A dramaturga Aleshea Harris se destacou no circuito do teatro Off-Broadway – termo usado para designar teatros profissionais de Nova Iorque com capacidade entre 100 e 499 lugares, abaixo dos teatros da Broadway, que possuem capacidade de pelo menos 500 lugares, geralmente com orçamento inferior às produções da Broadway – com sua aclamada peça “Is God Is”, em 2018. Não tive a oportunidade de assistir à peça então não haverá comparações com o material original, mas diria que a discussão sobre qualquer mudança – se houver – me parece pouco dramática pelo fato da própria Aleshea ser a responsável por adaptar sua obra para as telas.

O título nacional “Ardente Vingança” claramente tenta se distanciar de uma tradução literal que confundiria o público – “Deus É” poderia ser lido como um filme religioso e não soa tão descolado como em inglês parece soar – e, apesar de genérico e pouco imaginativo de uma forma que não faz jus ao valor do filme, acaba sendo bem direto, uma espécie de trocadilho que resume a trama do filme. As irmãs gêmeas Racine (Kara Young) e Anaia (Mallori Johnson) foram marcadas pelo fogo de um incêndio que pouco sabem sobre. As queimaduras de Racine se destacam no seu braço esquerdo, enquanto as de Anaia se destacam em seu rosto. São marcas que, em um mundo em que a ignorância e a maldade não se diferem tanto em relação ao nosso, esperadamente as colocam em uma posição de desprezo e preconceito perante boa parte das pessoas.
Racine evidentemente tem uma maior passabilidade em comparação a Anaia, o interessante, porém, é como as personalidades se contrastam em relação ao que se esperaria. Enquanto Racine é muito mais explosiva e não aceita nenhum desaforo ao enxergar o preconceito nos olhos das pessoas, Anaia é extremamente doce no trato com as pessoas e procura sempre evitar o conflito e enxergar os aspectos positivos dos contatos que tem, e é claro que o mundo acaba sendo muito mais cruel com ela por esse motivo. Mas o importante é que Is God Is não é mais uma obra sobre preconceito em si. É sobre um acerto de contas. A origem do sofrimento dessas gêmeas transforma a narrativa em uma trama de vingança quando “GOD” (Vivica A. Fox) – entitulando a obra –, a mãe delas, também marcada pelo fogo, em seu leito de morte, reaparece explicando e apontando um culpado: o agressivo porém magnético marido/pai (Sterling K. Brown) as queimou vivas.

Quando pensamos em um filme de vingança como Kill Bill é natural compreender que a violência faz sentido na narrativa por como aquela história está inserida em um contexto de artes marciais e criminalidade. Apesar das primeiras cenas de Is God Is serem inconclusivas sobre qual tipo de história o filme de fato quer contar, logo se compreende que não se foge muito da “vida real” e na racionalidade dessa “vida real” o normal seria que uma tentativa de feminicídio tão violenta seja punida. O grande ponto da encenação de Harris, no entanto, é justamente a surrealidade e o exagero do mundo da obra em relação ao nosso. Através desse aspecto, apesar de ficcionalizar uma violência, se evidencia a sua existência no mundo real. É provável que um crime tão hediondo como esse fosse punido no nosso mundo, mas quantas violências contra as mulheres não são diariamente perdoadas pela justiça nos dias de hoje?
O discurso da obra é bem objetivo, não é um texto que se propõe a discutir ou contemplar profundamente essas questões. A partir da explicação da Deusa a mensagem já está clara, por mais que a dialética dos acontecimentos da narrativa, ainda assim, explore as nuances que se apresentam. Estruturalmente há um flerte com o road movie – filme de estrada –, as duas protagonistas precisam passar por um percurso atrapalhado em que buscam pistas para encontrar o seu vil algoz. Se torna um filme de (poucos) segmentos que evidenciam o aspecto de “loucura” desse mundo. Destacaria o que envolve uma Igreja e o que envolve o advogado – para não entrar em muitos detalhes, por mais que nada seja chocante em comparação ao incêndio que eu já entreguei.

A realidade de Is God Is se trata de um mundo gótico sulista, ou seja, se encaixa em um subgênero de obras ficcionais passadas no Sul dos EUA e influenciadas pela literatura gótica. Se evidencia os traumas sociais, uma violência intrínseca às relações sociais daquela região, um certo teor fantasmagórico, uma exacerbação dos sentimentos e uma certa irracionalidade. Em comparação, eu destacaria filmes como O Mensageiro do Diabo e os mais recentes Até os Ossos e Pecadores, por mais que pessoalmente eu enxergue uma certa comicidade em Is God Is que o diferencia dos demais. Acho interessante notar que o elenco é formado apenas – a menos que eu tenha esquecido de alguém – por atores pretos, o que praticamente tira uma discussão racial do foco – por mais que, caindo no grande público, a tendência é que haja reclamação por parte de alguns imbecis. Provavelmente não há uma grande reflexão da diretora em relação a isso e não precisa ter.
Entretanto, eu quero voltar ao título, não quero refletir profundamente sobre a gramática e a semântica mas me interesso pela estética da frase Is God Is, por como esse título soa e como essa sensação me faz perceber o filme de outra forma para além da sua literalidade. O Sul dos Estados Unidos é extremamente religioso, a própria história explora isso de certo modo, e compreendendo isso, a incorporação dessa religiosidade contemporânea é um reflexo dessa sociedade assim como os mitos gregos também refletiam sobre aquelas sociedades – por mais que praticamente nenhuma daquelas histórias tenham chegado a nós de forma pura, como elas foram originalmente pensadas, e sim através de muitas adaptações.
Não quero dizer que Is God Is seja uma obra essencialmente religiosa mas a surrealidade do mundo, a teatralidade da encenação – como é esperado sabendo que é originalmente uma peça – e o fatalismo, esse destino que chega para os personagens independente de suas ações, é bem próximo de uma ideia de tragédia aos moldes do teatro grego aplicado aos dias de hoje. Com certeza, pela relevância da obra, isso deve ter sido discutido bem melhor por pessoas que pesquisam profundamente Is God Is nos últimos anos, de todo modo, fica a minha contribuição.

Estudante de Publicidade, carioca da gema e fã de arte moderna, Pedro é um dos fundadores da Toca Cinéfila, e seu diretor favorito é Jean-Luc Godard.