certamente Digger não vai funcionar para todo mundo, e eu entendo perfeitamente isso. Mas, para mim, existe algo muito especial em um filme que consegue ser tão estranho, tão metalinguístico e tão consciente do próprio espetáculo sem perder completamente o interesse pela história que está contando.
Eu amei Digger. E acho que, mesmo com todos os seus problemas, é difícil sair dele sem pelo menos ter alguma coisa para discutir.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.