Resident Evil (2026) Crítica- Uma boa adaptação do jogo

Eu estava bastante curioso para ver o que Resident Evil seria nas mãos de Zach Cregger. Noites Brutais segue sendo para mim, o melhor filme dele, mas não posso dizer que saí da sessão de sua versão de Resident decepcionado, de forma geral, gostei do resultado. É um bom filme, divertido e com bastante person alidade, mas está longe de ser essa coisa extraordinária que parte da internet veio fazendo parecer que é.

A primeira coisa que me chama atenção é o quanto Cregger se permite fazer uma versão própria de Resident Evil. E acho que isso funciona. Não tenho muito interesse em adaptações que parecem estar o tempo inteiro preocupadas em provar que conhecem o material original como pontuei em texto recente aqui na Toca. Uma adaptação pode mudar bastante coisa, inventar personagens, alterar a estrutura e até encontrar outro caminho para aquela história. O filme não precisa ser uma reprodução dos jogos para fazer sentido como Resident Evil. Especialmente todo o elemento das criaturas monstruosas do vírus, estão bem presentes, mas esse filme incorpora acima de tudo elementos da jogatina para um live-action, ao invés de seus personagens e histórias já conhecidas.

Ao mesmo tempo, não acho que a simples decisão de ser diferente seja suficiente para transformar uma adaptação em algo especial. E talvez seja justamente aí que eu coloque Resident Evil, no nada de especial. Existe uma liberdade muito boa nas escolhas de Cregger, algumas ideias são realmente interessantes e o filme nunca parece estar tentando simplesmente refazer os jogos. Só que nem todas essas escolhas têm a mesma força.

O humor é uma dessas coisas. Eu gostei bastante de algumas das piadas e de como o filme não tem medo de ser engraçado mesmo em situações completamente absurdas. Mas também senti algumas vezes aquele problema de tom que já aparecia em Weapons. Só que, aqui, isso me incomodou um pouco menos. A passagem de uma cena mais pesada para uma piada ainda pode quebrar um pouco a tensão, mas Resident Evil consegue absorver melhor essa mistura. Ainda assim, em alguns momentos Cregger poderia segurar um pouco mais determinadas cenas antes de interrompê-las para fazer graça, justamente para provocar o efeito de tensão que ele parece estar querendo criar no filme todo.

E acho que essa irregularidade é o que mais impede o filme de chegar naquele nível que eu todo fã de jogos gostaria (não me enquadro aqui, nunca me importei com a franquia). Tem momentos muito bons, algumas sequências que realmente ficam na cabeça e uma energia muito própria, mas também existem escolhas que parecem um pouco menos resolvidas. Não chega a comprometer a experiência, só deixa o filme com uma sensação de que poderia ter sido um pouco mais consistente.

Quem funciona muito bem é Austin Abrams. Ele está excelente e parece completamente à vontade dentro desse tipo de filme. Existe uma graça muito específica na atuação dele, assim como em Weapons. Ele consegue carregar boa parte do humor e, ao mesmo tempo, fazer o personagem parecer uma pessoa de verdade no meio daquele caos. Para mim, é facilmente o grande destaque do filme como um todo. Seu personagem, Bryan, é só um cara normal (o que pode ser irritante para muitos) tentando sobreviver, e funcionou perfeitamente comigo.

Na história em si, gosto bastante do ponto de partida. Bryan é colocado no meio de uma situação que vai ficando cada vez mais absurda e o filme acompanha essa escalada sem transformar o personagem em alguém que já sabe exatamente o que está acontecendo. Ele é só um cara normal tentando sobreviver, e acho que isso combina muito com a proposta. A gente vai descobrindo aquele mundo junto com ele, enquanto os monstros e as situações vão ficando cada vez maiores.

Ao mesmo tempo, acho que a trama acaba ficando um pouco mais convencional conforme avança. O começo tem uma curiosidade maior, justamente porque existe uma sensação de não saber muito bem para onde Cregger está levando aquilo, mas depois o filme vai entrando em uma estrutura mais conhecida de sobrevivência e perseguição. O ato final, para mim, é onde isso pesa mais. Depois de construir situações e personagens que poderiam levar a história para caminhos mais estranhos, o filme acaba escolhendo algumas soluções mais fáceis e previsíveis (mesmo que isso não signifique caminhos mais confortáveis), além de concentrar muita coisa ao mesmo tempo. A sensação de descoberta do começo vai diminuindo e o roteiro passa a funcionar mais como uma sucessão de acontecimentos que precisam levar ao fim do que como uma história que ainda está encontrando seus caminhos, o que é muito igual ao jogo, creio eu. Então não chega a estragar ou comprometer o filme, mas é justamente quando eu mais queria que Cregger fosse um pouco mais ousado que ele acaba sendo mais convencional.

Também gosto de que o filme não dependa do conhecimento prévio dos jogos. Certamente tem muitas referências e escolhas feitas pensando em quem já conhece a franquia, mas existe uma história acontecendo ali que consegue funcionar por conta própria. Isso, para mim, vale muito mais do que uma adaptação tentando colocar cada elemento conhecido só para arrancar reação de quem já jogou.

No fim, Resident Evil é um bom filme e eu gostei de assisti-lo. Tem personalidade especialmente no trabalho de fotografia, tem boas ideias, um Austin Abrams ótimo e um humor que apesar de irregular, é divertido. Não chega no nível de Noites Brutais para mim, mas também não precisava chegar. É uma boa versão de Resident Evil, diferente o bastante para ter motivo de existir e irregular o bastante para não virar algo incrível ou memorável.

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