Fidelidade- Precisa ser Igual para ser bom? opinião

Existe uma discussão sobre adaptações que parece sempre voltar: até que ponto uma obra precisa ser fiel àquilo que está adaptando? É uma pergunta compreensível, principalmente quando falamos de histórias que já possuem um público apaixonado. Quem leu um livro, jogou um game ou acompanhou uma HQ durante anos naturalmente cria uma imagem muito particular daqueles personagens e daquele universo. Quando o cinema ou a televisão apresenta algo diferente, a reação muitas vezes vem antes mesmo de qualquer julgamento sobre a obra em si: “isso não é o original”. O problema é que essa frase, embora possa descrever uma diferença real, não diz absolutamente nada sobre a qualidade da adaptação.

A própria ideia de adaptação como uma reprodução do original é bastante limitada. A teórica Linda Hutcheon (no livro A Theory of Adaptation) propõe pensar a adaptação como uma “repetição sem replicação”: existe uma relação direta com outra obra, mas isso não significa que a nova obra precise reproduzi-la. Robert Stam (professor- autor, coautor e editor de cerca de dezessete livros sobre cinema e teoria cultural, cinema francês, cinema brasileiro, etc), por outro lado, questiona a chamada “crítica da fidelidade”, justamente porque ela costuma transformar a relação entre original e adaptação em uma espécie de julgamento moral, como se modificar uma história fosse necessariamente traí-la. E talvez esse seja o primeiro ponto que precisamos aceitar: adaptar não é copiar. Adaptar é transformar.

Isso fica ainda mais evidente quando lembramos que diferentes meios contam histórias de maneiras diferentes. Um videogame não funciona como um filme. Um romance não funciona como uma série. Uma história em quadrinhos possui recursos de composição, ritmo e representação que não podem simplesmente ser transportados para uma tela. O jogador de Resident Evil, por exemplo, não está apenas acompanhando uma narrativa: ele explora espaços, administra recursos, resolve enigmas, escolhe caminhos, sente tensão através da própria interação. Transformar isso em cinema significa necessariamente abandonar algumas coisas e encontrar equivalentes para outras. Por isso, uma adaptação cinematográfica não deveria ser julgada apenas pelo número de elementos que conseguiu transportar, mas talvez, pelo que conseguiu fazer com eles.

O debate recente em torno de Resident Evil é interessante justamente por isso. O novo filme de Zach Cregger não pretende simplesmente transformar um dos jogos em roteiro cinematográfico. A produção foi concebida como uma história situada na periferia daquele universo, inspirada mais nas mecânicas, no ritmo e na experiência de jogar do que na reprodução de uma determinada campanha ou de seus personagens. O protagonista, por exemplo, não é simplesmente uma versão cinematográfica de Leon, Chris ou Jill. É Bryan, um entregador de órgãos atravessando uma Raccoon City tomada por zumbis. Para alguém que procura uma transposição literal, isso pode parecer um problema. Para alguém interessado em saber se existe ali um bom filme de terror, a pergunta é outra.

É justamente aí que entra uma distinção importante: uma adaptação não precisa ser fiel aos acontecimentos para ser fiel à experiência que deseja reconstruir. Resident Evil pode abandonar personagens conhecidos e ainda tentar preservar determinadas sensações associadas aos jogos: exploração, tensão, espaços que parecem esconder alguma coisa, mudanças constantes de ambiente, violência repentina e a sensação de avançar por uma estrutura que parece construída em fases. O próprio Cregger falou sobre a intenção de reproduzir cinematograficamente algo da experiência de jogar, inclusive utilizando mudanças de ambiente como uma espécie de progressão de níveis. Nesse caso, adaptar o jogo não significa necessariamente filmar o jogo.

A discussão em torno de Lanterns também parte de uma questão parecida. Sempre que uma nova interpretação de um personagem conhecido aparece, existe uma parcela do público que imediatamente identifica as diferenças como “deturpação”. Só que personagens de quadrinhos nunca foram objetos completamente estáticos. Batman já foi detetive noir, herói camp, vigilante sombrio, personagem de ação, pai de família, figura quase mitológica e até protagonista de comédia. O mesmo vale para Superman, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha e praticamente qualquer personagem que tenha atravessado décadas de histórias e dezenas de autores. Se existe uma única versão “verdadeira” de um personagem, ela provavelmente nunca existiu de fato.

O caso de The Odyssey, de Christopher Nolan, talvez seja ainda mais interessante porque demonstra que nem mesmo uma das obras fundamentais da literatura ocidental precisa ser tratada como um roteiro intocável. O filme preserva a ideia central do retorno de Odisseu para casa, mas modifica episódios, personagens e ênfases. Nolan aproxima a história de uma narrativa sobre guerra, culpa, memória e trauma, corta personagens e acontecimentos, transforma outros e até introduz elementos que não estão no poema de Homero. Isso não transforma automaticamente o filme em uma “versão correta” ou “incorreta” de A Odisseia. Significa que Nolan está fazendo uma leitura de Homero, a sua leitura.

E talvez seja justamente essa palavra que falte em boa parte das discussões sobre adaptação: leitura. Adaptar é interpretar. Quando um diretor escolhe modificar uma personagem, retirar uma cena, inverter uma relação ou mudar o tom de uma história, ele está necessariamente dizendo alguma coisa sobre o material de origem. O problema não está na mudança em si. O problema aparece quando a mudança não produz nada. Uma alteração pode ser brilhante, desnecessária, equivocada, interessante ou péssima. O que não faz sentido é tratá-la como boa ou ruim simplesmente porque aconteceu.

Um dos exemplos mais conhecidos é O Iluminado, de Stanley Kubrick. O filme se distancia consideravelmente do romance de Stephen King, a ponto de o próprio King ter demonstrado forte rejeição à adaptação. Ainda assim, é difícil argumentar que o filme exista apenas como uma versão defeituosa do livro. Kubrick pega a história de King e a transforma em outra experiência, muito mais interessada na arquitetura, no isolamento, na deterioração psicológica e na ambiguidade do que em reproduzir todos os mecanismos narrativos do romance. O filme se tornou uma obra de horror marcante apesar das liberdades tomadas em relação ao livro.

E isso não significa que toda adaptação livre seja automaticamente boa. Essa é uma diferença fundamental. Dizer que fidelidade não é sinônimo de qualidade não significa dizer que fidelidade é irrelevante ou que qualquer mudança merece ser defendida. Uma adaptação pode alterar tudo e continuar sendo ruim. Pode inventar personagens, mudar o final, trocar o gênero e ainda assim não ter nenhuma ideia interessante por trás dessas escolhas. Da mesma maneira, uma adaptação pode reproduzir quase integralmente o material original e funcionar muito bem. A questão não é escolher entre fidelidade e liberdade. É perguntar se as escolhas da nova obra fazem sentido dentro dela mesma.

Por isso, talvez a pergunta mais produtiva diante de uma adaptação não seja “o que ela mudou?”, mas “por que ela mudou?”. A diferença é enorme. Se um filme modifica uma personagem apenas porque seus produtores acreditam que determinada característica venderá mais ingressos, existe uma discussão legítima a ser feita sobre a questão mercadológica da coisa. Se uma série muda um personagem porque precisa desenvolver uma trajetória que funcione em um formato episódico, existe outra. Se um diretor muda uma história porque quer discutir o material de origem a partir de uma perspectiva própria, temos ainda outra possibilidade. A mudança deixa de ser o problema e passa a ser um objeto de análise.

O caso de Greta Gerwig em Narnia é particularmente interessante nesse sentido. A escolha de Meryl Streep para a voz de Aslan gerou discussões justamente porque o personagem tradicionalmente é apresentado como masculino. Ao mesmo tempo, a própria informação disponível sobre o filme ainda (na data da escrita deste texto, dia 17/09/1016) não permite afirmar simplesmente que Gerwig transformou Aslan em uma personagem feminina; a produção apresenta Streep como a voz de Aslan, enquanto a caracterização de gênero do personagem permanece uma questão mais ambígua. Mas mesmo que a interpretação caminhe nessa direção, a pergunta interessante não deveria terminar em “mudaram Aslan?”. Deveria começar ali: o que essa mudança significa dentro da leitura que Gerwig está fazendo de C. S. Lewis?

Porque uma obra não ganha qualidade simplesmente por respeitar aquilo que veio antes. O Senhor dos Anéis de Peter Jackson não é Tolkien em imagens. O Iluminado não é Stephen King filmado. Blade Runner não é uma transposição literal de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Apocalypse Now não é simplesmente Heart of Darkness no Vietnã. Isso sem contar vários exemplos de quando a adaptação muda o personagem que vai ser utilizado como base, como a recente versão de Scott Pilgrim ou Mestres do Universo, ambas séries animadas Netflix. São obras que entram em diálogo com outras obras. Algumas preservam personagens, outras preservam ideias, outras preservam atmosferas, conflitos ou estruturas. E algumas usam o material de origem quase como uma provocação para construir outra coisa.

No fundo, existe uma contradição curiosa na obsessão pela fidelidade: quanto mais uma adaptação tenta reproduzir exatamente aquilo que já existe, menos motivo pode haver para ela existir. Se a experiência que o público procura já está disponível no livro, no jogo ou na história em quadrinhos, por que precisamos de uma segunda versão que apenas repita suas decisões? Uma adaptação pode oferecer algo que o original não poderia oferecer justamente porque mudou de meio, de época, de linguagem e de perspectiva. A existência de uma obra anterior não deveria impedir a nova obra de possuir personalidade própria.

Isso também explica por que algumas adaptações permanecem interessantes mesmo quando o público conhece profundamente o original. Existe prazer na familiaridade, mas também existe prazer na diferença. Linda Hutcheon observa justamente que a adaptação trabalha nessa tensão entre reconhecimento e novidade. Reconhecemos a história, os personagens ou determinados elementos, mas também queremos descobrir o que acontecerá com eles quando forem reorganizados. Se tudo for idêntico, temos reconhecimento sem surpresa. Se tudo for completamente diferente, talvez reste pouca relação com a obra que supostamente está sendo adaptada. O território mais interessante costuma estar nesse meio, onde existe continuidade suficiente para reconhecermos a origem e diferença suficiente para existir uma nova obra.

Linda Hutcheon

Por isso, uma boa adaptação deveria ser capaz de sobreviver a uma situação que talvez seja o melhor teste de todos: ser assistida por alguém que nunca teve contato com o original. Se essa pessoa precisa conhecer o livro para entender os personagens, o jogo para compreender as regras ou a HQ para perceber por que determinada cena deveria ser emocionante, existe um problema. A adaptação pode dialogar com quem conhece a obra original, pode esconder referências, brincar com expectativas e até subverter aquilo que o público espera. Mas ela precisa funcionar também para quem está chegando pela primeira vez.

No fim, talvez a melhor adaptação não seja aquela que conseguimos colocar lado a lado com o original e marcar cada diferença, como quem corrige uma prova. É aquela que nos permite voltar ao original depois e enxergá-lo de outra maneira. Uma adaptação realmente interessante não precisa substituir sua fonte, muito menos provar que a fonte estava errada. Ela pode simplesmente apresentar outra possibilidade para aquela história existir. E é justamente por isso que “não é igual ao original” deveria ser o começo de uma conversa sobre uma adaptação, e não a conclusão dela.

A fidelidade pode ser uma escolha estética, uma qualidade ou até uma parte fundamental do prazer de determinada adaptação. Mas ela não deveria ser tratada como uma condição para a obra se bastar. O cinema não tem a obrigação de obedecer ao livro, assim como uma série não precisa obedecer ao jogo e um diretor não precisa reproduzir a interpretação que outro artista fez décadas antes. O compromisso mais importante de uma adaptação é com a obra que está sendo construída naquele momento. Ela precisa saber de onde veio, mas também precisa saber por que existe. E, acima de qualquer comparação, precisa conseguir se sustentar quando as luzes se apagam e aquilo que resta na tela deixa de ser “uma adaptação de alguma coisa” e passa a ser simplesmente um filme.

 

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